Thursday, December 03, 2015

Tempos diferentes

Tempos diferentes estes que vivemos. Onde cada cara é diferente e cada diferença é um medo. Onde os militares armados na rua se fazem hábito e nas mãos carregam armas. Onde quem passa, passa quase habituado mas ainda assim olha de soslaio. Onde as ruas deixam de ser pontes para mais além, para serem apenas indesejados caminhos entre dois pontos precisos (dois portos de abrigo?). Onde cada um de nós é "um deles" em potência, em prova contínua de o não ser e de mais não ser do que o que o cartão diz que somos. Se éramos pessoas e depois números, hoje somos o que o cartão diz. Uma foto e uns dados guardados numa máquina qualquer. Só assim eles sabem que somos nós. E nós? Sabemos quem somos? Ainda seremos os mesmos agora que vamos aceitando tudo isto e deixando de ver como são diferentes os tempos que hoje vivemos?

Friday, November 13, 2015

Principios

Cada vez me convenço mais que poder e ética são incompativeis.
(Mas o que me espanta é como conseguem dormir os que se desvinculam da ética)!

Tuesday, February 03, 2015

Bomba, ou de como nos devemos preparar para tudo


De vez em quando assumo a minha condição de toupeira.
Quando acho que o frio é demais, quando as estrelas se conjugam para que eu me desloque de carro, vou de garagem a garagem e imagino, mais do que sinto, os poucos graus atmosféricos.
Resolvi ser racional: para que preciso eu de casaco nestas condições? E foi só porque "o seguro morreu de velho" que decidi vestir um casaco, leve para a época, mas ainda assim casaco. Prescindi, contudo, das luvas e do gorro.
E paguei! Em calorias presumo, que se consumiram aos montes para me manter numa temperatura aceitável (ainda que eu tivesse achado que estava a pontos de congelar!).
Uma bomba! Melhor dito, uma ameaça de bomba, que daí não passou.
Edifícios evacuados, polícia enervada, ruas barradas, e nós por aí, o que se passa? O que fazemos?
Acabei por me refugiar num café, para ver se aquecia.
Tudo acabou bem.
Hoje tenho um casaco como deve ser. Aprendi a lição.

Friday, January 30, 2015

Mãos

Sempre gostei de fazer coisas com as mãos.
Quem beneficia são os amigos que recebem os resultados das minhas fases...criadoras. Sim, para que quereria eu 30 écharpes de lã, ou dezenas (centenas?!) de marcadores de livros?
As lojas de "trabalhos manuais" são uma das minhas perdições. Isso e as livrarias.
E nada perturba este gosto: ponho a Internet, o e-reader e demais aparelhos ao meu serviço. Não substitui nada, acrescentei mais uma coisas.
Agora estou a tentar, devagarinho, escrever de novo.
Aqui e com duas lindas canetas de tinta permanente que comprei.
No fundo, quero tudo.

Thursday, January 29, 2015

Recolhimento

Deleito-me com Nikos Kazantzakis. Descubro a sua vida, sobretudo descubro o seu pensamento com o seu Report to Greco. Como se ele estive ao mu lado, a conversar, a dissertar.
Somos imortais, diz-me, enquanto houver quem se lembre de nós.
 
E ele, que morreu em 1957 segundo o saber dos homens, está ali, vivo, ao meu lado, fazendo-me sorrir por vezes, pensar, quase sempre.
E concordo, claro que concordo.
E dou as boas-noites ao meu pai.

Saturday, January 24, 2015

Em tons de branco e sol

Os meus planos derreteram-se no manto branco que me amanheceu.
Deixei, portanto o carro arrumado e percorri a pé as ruas do meu bairro fingindo não ver a lama que a doçura matinal ia criando.
Tinha saudade do silêncio calmo que a neve instala na cidade.
Que, entretanto, acordou.
Retomei a volta habitual dos fins-de-semana.
Dei um pulo ao alfarrabista, a minha biblio-lotaria. Encontrei dois novos livros que já estão ali na pilha a ler.
O sol, tão raro, surgiu. Sei que vai acariciar a neve até a derreter.
Que importa.
Pela janela entram jorros de luz amarela que me iluminam a alma.
Vou ler.

Thursday, January 15, 2015

Apetece-me


Apetece-me voltar.
Talvez porque lá fora a chuva e o vento puxam para dentro, pra dentro de quatro paredes, para dentro de nós.
 
A alma enrosca-se no quentinho do lar e procura, cá dentro, espaço para se espreguiçar. O blogue, este abandonado blogue, pareceu-lhe uma boa opção.
 
A caneta de tinta permanente repousa ao lado. Ainda não se habituou a ser um objecto for de moda. Não desiste de ter tinta no bico. Vai escrevinhando por aí, mas não por aqui, espaço virtual, o meu possível real aqui.
No fundo, eu sou também eu aqui. Não me reinvento virtualmente. Talvez me falte imaginação para tanto.