Wednesday, May 31, 2006

Pesadelo

Abriu os olhos.
Transpirava. O pulso acelerado pela agitação do pesadelo.
Pedira desculpa.
Coisa que, em acordado, jamais admitiria fazer.
Aliás, para quê pedir desculpas passado tanto tempo?
Deixara escoar demasiados anos pensando que o tempo apagaria a memória, a dor dos actos que praticara.
Gritou dentro de si, para o pesadelo, “não sou mau, não sou mau”. Gritou como o vinha fazendo desde sempre, quase toda a sua vida.
Ouviu um risinho.
Não, não pode ser.
Estão todos a dormir.
Levantou-se.
Passou água na cara, recusou-se a enfrentar o seu olhar no espelho. Sabia que não o conseguiria sustentar. Há tempo demais que o evitava.
Precisava de beber.
Tirou do congelador a garrafa de vodka, gostava dela bem gelada.
Haveria de provar que era forte, haveria de provar que era capaz de vencer.
Bebeu um copo.
Seria um escritor! Sim, deixaria tudo para escrever. Tinha uma ideia, sabia como desenvolvê-la. Estava tudo escrito na sua cabeça.
Seria pintor! Acabaria aquele quadro começado meses antes. Não, começaria outro. Tinha uma inspiração.
Faria uma carreira brilhante. Claro, o seu mérito haveria de ser reconhecido desde que se conseguisse libertar dos incompetentes que o rodeavam. Tinha um plano.
Bebeu mais um copo.
Nunca tivera sorte. Sempre fora incompreendido por todos.
Todos culpados dos seus falhanços.
Quando pegou de novo na garrafa lembrou-se de que a tinha comprado em Nova Iorque, num breve instante de felicidade. Reconheceu-o agora.
Tarde demais.
Tarde demais para tornar adormecer.
Tarde demais para voltar atrás.
Baixou a cabeça.
Só queria ser feliz.
E ouviu de novo um risinho.

E para que servirá?

Tenho para mim que, para certos condutores, o pisca-pisca deve ser um mistério!

Tuesday, May 30, 2006

É que não posso (8)

Porque será que em certas pessoas as palavras saem pela boca antes de passarem pelo cérebro?

Monday, May 29, 2006

Desilusões

A vida traz-nos tantas desilusões!
Uma de que me lembro particularmente é ter descoberto que o Tintin se chama Tantan (Tintin lido à francesa).
Fiquei tão triste!
E nunca mais olhei para o moço do mesmo modo...

Sunday, May 28, 2006

Iuuupiiii!

Tá sol, tá sol, tá sol!
Desculpem, não me posso demorar mais porque o meu computador não é portátil e eu tenho mesmo que ir venerar o astro-rei!
Volto mais pela noite.

Saturday, May 27, 2006

Diálogo com o vento

Na minha memória há assim bocados de coisas, recordações incompletas que flutuam sem qualquer ligação à realidade.

São eventos vagos que me intrigam de vez em quando, sempre que, no seu deambular sem destino na minha cabeça, eles são aleatoriamente iluminados por outros acontecimentos.

Nessas alturas penso um pouco neles, procuro a sua origem, interrogo-me sobre a sua pertinência. Depois, sem eu saber porquê nem como, eles eclipsam-se. Então esqueço-os até novo flash os trazer de volta à minha racionalidade.

Hoje de manhã foi um post da Sinapse que fez incidir um foco sobre uma memória antiga, de um texto que, penso, terei lido num livro de português, na escola. Não consigo situar esse texto no tempo, nem sei em que livro o li. Ignoro quem o escreveu. Sei que me impressionou, na minha, então, pouca idade.

Queixava-se o autor do texto de que tinham roubado o vento da sua rua!

Como se rouba o vento, lembro-me de ter ficado perplexa!

E o texto explicava que era porque tinham cortado as árvores e tinham proibido que se pusesse, nos estendais, roupa a secar.

Fiquei a pensar na sorte que tinha de ter árvores na minha rua, porque todas as manhãs as interrogava sobre o vento que fazia.

A roupa esquecia-a.

Na minha Lisboa, moderna, não havia estendais iguais ao da fotografia da Sinapse.

Também não havia lavadeiras a lavarem a roupa no rio, nem lençóis a corar ao sol.

Não havia vento na roupa, nem pressas quando chovia para a recolher.

Nesta Bruxelas de hoje, o vento também não fala à roupa nos estendais. Para que a chuva não a molhe!

Restam as plantas da minha varanda para que não me roubem o vento.

Friday, May 26, 2006

Não me provoquem!

Ontem e hoje foram dias feriados.
Ontem e hoje choveu.
Amanhã e depois será fim-de-semana.
As previsões dizem que choverá.

Que ninguém fale de seca ao pé de mim! Depois não digam que eu não avisei...

Wednesday, May 24, 2006

Crónicas de Bruxelas 7

Percorrendo as ruas de Bruxelas, seja nas zonas turísticas seja nas menos conhecidas, lojas há que se repetem, cujas cores e marcas são reconhecidas por todos, quase que me atreveria a dizer, em qualquer parte do mundo!

São as lojas que vendem "pralines", o famoso chocolate belga.

E se pertencem àquele reduzido grupo de pessoas que acham que o chocolate nasceu nos Alpes suíços, prestem atenção ao que se segue porque ficarão surpreendidos.

Bruxelas, capital da Europa, sede de numerosas instituições internacionais, amante de cerveja e de batatas fritas, tem o melhor chocolate do mundo. Leram bem, mas ainda assim eu repito, o melhor do mundo!

Façamos a experiência: quem nunca ouviu falar de Godiva, Neuhaus, Léonidas, Corné, Pierre Marcolini e Côte d'Or, para só mencionar alguns que isto aqui, em matéria de chocolate, está quase como as cervejas, num sem fim de marcas e de excelência?! Pois é, tudo belga (até o Marcolini, vai lá saber-se porquê!)

Se quiserem conhecer a história do chocolate, basta irem à Internet que ela logo vos explica que foi o Cristóvão Colombo que o trouxe do novo mundo.

Parece que os Aztecas e os Maias bebiam uma bebida amarga à base de sementes de cacau grelhadas, bebida sagrada, claro, que ainda estou para ler qualquer coisa sobre esses povos antigos que não seja de uma sacralidade sem fim. Estou mesmo a ver que daqui a muitos séculos os humanos que por cá andarem vão achar que as garrafas de Coca-Cola eram objecto de culto! E pensando bem… Adiante que estamos a afastarmo-nos do tema desta crónica.

Como se passou da tal bebida amarga para o docinho chocolate de hoje? Por causa de açúcar de cana, está bem de ver.

E aparentemente os nobres espanhóis chamavam um figo a essa bebida. O que nos prova que além de nobres eram pessoas de excelente gosto! Durante um tempo a aristocracia espanhola tentou fazer do chocolate um segredo de Estado, mas é sabido que não há segredos que resistam a conversinhas de travesseiro. Assim, quando uma infanta de Espanha casou com Luís XIII, levou o chocolate no dote e acabou-se o segredo.

Não percebi quando é que os belgas entram na história, mas também com a confusão que sempre reinou nesta zona central da Europa e com os comerciantes flamengos espalhados por toda a parte, tudo é possível. Estou a brincar! É que este pequeno país já foi território da coroa de Espanha. O chocolate veio por acréscimo e depois o aprendiz superou o mestre e ninguém mais se lembrou do papel de Espanha na divulgação do chocolate.

O que os belgas reivindicam, sem qualquer influência estrangeira, é a invenção dos "pralines", em 1912, por Jean Neuhaus. Bolinhas de chocolate com recheios diversos dão mesmo jeito para ter ao lado e ir comendo sem parar. Não admira nada que as estatísticas digam que os belgas consomem 8,5kg de chocolate por pessoa e por ano…

Antes de começarem a lamentar que o chocolate engorda e que estamos em vésperas de enfiar os fatos de banho, permitam-me que vos recorde as virtudes "médicas" deste manjar divino (as desculpas que uma pessoa tem que arranjar para não se sentir culpada por comer chocolate!).

Antes de mais, é energético e anti-depressivo. Agora que digo isto, veio-me à ideia que talvez seja assim que estes belgas suportam sem tugir o cinzento de Bruxelas.

Depois é afrodisíaco. E se o governo português tivesse pensado melhor, em vez desta confusão dos benefícios fiscais para aumentar a natalidade, mandava, pura e simplesmente, subsidiar o preço do chocolate e impunha uma taxa de consumo obrigatória.

Por fim, é um excelente alimento para o cérebro. Confesso que este é o argumento que uso cada vez que compro chocolate. Quem poderá censurar-me por estar a alimentar órgão tão importante?

Pensem bem, comam uns "pralines" para pensarem ainda melhor e se quiserem mesmo saber como se faz o chocolate, passem pelo museu do cacau e do chocolate, ali pertinho da Grand-Place. E no regresso a casa, comprem umas caixitas no aeroporto, caso contrário nunca a família e os amigos vos perdoarão.

Tuesday, May 23, 2006

Ton sur ton


Tudo aqui é cinzento, cinzento, cinzento!

A Sinapse é uma optimista nata e vê cores, muitas cores, nos vários cinzentos desta cidade.

Cinzento claro, cinzento escuro, cinzento médio, cinzento azulado, cinzento esbranquiçado, cinzento antracite, cinzento chumbo, cinzento molhado, cinzento húmido, cinzento ventoso ... paletes de tons, sinfonia de tons.

Poesia em cinza.

Monday, May 22, 2006

Volver

Meio ofuscado com a fanfarra barulhenta à volta do "Código Da Vinci", mas verdadeiramente genial como só Amodôvar sabe sê-lo.
"Volver" prova, mais uma vez, que se podem abordar temas complicados sem juízos de valor, sem escândalos, sem olhares de reprovação.
Afinal de contas somos imperfeitos. Todos nós. Mas só alguns têm mau carácter. Desses não rezará a história.
Os outros são apenas humanos, humanos que, acima de tudo, tudo fazem por ternura, por amor.
Por muito dura que seja a vida!

Desabafo fora de horas

Há alturas em que o coração é uma enorme lágrima salgada.

Sunday, May 21, 2006

Domingo de manhã

Em passo descontraído, gozando o sol, a caminho de um café.
Junto de um muro, invadido por letras e desenhos coloridos, uma criança pergunta a outra:

"Sabes ler grafittis?"

Resposta rápida:

"Isso não são grafittis, são rascunhos!"

Friday, May 19, 2006

Dúvida existencial

O que faço eu aí quando se está tão bem aqui?

Não se aceitam respostas cheias de lógica (género, havias de trabalhar aqui para ver como era!), nem miserabilistas (tipo, mas isto é um país do terceiro mundo).

Também não quero olhares de comiseração (estilo, coitada, pensa que aqui levaria a vida que tem lá), nem sequer de exasperação (por exemplo, pára de te queixar e vem, olha a porra).

A bem dizer, não quero resposta nenhuma!

É uma mera pergunta retórica.

Wednesday, May 17, 2006

É só um instantinho

Vou num pulo a Lisboa!
Ofuscar-me com a luz da cidade branca.
Inebriar-me com o Tejo, namorar o mar às portas da cidade.
Percorrer as livrarias e beber uma bica (resistindo estoicamente ao pastel de nata!).
Subir o Chiado como se fosse meu e sorrir para os eléctricos como se nunca os tivesse visto.
Repetir gestos nas ruas do meu bairro numa continuidade sem rupturas.
Combinar encontros com amigos entre as pressas da vida profissional e de uma visita demasiado curta.
E encher-me de sol, de sol, de sol…

Brasil

O Inferno em S. Paulo é uma contradição nos próprios termos!

Tuesday, May 16, 2006

Dia de férias

Fazia calor, não obstante ser cedo. O sol, que se pendurava num luminoso céu azul-turquesa, lançava os seus raios através da água calma e transparente deixando ver os contornos dos corais, acariciando fugidiamente um ou outro peixe que se aventurava em zonas menos profundas.

O barco largou as amarras.

A intensa animação que preparara a partida dava agora lugar a uma calma relaxante. Uns procuravam o sol, outros escolhiam a sombra, o fresco possível.

De repente, as águas agitaram-se em saltos acrobáticos, em corridas rápidas a rasar a superfície do mar. "Olha ali, há um grupo de cinco ou seis!", as máquinas fotográficas tentavam adivinhar onde saltariam os golfinhos da próxima vez.

Afastaram-se!

O barco aproximava-se enfim do local escolhido.

A agitação recomeça, verifica-se que as garrafas estão abertas e bem colocadas nos coletes, enfiam-se os fatos, os cintos de pesos, os coletes, as barbatanas, as máscaras. Controlam-se os reguladores, os computadores, os relógios.

Na superfície da água aguarda-se o sinal do chefe de equipa após o que o mergulho começa. Lentamente para compensar a pressão nos ouvidos, sem dores nem incidentes, faz-se a descida.

Miríades de pequenos peixes vêm brincar nas bolhas de ar que os mergulhadores vão libertando.

Atingida a profundidade desejada começa a viagem num jardim subaquático cheio de cores e de formas. Aqui, a atenção liberta-se dos instrumentos e fica presa na raia que passa, voando, um pouco mais ao largo, nas moreias que, nos seus abrigos coralíferos, abrem ameaçadoramente as bocas, nas tartarugas que velozmente se afastam, nos assustadores peixes-escorpião, nos divertidos peixes-papagaio entretidos a roer o coral… as mãos dos mergulhadores activam-se em trocas de sinais, um tubarão acaba de passar, algumas barracudas aproximam-se curiosas!

A subida faz-se com as habituais cautelas e precauções, olhos postos no computador para evitar erros que podem ser graves. A saída de um mundo onde se foi de visita e o retorno ao mundo real dos mergulhadores tem ritos de passagem, patamares de espera, para limpar o organismo de gases indesejáveis.

A bordo, o material é cuidadosamente arrumado, entre animadas trocas de impressões, fantástica a raia, e o tubarão? nem deu para ter medo, de tão rápido que passou, a tartaruga, dá vontade de lhe fazer uma festa na cabeça…

No regresso, olhos salgados, perdidos nos reflexos que a passagem do barco estilhaça no mar, gravam na alma mais uma experiência única.

Monday, May 15, 2006

Sabedoria

Aceitar o que não se pode mudar não é um acto de sabedoria.
É uma fatalidade inevitável, uma imposição física, um ditame químico, um postulado filosófico, uma posição ideológica!
Não há como tirar as nuvens do céu.
Não há como substituí-las pelo sol de sexta-feira.
Restam as memórias do copo bebido em amizade partilhada, do filme belo e doce que preparou o serão, do jantar saboroso que o concluiu.
E mais não se pode fazer!
Não há risos, não há lágrimas, não há sonhos, não há pesadelos…
Também não há respostas.
Não há respostas para perguntas que não vale a pena colocar, que já não vale a pena colocar.
Não há nada, mesmo nada, que possa mudar o que não se pode mudar.
Por definição!
O acto de sabedoria está em saber construir nos destroços do que se perdeu.

E a sabedoria, essa, onde a encontrar?

Sunday, May 14, 2006

Insónia

A noite arrefeceu.

É próprio da noite destes países, arrefecer.

Não como nas noites da sua memória, noites longínquas, em que uma ténue brisa quente lhe envolvia os ombros, lhe acariciava humidamente a pele.

Aqui sente um arrepio percorrer-lhe as costas.

Cruza o casaco de malha, enrolando os braços ao corpo e recosta-se na cadeira.

O céu está esbranquiçado pelo reflexo das luzes da cidade nas nuvens, um periódico raio laser anuncia uma discoteca ao longe.

Lembrou-se de quando dançava na areia, com os cristais de lua a brilharem no mar e a imensidão de estrelas ao alcance do sonho. Havia uma voz suave que entoava melodia desconhecida, suave som inebriante na noite tropical. Ritmo que seguia o entoar das ondas a desfazerem-se na areia, a arrastarem seixos e conchas que ela apanharia de manhã, mal o sol despontasse.

Deixou os dedos perderem-se nessas conchas, pedaços de outras vidas brutalmente sem significado, como se tivesse perdido a capacidade de ouvir o marulhar dos azuis profundos dos mares do outro lado do mundo.

Se ao menos o sono viesse.

Saturday, May 13, 2006

Post super in

Neste momento ando em fase chinesa!
Vejo o mundo em bico.

Talvez devesse retirar os comentários, não?

Friday, May 12, 2006

Mordomias

Em rápido zap ontem à noite passei pela RTPi e ouvi o Prof. Manuel Maria Carrilho dizer que desde pequenino que é contra as mordomias do Estado.

Ora, não obstante a esmerada educação que os meus pais me deram, em pequenina eu não sabia o que queria dizer mordomias. Mesmo quanto ao Estado, tirando as zangas da mãe ("já viram o estado em que estão os vossos quartos...") não creio que tivesse uma ideia muito clara sobre o assunto.

Nao ser contra as mordomias do Estado desde pequenino faz toda a diferença! E por isso, ele é quem ele é e eu sou quem eu sou!

Thursday, May 11, 2006

É que não posso (7)

Fico sempre perplexa com aquelas pessoas que, em tempos de Simplex, transformam os e-mail em pesadas e formais cartas, atentamente, sou de V. Exa…

Ide e descomplicai, é o meu conselho!

A sério?

Acham que eu falo muito do tempo?
Que estou sempre a dizer que está cinzento por aqui?
E a chover?
E a fazer frio?
A sério?

E que faço muitas perguntas?

Okey, I'm out of here...

Wednesday, May 10, 2006

Preocupações!

Espero que a temperatura não se tenha magoado com a queda que deu hoje!

Tuesday, May 09, 2006

Choque climatérico

Choque climatérico é aquilo que se verifica quando uma pessoa sai de um concerto de música brasileira com a alma cheia de sol e dá de caras com chuva...

Dia da Europa

Foi com a Declaração de 9 de Maio de 1950, feita por Robert Schuman, ministro francês dos Negócios Estrangeiros que a aventura Europeia começou.

Mal sabiam Schuman, Jean Monnet, Paul-Henry Spaak, onde isto tudo nos ia levar.

Mais uma corrente

Fui convocada para mais uma corrente pela Folhita.
Sem pensar muito destaco a UNICEF.
Porque se dedica às crianças que são o futuro do nosso planeta e que não merecem, não merecem mesmo, o sofrimento por que passam em certos países, em certas situações.
Porque olha por seres humanos naturalmente fracos e dependentes, a quem a confiança nos adultos foi precocemente cortada e a quem as catástrofes e situações de emergência cobram um preço demasiado elevado.
Finalmente, porque se esforça por dar a essas crianças o necessário para que elas sorriam de novo.
E melhor do que uma criança é uma criança feliz.
Desta vez não passo a corrente a ninguém. Pegue nela quem quiser.

Monday, May 08, 2006

Recado a Lisboa

Cave escura, com as paredes em tijolo pintadas de preto, um certo ar alternativo, clandestino até.

No palco, no centro, uma mesa de mistura pousada no chão e uma guitarra eléctrica. A cada um dos lados, duas cadeiras altas, dois pequenos púlpitos, dois microfones.

Ao fundo um pano preto, em veludo, pesado.

No centro desse pano um retrato grande, a preto e branco.

Silhueta conhecida, reconhecida, um dos elos que tecem essa malha que enforma a minha cultura portuguesa, que caracteriza a lusitanidade que fomos espalhando por esse mundo falante da língua que é a minha.

Um nome por baixo: João Villaret.

Uma homenagem, com Carlos Paulo e Ana Lúcia Palminha.

João Villaret morreu em 1961. Antes de terem nascido mais de metade das pessoas que enchiam o pequeno teatro. Para quem João Villaret é uma vaga imagem dos programas a preto e branco das memórias da televisão.

Ainda assim, todos reconheceram “Tocam os sinos na torre da igreja/há rosmaninho e alecrim pelo chão”, todos entoaram “Vai dizer adeus à Graça /que é tão bela que é tão boa/vai por mim beijar a Estrela/ e abraçar a Madragoa”.

Ainda assim, todos se emocionaram quando, em simultâneo e num crescendo de vozes, os dois actores concluíram dizendo “e digam lá se pode ou não falar-se o fado”!

É que não posso (6)

Acho uma total falta de chá as pessoas que não desligam o telemóvel nos cinemas.
Mas no outro dia, não só o telefone tocou como a pessoa atendeu!
A minha alma ficou parva de todo.

Sunday, May 07, 2006

Alma

Em preparação para passar a estação Outono-Inverno que há-de vir mais cedo do que se desejaria, fui hoje tratar de comprar a minha assinatura para o Bozar.

A minha enorme ignorância em música clássica faz-me seguir sensatamente (e até cegamente) os conselhos de amiga prendada, tocando piano e falando francês!

Assim fiz, mas para não morrer completamente estúpida aproveitei uma pausa entre dois golos de cerveja, num animado café do meu bairro, não obstante o cinzentismo climatérico, para lhe perguntar da genialidade do pianista que não podíamos deixar de ver.

Explicou-me latinamente, com gestos amplos e palavras expressivas, que se tratava de um artista.

E, decerto tendo visto nos meus olhos incompreensão e estranheza, prosseguiu a explicação: há muitos pianistas que são tecnicamente excelentes, executantes de grande nível acrescentou. Muito poucos são aqueles que passam para além da linguagem do piano e falam a linguagem universal da arte. Que, no fundo, é a mesma linguagem dos grandes pintores, dos grandes escritores.

Pessoas que ultrapassam a pauta de música e que encontram a alma do que estão a fazer.

Thursday, May 04, 2006

Crónicas de Bruxelas 6

A Grand-Place não é para nós! Vamos lá quando chegamos a Bruxelas, enquanto não perdemos o espírito de turista para ganharmos o de residente, e depois vamos lá quando amigos nos visitam porque vir a Bruxelas e não a ver é como ir a Roma e não ver o Papa.

Mas nós não passamos por ali.

É o lugar dos turistas de mapa na mão e de máquina fotográfica ao pescoço, dos turistas que aqui vêm para visitar a capital da Bélgica e que se extasiam perante a beleza da praça e que a cruzam para, um pouco adiante, se entusiasmarem perante a reduzida dimensão do Manneken Pis, o menino que faz chichi sem parar!

Mas fazemos mal! E cada vez que passo na Grand-Place pergunto-me porque não passo mais vezes.

Porque não me sento numa esplanada observando os fantásticos edifícios que a rodeiam, dos quais se salienta a Câmara Municipal. Porque não exploro as pequenas ruas em redor, viveiro de lojas para turistas mas também de excelentes restaurantes (não sei se já vos disse mas come-se em Bruxelas como talvez não se coma em mais nenhuma cidade do mundo!), de pequenas "boutiques" surpreendentes que pensaríamos só existirem em cosmopolitas cidades anglo-saxónicas.

Porque não aqueço as minhas tardes de domingo invernais à enorme lareira do Roi d'Espagne, imponente café onde somos "acolhidos" por um cavalo empalhado (ou coisa que o valha, que o bicho parece mesmo verdadeiro!) ou porque não esgoto as minhas noites nos curiosos bares que ocupam caves ou que fazem o seu mote em temas surpreendentes (como apelidar o Cercueil, que em português quer dizer "caixão" e que tem na montra uma coroa de flores e música fúnebre no corredor de entrada!?) ou ainda que oferecem uma variedade de cervejas superior à que o estômago alguma vez poderá digerir.

E por falar em cerveja, breve pesquisa na Internet informou-me de que havia 719 variedades diferentes de cerveja neste pequeno país plano (como diria Jacques Brel).

Aqui chegados, não pensem em interromper a leitura para ir num instantinho buscar uma Sagres bem gelada ao frigorífico para acompanhar a crónica; por favor, uma cerveja que se preze bebe-se seguindo regras e etiquetas para assim se atingir a plenitude do seu sabor e não como acompanhamento de uma qualquer crónica mal alinhavada!

Portanto, se querem beber, interrompam agora, preparem um pratinho de tremoços, bebam o vosso fino ou imperial com calma e voltem mais tarde.

Não se preocupem, ainda vêm a tempo, porque não será tão cedo que deixaremos o Toone onde vamos entrar para provar umas cervejas belgas.

Entretanto não deixem de observar as muitas marionetas de madeira espalhadas um pouco por toda a parte, algumas datando do séc. XIX, com as quais se fazem uns teatros muito engraçados em "bruxelês", que só eles mesmo é que entendem!

Nao percam o fio à meada e esqueçam o programa dos espectáculos de marionetas, porque aqui estamos para provar e apreciar a cerveja belga.

A solução é pedirmos várias, todas diferentes, para irmos trocando e para observarmos os diferentes copos que vão com as respectivas cervejas. Sim, não passa pela cabeça de ninguém beber uma Duvel num copo de Stella Artois! Ou uma Kwak num copo de La Mort Subite.

Desde as louras até às pretas passando pelas morenas temos aqui de tudo. Há até algumas que sabem a fruta! Não aconselho, a menos que gostem de cerveja com sabor a rebuçado.

As trappistes, feitas pelos monges dos mosteiros espalhados por essa Bélgica fora, são as mais fortes (chegam a ter 14°!).

E para não ficarmos tontos de todo, que isto de beber a seco cai mal, que tal uns mexilhões com batata frita no Chez Léon?

Wednesday, May 03, 2006

Retrato

Era uma vez uma pessoa que achava que vencer na vida era fazer uns brilharetes, dar uns passos de dança com ar fatal, olhar de cima para quem considerava inferior a si.
Saía com notáveis como se essa condição se pegasse.
Sussurava boatos como se o conhecimento lhe adviesse de Deus.
Condescendia com os simples.
Enternecia-se com os bajuladores.
Trocou dinheiro por sorrisos, por afectos.
De tudo se gabou.
Construiu uma imagem à semelhança do que achava ser o exemplo do sucesso e fez questão de a distribuir por amigos, conhecidos, impressionáveis.
Retocou-a cuidadosamente para a adaptar ao "l'air du temps".
Circulou por onde achava que devia circular para cumprimentar influências, para fingir intimidades.
Simulava interesses, consumia pastilhas de cultura para brilhar em salões.
Pensou vender as suas vivências em memórias.
Sentiu o tempo avançar depressa demais.
Continuou a fazer brilharetes e a dar passos de dança com ar fatal...
Esta é uma história sem fim. Um verdadeiro círculo vicioso.

Tuesday, May 02, 2006

Círculo vicioso

Às vezes ponho-me a pensar no que seria estar num círculo vicioso.

Monday, May 01, 2006

Chiu!

O desafio que me coloquei hoje é de descrever o silêncio.
Tenho coisas assim!
Há tempos disse aqui que andava a pensar fotografar o vento.
Agora apetece-me escrever o silêncio.

Acabei de ler um livro e fiquei quieta. Noutras circunstâncias teria dito, fiquei em silêncio, mas quando pensei nisso apercebi-me dos carros que passam na rua, da madeira das vigas que estala, dos pássaros que piam. Ao longe ouve-se uma sirene de polícia.

Pensei na única altura em que estive afastada dos ruídos conhecidos da cidade, e como me espantei com a intensidade da escuridão nocturna e com os múltiplos ruídos da savana africana, tão estranhos à minha condição de citadina europeia, ruídos que enchiam a minha imaginação de imagens infantis de leões e de elefantes.

Recordei as poucas férias de infância passadas no Portugal profundo, em que as amareladas e enfraquecidas luzes da iluminação pública me causavam tanta estranheza como o permanente concerto de insectos desconhecidos que me remetiam para as histórias de grilos e cigarras.

Lembrei-me das noites de trovoada em Lisboa em que o rouco ribombar do trovão desaparecia em segundos de silêncio até que os nossos ouvidos voltavam a ouvir o ritmo cadenciado da chuva a bater nas janelas.

Finalmente, neste silêncio que não temos, vem-me à memória a frase de um adolescente que, pouco habituado ao relativo silêncio do campo, disse, quase em desespero: é um espanto o barulho que o silêncio faz!

Constatação de facto

Chove!
Bolas...