Wednesday, March 23, 2005

Dia a dia

Vou vivendo sentindo cada hora, lentamente, escoando-se com dificuldade.

Não tenho janela que me distraia e que me alumie. O meu novo gabinete é escuro, escuro e com vista para um prédio mesmo em frente, agora em construção. Os trabalhadores colocam neste momento as janelas o que faz com que deixe de ver as obras a decorrer dentro do edifício e passe a ver o reflexo do edifício onde estou. Nos andaimes, esses mesmos trabalhadores, entre duas janelas colocadas, fumam uns cigarritos e falam ao telefone. Acabaram-se as vistas!
O trabalho também já perdeu grande parte das suas capacidades terapêuticas; ou sou eu que não estou com capacidade para as descobrir. As sensibilidades políticas de uns e de outros aborrecem-me: são jogos de palavras com a importância que só os protagonistas lhes atribuem sem imaginar que os malabarismos perdem o seu fulgor na tradução para 21 línguas (sim, a União Europeia funciona (será possível?) com 21 línguas). O "prima donismo" de certas pessoas já nem me irrita, só me cansa.
A pressão e o stresse levam-me a vaguear por longe (nem sei onde), num sítio que seja quente e que torne os meus problemas (sempre prementes claro) irrelevantes: quero lá saber da Constitutição europeia, das cartas que os cidadãos europeus enviam, da legislação que o Parlamento Europeu exige e que o Conselho repudia; quero lá saber das obras em casa e dos tipos que dizem que chegam às 9h00 e nunca chegam, das dúvidas existenciais de uns e da necessidade fundamental de dietas de outros (porque, afinal, as roupas de verão já estão nas montras); quero lá saber dos preparativos para o próximo fim de semana que têm como último objectivo preencher espaços vazios e enganar a enorme solidão interior.
Eu quero paz interior para poder dormir e acordar, como num sonho, noutra vida. É só isso! E é impossível.

2 Flocos de neve

Blogger Laura Lara atirou uma bola de neve ...

Para muitas pessoas a grande dificuldade é adequarem-se ao mundo em que vivem. Não é fácil aceitar a inexistência de quaisquer espécies de valores. Não é fácil aceitar que filhos não respeitem os pais. Não é fácil aceitar que os pais não respeitem os filhos. Não é fácil aceitar que o conceito de família está em vias de extinção. Não é fácil aceitar que alunos não respeitem os professores. Não é fácil aceitar que sistematicamente se desrespeitem as leis. Não é fácil aceitar que a corrupção seja considerada uma necessidade quase vital. Não é fácil aceitar os compadrios, as “cunhas”. Não é fácil aceitar que os competentes sejam considerados néscios. Não é fácil aceitar que os trabalhadores sejam considerados parvos. Não é fácil aceitar tanto egoísmo. Não é fácil aceitar a quase absoluta falta de solidariedade. Não é fácil viver. Mas procuremos! Ainda há coisas boas neste mundo. Ainda há pessoas sãs. Agarremo-nos a elas e lutemos pela sua sobrevivência. Afinal, o mundo não é o paraíso. E é neste mundo que temos de viver. Ainda que seja no cinzento de Bruxelas ou noutros cinzentos, que tantos há.

5:20 pm  
Blogger Pitucha atirou uma bola de neve ...

Há dias em que tudo o que diz nos faz muito sentido. Outros em que o cinzento nos entra pela alma a dentro e não há maneira de acreditar que se vai vislumbrar de novo o sol.
Mas como diz a avó: viver não custa, o que custa é saber viver.

8:47 am  

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