Wednesday, June 29, 2005

Update

E troveja! E como!

Coerência

Rapidinho, só para dizer que chove em Bruxelas! Voltou o cinzento. Não vou ter que mudar o nome do blogue!

Vistos

Estou habituada a viajar para países que exigem visto de entrada e sigo sempre o mesmo percurso para obter informações: telefono para a embaixada do país respectivo, pergunto o que tenho que levar para obter o tal visto e, dias mais tarde, aí vou eu com o necessário.

Normalmente tudo corre bem e, se fosse isto o que eu queria dizer, o post acabaria aqui! Mas não é. Porque uma das informações que sempre me dão é o preço, consoante eu tenha urgência ou não (mais caro o primeiro, claro!).

Ora, uma das minhas últimas chamadas telefónicas para colher informações colocou-me perante a seguinte situação: o visto normal custa 40€ e demora 48h, o urgente custa 50 € e é só esperar um bocadinho, o tempo da assinatura.

Fiquei a pensar: para que serve um visto? Julgava que era para aqueles senhores irem ver se eu era boa pessoa, digna de ser recebida no país que de que são orgulhosamente oriundos. Isto é, se as consultas aos arquivos e ficheiros, não acendia luzes vermelhas de aviso e precaução.

Agora, um visto que demora a obter o tempo de eu preencher o formulário e de os funcionários porem os carimbos e assinaturas necessários não é controlo nenhum: é uma mera fonte de receitas. Mais valia que a cobrassem à entrada do país, sempre evitava o tempo que se perde com um telefonema e uma deslocação à embaixada do país em questão!

Tuesday, June 28, 2005

Palavras

Diz o Lutz que não existe linguagem inocente. Isto a propósito de um texto daqui!
O peso que damos a cada palavra impede, efectivamente, que a linguagem seja inocente; até porque é um código a que a sociedade falante atribui sentidos e valores. É balizado por normas (sendo as gramaticais as mais evidente) mas também por sentidos éticos permanentemente em movimento. O “politicamente correcto” mais não é do que a tradução, por vezes exagerada e logo ridícula, desses limites éticos ou morais que a sociedade abraça a cada momento e que nos obriga a uma atenção dupla: para nos mantermos a par da evolução desses limites (caso contrário seremos politicamente incorrectos) e para adaptarmos a linguagem em conformidade.
Um exemplo disto é a “Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia” que reúne num texto todos os direitos “fundamentais” cujo respeito se impõe às instituições da União e aos Estados-Membros quando aplicam o direito comunitário.
Estes direitos correspondem, em grande medida aos direitos consagrados na Convenção Europeia dos Direitos do Homem, do Conselho da Europa e na Declaração Universal dos Direitos do Homem, da ONU.
A utilização da expressão “Direitos Fundamentais” (que já deu e continuará a dar origem a muitas análise doutrinais) tem, no fundo, uma explicação prosaica: impunha-se usar um título que fosse neutro do ponto de vista masculino/feminino: não podia portanto usar-se direitos do homem!
Não vale a pena pararem por aqui: este facto linguístico foi aceite, foi integrado e hoje, se ouvirem falar, no âmbito da União Europeia em direitos do homem por um lado e em direitos fundamentais por outro saberão que se está a falar na dimensão externa da União no primeiro caso e na dimensão interna no segundo. Isto é, nas relações externas a União promove o respeito dos direitos do homem no mundo; dentro de casa, ela preocupa-se em promover e respeitar os direitos fundamentais.
Meras palavras, mas as palavras também servem para isso, para serem interpretadas, adaptadas, torcidas, maltratadas, enformadas, conformadas….

Monday, June 27, 2005

Festa no bairro

Vivo num bairro colorido onde se misturam raças e nacionalidades sem confrontos nem insegurança. Posso, sem precisar de carro, beber bicas portuguesas, comer pizzas ou sushi, saborear caipirinhas ou mojitos, comprar tâmaras ou tecidos africanos. Até poderia, se quisesse, fazer trancinhas no cabelo!

No fim-de-semana toda esta gente esteve em festa de rua: stands de comida, outros de artesanato e vários com velharias várias que se guardam nos sótãos e gavetas até ao dia em que o espaço falta. E música, que não se pode vir ao Matongé (little Congo) sem música.

O tempo ajudou. Com as estradas fechadas na zona da festa, os cafés alongaram as esplanadas e os grelhadores ocuparam o asfalto.

Para o ano haverá mais!

Friday, June 24, 2005

Gozar o Verão

Mexilhões com batatas fritas e uma cerveja geladinha, numa esplanada perto da Grand Place. Bem bom. E mais belga é difícil!

Thursday, June 23, 2005

Perplexidade e confissão

Começo pela confissão : Bruxelas deixou de estar cinzenta e parece que o Verão vai continuar por mais uns dias (aliás, eles estão cheios de medo da canícula, como lhe chamam, porque os termómetros vão chegar aos 30°C!).
As pessoas estão maravilhadas com este fenómeno e até a crise já foi esquecida… Não pensem em arranjar lugar nas esplanadas porque está tudo ocupado. Os jardins também estão cheios. Bruxelas está colorida e simpática.

Agora a perplexidade: anteontem, fazendo zapping, passei pela RTPi e caí num programa chamado “Regiões”. A notícia (que não vi desde o princípio) era acerca de uma senhora que, numa aldeia algures (não percebi qual) fora acorrentada pelo marido a um tanque de água (!) onde permaneceu uma semana praticamente sem comer. Conseguiu escapar e pediu ajuda a um familiar. Estava no hospital! Como de costume, a televisão lá foi entrevistar habitantes da aldeia que a repórter qualificou de pacata e chocada com o acontecimento. Falaram com um senhor que disse esta coisa espantosa, e cito de memória: “isto não se faz, isto está mal! Se ela se portou mal, pronto, ele dava-lhe duas lambadas, isso sim, agora acorrentar não se faz!”. E acabou a notícia… Presumo que a RTPi ache normal isto das lambadas!

Wednesday, June 22, 2005

Perplexidades

Bebi, pela primeira vez, um “Red Bull”: para não morrer estúpida e para não entristecer os tipos da publicidade que insistem em dizer que é uma bebida “qui donne des ailles” e que agora há em versão “sugarfree”.
Então porque é que ela é doce e me deixou com a mesma moleza com que estava antes?

Círculo vicioso

Acabei de ler um livro sobre o Padre anglicano Arthur Shearly Cripps que morreu em 1952 na Rodésia onde viveu cerca de 50 anos. Segundo o livro, escrito por um sobrinho neto, Owen Sheers, Arthur Cripps, escolheu viver de costas voltadas para a Comunidade branca residente na então colónia britânica e opôs-se a muitas das medidas tomadas pela administração colonial nomeadamente aquelas que se referiam à terra (posse, propriedade, ocupação) que reservavam o melhor, em quantidade e qualidade, para os brancos. O autor diz-nos então que as convulsões existentes no Zimbabué em matéria de terra têm origem nesses tempos e nessas decisões do princípio do século XX.
Não tenho nada contra reconhecer erros do passado. Conhecer as causas de um problema pode ajudar a encontrar a melhor solução. Agora, reagir a título de “vingança” sem rei nem roque não me parece ser a melhor maneira de preparar um futuro. Dê-se razão ao Pe Cripps (se ele a tiver, claro!) e siga-se em frente.
Mas admito que as coisas nem sempre são tão simples!

Tuesday, June 21, 2005

Outros dizem

E-mail amigo chamou-me a atenção para este post. Eu li-o com atenção, apesar de longo.

Europa

No dia mais longo do ano, com o céu bruxelense coberto de nuvens brancas (que, dizem, partirão ainda hoje), começo mais um dia de repor pedra sobre pedra depois dos estragos do fim-de-semana passado. Faço-o com um novo vigor porque, no fundo, a crise interpela-nos a todos. Uns porque acham que a Europa está por um fio e já festejam o evento; outros, porque entendem o que se passou como mais uma confirmação de que os políticos não valem nada! Eu, porque acho que um projecto ambicioso como este não deve, não pode soçobrar perante meros interesses nacionais.
Quando o Presidente da Comissão disse que aquilo que foi verdadeiramente rejeitado pelos franceses e pelos holandeses foi o “contexto e não o texto” (da Constituição, entenda-se) acertou.
Espero que os responsáveis tenham a capacidade de perceber tudo isto e de aproveitar a pausa de reflexão para limpar o que há a limpar e para retomar o caminho da construção deste projecto europeu.Afinal, e aqui está de novo o toque positivo, foi (e é) o modelo para o Mercosul e para a União Africana: oxalá eles aprendam com os nossos erros!

Monday, June 20, 2005

Crise

Vendo o lado positivo das coisas: nunca se falou tanto da União Europeia como agora!

Friday, June 17, 2005

Cobras e lagartos

Hoje é um daqueles dias em que o problema são os outros! Em tudo!
É um daqueles dias em que o cinzento ambiente invade a nossa alma.
Só a boa educação me impede de dizer o que penso, neste momento, desses outros que me rodeiam.
Que raiva!

Thursday, June 16, 2005

Fiquem a saber

O sítio da delegação da Comissão Europeia em Portugal:

Falta de informação

Ontem estive num jantar com ilustre político da nossa praça que, falando sobre a Constituição europeia, mencionou o problema da falta de informação.

Não é a primeira vez (nem será a última com certeza) que a questão da informação, sobretudo da sua falta, é apontada como responsável por uma certa ignorância generalizada sobre assuntos à primeira vista importantes. Sim, porque do Euro 2004 todos ouviram falar e ninguém se queixou de falta de informação!

Quando os tais assuntos que se ignoram têm a ver com a União Europeia a Comissão é normalmente criticada por ser a responsável pela tal falta de informação.

Excluindo o facto de a Comissão não ser uma agência noticiosa e de competir aos jornalistas informar (são aliás muitos os que estão acreditados junto das instituições europeias), creio que a acusação é, na maior parte dos casos, infundada.

Voltemos ao exemplo da Constituição!

A dita foi redigida por uma Convenção que não só trabalhava em sessões públicas, como tudo era publicado na Internet. Nesse sítio da Internet havia também um fórum onde qualquer pessoa podia participar. A própria Convenção (a tal liderada por Valéry Giscard d’Estaing) era constituída por representantes de todos os governos dos Estados-Membros, por representantes dos parlamentos nacionais, por representantes do Comité Económico e Social (logo, dos grupos económicos e profissionais de todos os países da União) e por representantes das instituições da União. Até os jovens tiveram a sua palavra a dizer dado que se reuniram durante uns dias numa Convenção jovem para dar o seu parecer!

A primeira versão do projecto de Constituição (isto é, antes de o texto ser aprovado em conferência intergovernamental pelos Estados-Membros) estava publicada em todas as línguas na Internet e a versão em papel era enviada gratuitamente a qualquer pessoa que a solicitasse (eu fiz a experiência e pedi-a em duas línguas e recebia-a em casa sem problemas).

A versão final do texto está publicada na Internet (em sítio que já divulguei) juntamente com vários textos explicativos. De igual modo, tudo, ou quase tudo, existe em papel e basta pedir para obter esses documentos.

O Presidente da Comissão e os comissários desdobram-se em entrevistas e conferências sobre a Constituição (entre outros assuntos) e a direcção-geral Imprensa da Comissão divulga muita informação junto dos jornalistas em Bruxelas e junto de todas as delegações da Comissão nos Estados-Membros.

Resta dizer que o mesmo se passa com outros documentos como, por exemplo, a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia que também é uma desconhecida…

Não penso que a Comissão possa fazer muito mais! Outros devem colaborar na divulgação da informação, nomeadamente os jornalistas a quem incumbe uma grande responsabilidade nessa matéria, em meu entender. Mas, e sobretudo, cabe a cada cidadão ir buscar essa informação disponível.

Ou não acham que é assim?

Wednesday, June 15, 2005

Desculpem

Pedimos desculpa por esta interrupção, o blogue segue dentro de momentos!

Friday, June 10, 2005

Dia de Portugal

Colega para a filhota, ambas portuguesas vivendo no estrangeiro :

- Então, ensinaram-te na escola que dia é hoje?

- Sim, é o dia de Portugal!

- E mais?

- ?

- de Ca…

- pois e de cá também!

- Não, de Camões.

- Ah pois. E de Camões.

- E mais?

- ?

- E das Comunidades portuguesas espalhadas …

- pelo chão!

Thursday, June 09, 2005

Recado

LIBERDADE

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por Dom Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

Tanto que fazer!

Tenho tanto trabalho, mas tanto, que só me apetece parafrasear Woody Allen " I don't want to achieve immortality through my work... I want to achieve it through not dying."

Wednesday, June 08, 2005

Como dizer?

Sabem como é quando as palavras não chegam para a gente dizer o que nos vai na alma?
Quando se começa três vezes a frase e das três se desiste porque não é aquele o caminho certo?
Quando se decide dar uma de Mia Couto e se desata a inventar palavras e se chega à conclusão que assim também não dá?
Quando se tenta rascunhar primeiro em papel e se amachucam várias folhas?
Sabem como é?
Por falta de palavras ou por falta de talento para as escolher, hoje não há post.

Tuesday, June 07, 2005

Café

Vou lá a baixo à máquina, tomar um café! Sim, é uma coisa imbebível, que sai de uma máquina automática para dentro de um copo de plástico depois de se ter metido uma moedinha.
Bebo mais por estúpida tradição do que por outra coisa qualquer.
Mas sempre serve para sair do gabinete e, por vezes, dá para trocar dois dedos de conversa com outros colegas ensonados e friorentos em busca de luz e calor na tal bebida servida num copo de plástico.
Alguém quer vir comigo?

Monday, June 06, 2005

Solução

Eu acho que deviamos resolver os problemas da Europa a partir daqui! Afinal, é preciso uma certa distância para perspectivar...

Encravou

O termómetro encravou nos 13°C! E a palete encravou no cinzento!
Restam os livros e os DVD para animar!
Resultado, um fim de semana que me saiu caro na Watersotones (livros) e na Mediamarkt (DVDs).

Friday, June 03, 2005

"Drama Box"

Fui ver a Mísia !
Está a lançar o último CD chamado “Drama Box”.
A sala estava cheia; portugueses como não podia deixar de ser mas muitos belgas também.
O espectáculo foi lindo, a voz dela é soberba, as canções (fados e outras tipo boleros) profundas e apelativas.
Convém dizer que a sala ajuda à harmonia.
Em resumo, um serão bem passado.

Thursday, June 02, 2005

Outra vez!

Bruxelas não sabe se há-de deixar passar o sol ou não! Uns momentos sim, outros não.
Já nem quer saber o que fazer com o (anunciado) não holandês...

Wednesday, June 01, 2005

Dia mundial da criança

What we want is to see the child in pursuit of knowledge, and not knowledge in pursuit of the child.

George Bernard Shaw

Sonho de criança

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão
In Movimento Perpétuo, 1956

Para os Gémeos (eu também sou!)

Dia de Anos

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto;
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal: porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa: que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira.


João de Deus