Friday, April 08, 2005

Direitos e deveres

Vários são os meios à disposição dos cidadãos comunitários para se dirigirem à Comissão europeia. A maior parte das vezes fazem-no para apresentar queixas, por vezes justificadas, por vezes apenas gritos de alma de quem não sabe mais o que fazer neste mundo burocrático e complexo.
Uma vez chegou-me às mãos uma missiva com um grito de alma diferente: alertava este cidadão europeu para o facto de a União se gastar na promoção dos direitos da cidadania europeia sem nunca falar dos deveres.
Parece, de facto, que a dicotomia entre as duas realidades (que são no fundo as duas faces da mesma moeda) corresponde a uma maneira muito particular de encarar a vida: os direitos podem exigir-se dos poderes públicos cuja única obrigação seria promovê-los e protegê-los. Os deveres, esses, fariam parte da esfera da moral, privada e íntima, sem que nada nem ninguém possa reclamar do seu cumprimento (ou incumprimento).
Corresponde ao l’air du temps: cada indivíduo vive para si e contra os outros. A ideia de viver para si e para os outros (ou para os outros e para si!) é apelidada de tonta e de retrógrada.
Somos então muitos milhões de bolinhas estaques exigindo tudo aquilo que no nosso imaginário fará a nossa felicidade total, absoluta e permanente. E acreditamos mesmo nisso! E ficamos muito chocados quando os tais tontos e retrógrados nos chamam pelo nosso nome: egoístas! Simplesmente. Mas ficamos ainda mais espantados quando não somos totalmente, absolutamente, permanentemente, felizes!