Sunday, April 30, 2006

Post matutino

Tanto me disseram, quando era pequenina, que "deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer", que acabei por acreditar!
Agora vou à minha vida.
Desejo-vos um bom, um feliz, um santo domingo.

Friday, April 28, 2006

"Júlia florista"

Atravessei a Grand Place distraidamente. Estava entregue aos turistas, à sua admiração, ao seu modo de andar sem rumo, perdendo-se em linhas curvas que dificultam a trajectória de quem tem destino.

Nem sequer levantei a cabeça para as paredes rendilhadas dos prédios que envolvem a praça. Limitei-me a notar a presença, mais visível, de polícias depois dos funestos acontecimentos de há 15 dias (em que um jovem foi morto por outros dois jovens que lhe roubaram o leitor de MP3).

De facto, ia com alguma pressa porque tinha um encontro marcado. Num café de decoração decadente, em que os recortes de madeira "art nouveau" se reflectem em colunas forradas a espelhos e onde o pequeno palco se encosta a uma parede pintada de vermelho escuro.

A sala já estava quase cheia: em várias línguas toda aquela gente ali estava para ouvir cantar o fado. Amália é ainda nome do fio que une diferentes nacionalidades no gosto pelo fado. Amália era, portanto, o nome do concerto.

Circulavam cervejas e pratinhos de queijo e de presunto, o fumo dos cigarros desenhava abstractamente nos focos de luzes, sorrisos e acenos de cabeça identificavam amigos, reconheciam conhecidos.

Na mesa do fundo, um xale preto sobre um vestido longo com discretas flores verdes e vermelhas, e uma bonita écharpe laranja a animar um conjunto preto identificavam as fadistas, ao lado, os músicos, viola e guitarra portuguesa.

Quando o apresentador pediu silêncio, porque se ia cantar o fado, o local perdeu por fim o seu ar de clube de jazz e ganhou o toque boémio, a cheirar a Tejo, das casas de fado lisboetas.

Cantaram, encantaram, bisaram.

E só quando regressei a casa, ainda com o choro da guitarra a vibrar em mim, me dei conta de que tinha tido, em Bruxelas, um encontro com a minha alma portuguesa.

Thursday, April 27, 2006

Post para a Sinapse

A Sinapse perdeu o balanço, quebrou o ritmo das palavras, diz.
Afirma que as fotos a emudeceram, lhe retiraram as letras dos dedos.
Esqueceu, portanto, que uma imagem vale mil palavras e que a conversa se faz com os símbolos que os comunicadores quiserem.
Nem sequer percebeu que com as palavras que lhe faltam fez um post cheio de conteúdo, que foi comentado e que até serviu de mote a este post que hoje redijo.
Logo, querida Sinapse, não perdeste o jeito de bailar com as palavras; somente acrescentaste outros sons, feitos de imagens e de poesias/canções, para que o requebro se torne mais atraente, mais contagiante.
Coloriste as palavras com o calor de África (que nos alimenta os sonhos como nenhum outro continente), sublinhaste-as com as músicas brasileiras feitas de versos abertos à descoberta, à procura.
Para continuar basta sentir o ritmo do teclado, pensar nas tulipas dos jardins belgas e cheirar um café matinal.
E deixar que a alma se esvazie.
Hoje a minha acordou a pensar no samba de uma nota só e riu a pensar escrever um post de uma letra só!

Wednesday, April 26, 2006

É que não posso (5)

A mania dos SMS enerva-me!
Sou pouco habilidosa com aqueles teclados mínimos dos télélés e acho que o diálogo por voz vai mais rápido.
Mas não! Temos que nos vergar às modas.

"Vemo-nos às 1oh?"
"Ok"
"Mas tomas café antes ou não?"
"Sim"
"Então vê lá se queres ir mais cedo!"
"10 tá bem"
"Importas-te que a Paula vá?"
"Não"
"És muito lacónica nos SMS!"
Ai a gaita!

Tuesday, April 25, 2006

Porque hoje é um dia especial!


Foto retirada daqui

Monday, April 24, 2006

Parabéns!

Um ano de blogoesfera!
De um blogue especial feito por uma pessoa única.
Hip hip hurra!

Um cravo para La Palisse

Amanhã é o dia 25 de Abril.

Que fez cair uma ditadura apodrecida e historicamente incongruente.
Que permitiu que a democracia se instalasse em Portugal.
O que teve uma série de consequências, entre elas, a nossa adesão à Comunidade Económica Europeia em 1986.
O que permitiu que eu estivesse aqui hoje!
E se neste país onde vivo fosse possível comprar cravos vermelhos (não tenho conseguido nos últimos anos, dizem-me que os cravos deixaram de estar na moda!), amanhã colaria um na minha porta do gabinete (como fiz em anos idos).
Para que os colegas estrangeiros me perguntassem o motivo e eu pudesse explicar a revolução.
Para que os colegas portugueses (alguns deles pelo menos) estranhassem!
É que se há coisa pela qual me bato desde sempre é pela minha liberdade de usar um símbolo que pertence a todos os portugueses (e não só a alguns!).

Acima de tudo porque não esqueço que só estou onde estou porque um dia houve cravos vermelhos nos canos de espingardas nas ruas do meu país.

La Palissada

Hoje é véspera de amanhã!

Sunday, April 23, 2006

É verdade!

Confirmo, com o saber todo de experiência feito, que as rosas têm espinhos.

Saturday, April 22, 2006

Que nóia!

Mas alguém diz a estes belgas, devagarinho como se eles fossem muito burros, que cinzento não rima com sábado nem com domingo? Nuvens também não rimam! Nem sequer frio! E muito menos chuva!

Friday, April 21, 2006

Brincadeira

Por vezes gosto de brincar com as palavras.

Pronunciá-las devagarinho
tu-li-pa
Ou depressa
T'lipa
Ou alongá-las
Tuuliipaa
Ou enrolá-las como se tivesse um novelo na boca
Tul
i
pa

Por vezes penso em colori-las, dando as cores que a palavra pede
Tulipa
Não poderia ser
Tulipa
Porque há palavras que só por si são cor
Tulipa
Ou imaginá-las feitas matéria como a tulipa de madeira que tenho em casa
Ou uma tulipa em espuma para encher o duche de flores
E decompor a palavra como se decompõe a matéria
T-u-l-i-p-a
Trocando-lhe as letras
u-l-a-t-i-p

Porque cada palavra é um mundo de plasticina.

Polémicas

Há pessoas que se pelam por polémicas!
Nem que seja em caixas de comentários por esses blogues fora.
Eu, como não tenho pachorra para gente burra, só "polemico" (do verbo "polemicar") com os meus amigos.
De preferência bem instalada. Com uma bebida na mão. Ou mesmo à frente de um repasto.
Para o resto não há pachorra.

Thursday, April 20, 2006

Crónicas de Bruxelas 5

Está sol!

E quando está sol, a cabeça faz-se leve e as quatro paredes sufocantes.

Como navegar é preciso, navegamos pelo verde desses jardins e parques que a cidade ostenta e cuida.

São bonitos.

Há quem argumente que aqui é fácil ter jardins: a chuva rega-os gratuitamente.

Pois sim. Mas são os jardineiros que preparam os canteiros, consoante as estações.

E perdoem-me se menciono apenas as tulipas. Porque gosto de as ver, porque me dizem que a Primavera está aí, porque as conheço e até sei o nome!

Dispostas por cor, com as pétalas mais ou menos arredondadas, mais ou menos angulosas, cativam-me. Algumas são lisas, outras parecem feitas de feltro, mas todas crescem direitas, orgulhosas, até que um inusitado vento ou uma habitual chuva lhes retirem a graça.

Os jardineiros voltam, para as substituir por outras flores, outras manchas de cor, assim marcando as estações do ano, até que no Inverno a terra fica ali nua, adormecida, triste.

Nem sequer lhe sobram folhas mortas!

Porque os jardineiros limpam as folhas douradas que no Outono cobrem os jardins. Douradas e vermelhas, algumas ainda com laivos verdes. Vale a pena vir até cá no Outono para ver as maravilhosas cores com que a natureza pinta o cinzento de Bruxelas. Gosto de calcorrear os jardins, pisar as folhas secas, estaladiças sob os meus pés, sentindo a agradável melancolia outonal, aqui sem o cheiro das castanhas assadas.

As flores que então sobram são menos exuberantes, ao contrário das da Primavera, quando tudo recomeça e se tem a graça, a força, o esplendor da juventude. Toda esta vivacidade assenta no Verão. É uma estação sem irrequietude. E também os jardins se acalmam.

Mas agora é Primavera e a sede de gozar os jardins está no seu auge.

Quanto mais não seja para poder ir até um deles no intervalo da hora do almoço, com uma sanduíche, um sumo, sentada no banco de jardim ou alongada na relva. Sempre em busca do sol, que dentro de mim há um girassol escondido!

Ou então a ler. Haverá melhor do que ler ao ar livre?

Há até quem utilize os jardins como substitutos da praia. Confesso, isto não me atrai. Fato de banho sem o barulho do mar, sem molhar os pés, sem sentir o gosto do sal, para mim não dá. Mas acho curioso ver as famílias de piquenique às costas e toalhas debaixo do braço. É como aqueles que pescam nos lagos dos parques! Hábitos diferentes.

Outros correm, em exercício físico transpirante, outros marcham, em passo decidido, outros vagueiam em longas conversas, em apaixonados encontros.

Bolas, bicicletas, trotinetas, livros, música, gelados.

Gargalhadas e gente adormecida.

Há de tudo nos jardins e parques de Bruxelas quando há sol.

E eu fico com o nariz avermelhado e as bochechas luminosas!

Wednesday, April 19, 2006

Memória

Não esquecer para não repetir.
Este e outros! Não esquecer nenhum massacre.
Não estou em Lisboa, mas, neste caso, o Rossio é onde um homem quiser.
Acenderei uma vela.

É que não posso (4)

Aquelas pessoas que abrem a janela do seu bólide e atiram para a rua o resto da maça complicam-me com os nervos.
Só ao estalo!

Monday, April 17, 2006

Recebi um convite com cheiro a canela e a tulipas.
Um convite para vos falar de pânico e de cinco situações que me fazem "panicar".
Pois bem, falemos então dos meus medos confessáveis, porque os inconfessáveis são isso mesmo!
1. Tenho medo do escuro. Pânico infantil que nunca perdi. Hoje enfrento-o (o escuro, quero eu dizer) e controlo-o (o medo) mas gostar do escuro decididamente não gosto. Num safari em África, em que era necessário dormir em tendas, cheguei a dormir com uma pequena lanterna pendurada ao pescoço. Just in case...
2. Nao gosto de exames. Transpiro! Não sei se hei-de ficar de pé ou sentada! Abro e fecho os livros! E a única certeza é que não sei nada. Que vou chumbar. É um horror (para mim e para os que me rodeiam porque sei que sou impossível de chata).
3. Assustam-me as tarefas complicadas, daquelas em que nos dizem "eu sei que és capaz". E porque é que "eu" nunca sei se o sou? Não durmo, quando o faço tenho pesadelos, e enquanto a coisa não está acabada a minha vida é um inferno.
4. Detesto bichos rastejantes. Insectos em geral. Não faço cenas porque é feio mas se se visse o estado em que fico por dentro concluir-se-ia que somos muito mais líquidos do que o somos de facto.
5. E por fim, tenho medo daquelas situações extremas em que não sei como irei reagir. Espero nunca ter que passar por elas!
E dado o atraso a que respondi a esta corrente, não a passo a ninguém.

Sunday, April 16, 2006

Hellooooo!

Melhor do que realizar sonhos é fazer coisas que nunca atrevemos sequer a sonhar.

Friday, April 07, 2006

Fiquem bem

Vou mergulhar noutras culturas! Levo livros e curiosidade.
Depois volto! (Lá terá que ser...).
Boa Páscoa

Thursday, April 06, 2006

Tivemos visitas!

Veio ao centro e foi recebido com as honras devidas à Periferia.
Até o tempo se compôs!

Inferno

E não encontrei O Matador (presumo que esteja em Lisboa) mas encontrei, também de Patrícia de Melo, um livro chamado “Inferno”.
Fiquei tão contente que comecei logo a lê-lo.
Digam-me lá se esta passagem não é delirante:

“O garoto que sobe o morro é José Luís Reis, o Reizinho. Excluindo Reizinho, ninguém ali é José, Luís, Pedro, António, Joaquim, Maria, Sebastiana. São Giseles, Alexis, Karinas, Washingtons, Christians, Vans, Daianas, Klebers e Eltons, nomes retirados de novelas, programas de televisão, do jet set internacional, das revistas de cabeleireiras e de produtos importados que invadem a favela.”

Descoberta

À procura de um livro que não encontrei, encontrei outros de que não andava à procura e que nem sabia que tinha.
Lei da compensação?

A resposta certa é ... mulher

Patrícia Melo, escritora brasileira, no seu livro “O Matador” vai buscar inspiração à violência urbana para escrever violentamente sobre um jovem frustrado incapaz de compreender os valores clássicos de uma sociedade. Terá outros, que não distinguem entre amor e ódio, entre vida e morte.
O livro agarra-nos e magoa-nos num exercício de admiração pela capacidade de escrever da autora, pela sua habilidade em puxar-nos para o lado violento e agressivo da sociedade brasileira tal como a imaginamos nas favelas.
Um poderoso murro no estômago!
Uma escrita brilhante.

Wednesday, April 05, 2006

Feminino vs masculino

Muito se tem falado do género da escrita. O assunto começou ainda antes da era bloguística mas veio de novo à baila a propósito de certos blogues.
Devo confessar que é um tema que sempre me fascinou: haverá traços, elementos, tiques ou jeitos que denunciem o généro do autor de uma prosa?
Resolvi fazer a experiência.
Digam lá se o seguinte trecho foi escrito por uma ela ou por um ele:
"Fiquei tão desesperado, comecei a correr, correr, vou correr até morrer, pensei, até explodir, até voar, e corri, e cheguei em casa e me tranquei no quarto e cheirei, a [...] começou a bater na porta, abra, coloquei a cama para bloquear a entrada, abra, abra a porta, abra essa porta, abra essa porta, abra essa porta, abra essa porta, abri, ela começou a berrar comigo, eu ouvia tudo, entendia tudo, ela estava assustada, o ódio começou mesmo na boca e explodiu no cérebro e explodiu nas minhas mãos e eu apertei o pescoço de [...], apertei, apertei, apertei e só parei quando ouvi o osso do pescoço se partir."
A resposta será dada no post seguinte.

Tuesday, April 04, 2006

Crónicas de Bruxelas 4

Bem-vindos ao quarteirão europeu.

A sua capital é o "Berlaymont", renovado, mas guardando a sua clássica forma de estrela de 3 pontas, ex libris desta aventura que começou como Comunidade Económica Europeia, quando, no pós-guerra, a Europa se esforçava por renascer das cinzas do conflito e apagar séculos de rivalidades e de incompreensões.

Hoje, este edifício discute a sua importância com o "Justus Lipsius" do Conselho e com o mastodôntico capricho dos deuses do Parlamento Europeu.

Entre os três edifícios, existe uma vasta rede de outros mais pequenos, mais ou menos afastada dos pilares centrais e necessária para albergar os diferentes serviços da União Europeia.

O quarteirão anima-se durante o dia, esmorece no final da jornada de trabalho, muitas vezes em "happy hours" nos cafés e bares adjacentes, e morre nos fins-de-semana deixado à curiosidade dos turistas e ao sonho daqueles que acreditam neste projecto tão inovador e hoje tão banalizado e que tentam materializá-lo em fotografias digitais.

Durante a semana o movimento nas ruas do quarteirão europeu é sempre grande.

A pé, ou de bicicleta (sim, temos umas, marcadas com as estrelas da União, para nos deslocarmos, acreditem!) vamos de um edifício para outro, para participar em reuniões, num frenesim de conciliações e de negociações, porque em cada um de nós há a cor da camisola do serviço a defender ao lado de um, muitas vezes desajeitado, espírito diplomático.

Vamos já imunes aos sons das sirenes da polícia, às buzinas dos mil carros que se engarrafam na Rue de la Loi ou na Rue Belliard, aos desvios que somos forçados a fazer quando as superiores razões de segurança plantam barreiras à nossa frente para criar espaço vital aos ministros e presidentes.

Passamos indiferentes às câmaras de televisão que se concentram junto dos edifícios principais, às caras conhecidas dos deputados europeus que tomam café na Place du Luxembourg antes de iniciarem as suas tarefas diárias e, sobretudo, ao som das diferentes línguas que nos acompanham diariamente (ainda não tão indiferentes ao som das novas línguas, dificilmente reconhecíveis e que encheram o quarteirão de sotaques diferentes).

Somos facilmente identificáveis. Algures em nós, ao vento, ostentamos o cartão de serviço, já tão parte do nosso ser que até nos esquecemos de o tirar quando saímos daqui. Só percebemos que algo a mais está à mostra quando, saídos do quarteirão europeu, nos chocamos com olhares curiosos e perplexos de quem não está habituado a ver o tal cartão.

Lado a lado trabalham empedernidos funcionários porventura descrentes já das funções que exercem e jovens estagiários para quem o contacto com as instituições é o primeiro passo de um pueril sonho de participar num projecto sério, importante, decisivo.

Há muitos, muitos anos, durante um interRail juvenil, também eu invejei os que contribuíam para esse projecto, manivela da paz e do progresso económico, que no meu espírito cor-de-rosa estava cheio dos Estados Unidos da Europa de Victor Hugo.

As negociações prosseguiam para a nossa adesão e quanto mais estudava mais me convencia da bondade e da urgência desta figura juridicamente supranacional.

Página atrás de página, versava-me na teoria das quatro liberdades, escolhia o Tratado de Roma como a minha "cartilha".

Cheia de ilusões tive os meus primeiros contactos com a realidade, meses antes da nossa adesão oficial, num curso de Verão que aqui fiz. Parlamentares europeus, explicando as diferenças entre os parlamentos nacionais e o Parlamento Europeu, disseram, numa tentativa de humor (porque alguém lhes deve ter dito que os jovens se conquistavam com gargalhadas), que era muito mais difícil insultar os colegas de outras nacionalidades uma vez que a comunicação se fazia via intérpretes dado que cada um falava na sua própria língua.

Não ri!

Não achei que falar dos insultos a colegas parlamentares fosse o primeiro exemplo a dar.

Agora já não sou tão ingénua.

Sunday, April 02, 2006

Papa

Um ano depois, o meu Papa, no coração, ainda é João Paulo II.
Recordo a sua visita a Lisboa, à Universidade que então frequentava, e sorrio.
Espalhou tanta esperança, tanta alegria, tanta fé que o que tenho ainda são restos de então.

Não entendo!

Por que razão deveriam os emigrantes ilegais portugueses ser tratados de forma diferente dos emigrantes ilegais de outras nacionalidades?

Também não!

Este novo formato das "Escolhas de Marcelo Rebelo de Sousa" também não me agrada. É certo que a nova jornalista está mais presente do que a anterior, e até me pareceu informada e competente, mas penso que a melhor solução teria sido de não pôr lá jornalista nenhuma.
Prefiro quando o Professor se exprime sem guião externo que lhe corta a palavra e lhe tolhe a criatividade.
Sim, porque eu acho o homem brilhante, o que querem?

Saturday, April 01, 2006

Fazes anos, Rafaela.

Dez anos é muito importante. Ocupa as duas mãos juntas. Todos os dedos das duas mãos. Não fica nem um de fora!
E precisas de dois algarismos para escrever quantos anos tens. É a primeira vez que isso acontece, já viste? Precisas de um 1 e de um 0.
10!
Tantos!
Muitos parabéns.

Como hei-de dizer?

Gosto de escrever. Gosto de falar. Posto de outro modo: gosto das palavras. Escritas ou faladas, gosto de as pronunciar, de as usar e manobrar, de as manipular para que digam exactamente aquilo que eu quero transmitir.

Nem sempre consigo. Por falta de destreza as palavras ficam pobres, quase vazias, e as ideias constroem-se banais, sem a vivacidade que sinto.

Não ser capaz de pôr em palavras aquilo que vai cá dentro, as ideias que crescem, os pensamentos que se desenvolvem, frustra-me.

Na oralidade, compenso essas faltas de jeito com gestos, com expressões da cara, com tonalidades da voz, até com o recurso a palavras estrangeiras, que isto de ser expatriada tem as suas vantagens neste campo: todos nos entendem e não passamos por snobs. (Acho mesmo que faltam palavras à língua portuguesa! E aposto que o Mia Couto também.)

Na escrita, as lacunas não se podem compensar. Estão aí para mostrar a nossa incapacidade. Juntamente com os erros ortográficos, as faltas gramaticais. Ademais, a escrita exige prática, hábitos, que não se treinam em sms e e-mails.

E sinto que a distância da língua pátria (ou mátria, como diria Natália Correia) começa a pesar na minha agilidade. Preposições, conjugações verbais, as novas vidas do português, são obstáculos, dão origem a dúvidas, levam aos erros.

Não é que me aperceba disto sempre.

É preciso um telefonema da mãe a corrigir uma frase, um e-mail de uma amiga a sublinhar um estrangeirismo, o último livro do Saramago, obra-prima de quem usa a língua portuguesa como uma arte, para entender que as minhas palavras, tal como as digo e as escrevo, são pálidas, chãs, cinzentas.

É um sufoco.