Friday, June 30, 2006

Gente previdente

Para gozar bem o sol decidimos ir almoçar no jardim.
A preparação foi habitual, troca de e-mails para combinar horas, compra de sumos e easy-eating food (acabei de inventar a expressão! É que não foram sandochas...) e jardim connosco.
Então não é que uma de nós levou uma manta (que guarda no escritório para estas ocasiões) para que o picnic tivesse um ar romântico de tempos idos e não de refeição rápida entre duas metades de dia laboral?
Estavamos tão bem instalados no relvado que decidimos que merecíamos um gelado à sobremesa!

Thursday, June 29, 2006

Sr. Sra, riscar o que não interessa

Desculpem, mas sempre vou falar da presidência finlandesa da União Europeia.

É que estou preocupada!

Ontem tive uma reunião com finlandeses, história de preparar a presidência, a qual começou por uma ronda de apresentações pessoais.

Não percebi um, nem um, dos nomes dos tipos! Depois, na troca de cartões de visita descobri que havia Joni, Päivi, Jan, Sari, Mari, Annikki.

Portanto, a presidência vai ser assim: quando eles se apresentam ao vivo distinguimos se é homem ou mulher mas não entendemos o nome; quando se apresentam por escrito, lemos muito bem o nome e não sabemos (salvo excepções) se é homem, se é mulher!

Como é duro construir a Europa!

Wednesday, June 28, 2006

Nada, nadica de nada

Estou para aqui numa de postar e hoje não me ocorre nada! Nadica de nada!

Pensei falar da presidência finlandesa da União Europeia, que começa para a semana, e depois disse para os meus botões mas quem raio é que quer saber da presidência finlandesa.

Pensei comentar o sol bonito que se fez sentir mas confesso que já temo pela minha reputação de comentadora meteorológica crónica, desesperada com o cinzento, sempre a falar do mesmo.

Achei que podia dissertar sobre o livro que estou a ler, sobre a imperatriz Ci Xi mas, claro, quem está interessado nestas chinesices sabe mais do que eu e quem não está, não está. Também, eu só ia dizer que estou a gostar!

Claro que podia igualmente falar sobre o livro que deveria estar a ler (para o meu clube de leitura) e que não estou a conseguir, é mesmo muito estranho, no outro dia até tive um sonho…pois, deixem, isto também não interessa nada.

Futebol, é sempre uma solução, até porque cheguei à conclusão que ainda não vi um jogo do Brasil, imaginem. Pensando bem, também não vi da Inglaterra. Nem da França. Tão pouco da Alemanha. Mas em que raio de planeta é que vivo? Imaginem que nem sei quem é a Floribella! Logo, não posso falar do que não sei ou do que não vi!

Adesão da Turquia à União! Alguém está interessado?
….
….
Bom, presumo que não dado que ninguém responde.

Lá, lá lá, tchim, tchim, tchim, olhem, estou para aqui com os cotovelos na mesa, a cantarolar, à espera da musa mas, de facto, hoje não me ocorre nada! Nadica de nada!

Tuesday, June 27, 2006

Rendo-me!

Até que me provem o contrário, tenho que me render à evidência de que há, de facto, diferenças entre homens e mulheres.

Digam-me, que homem diria, descrevendo a compra de mais uma carteira, depois de precisar que a mesma é totalmente feita à mão, para justificar a aquisição não obstante as muitas já possuídas, sentir um extâse poderoso sempre que entra em lojas de malas e de sapatos?

Monday, June 26, 2006

Desafio existencialista...até serem horas!

Levantou-se. Não se perguntou porquê! Nem sequer para quê!

Fez os gestos tantas vezes repetidos e tantas vezes a repetir, de quem vive uma existência regrada e pautada, sem reticências.

O dia começava, lentamente, a despontar.

Sentou-se na borda da cama desalentado. Sabia que teria de continuar a repetir gestos tantas vezes repetidos e tantas vezes a repetir, e gostaria de ser como o dia, que sempre desponta, sem dúvidas, sem perguntas.

Continuava a achar que a resposta estava na simplicidade. Na simplicidade de se ser um dia que só tem que despontar e de o fazer, em cada dia, sem hesitações.

Mas hoje sente que, se fosse dia, falharia o seu despontar.

Ou despontaria por hábito, por obrigação.

Não saberia que tinha que despontar para prosseguir o ciclo da vida: perguntaria porque tinha de despontar!

Sentado na borda da cama, mediu-se numa pequenez de uma existência sem mais além, feita de gestos repetidos sem perguntar porquê, sem perguntar para quê. Pesou-se na leveza do seu desconhecimento, do seu desentendimento da realidade em redor.

Talvez a resposta estivesse no desespero. Que fosse transformado em força anímica para mudar, mudar os gestos tantas vezes repetidos. Um grito, que lhe rompesse os limites das fronteiras delineadas.

Olhou para o relógio. E recomeçou a repetir gestos tantas vezes repetidos!

E agora?

Não é meu hábito ver futebol, mas insistentes vozes se levantaram para que fosse ver o jogo em colectivo.

Uma vez que chove como Deus a dá, a primeira opção de colectivo exterior foi por água abaixo (é verdadeiramente caso para dizer) pelo que restou o colectivo interior, em ambiente seco e acolhedor, com bandeiras nacionais e cachecóis, bolinhos e champagne, cuja existência só foi revelada no fim, não fosse o diabo tecê-las.

Que jogo estranho e enervante!

Por lá, entre os que não aguentavam estar sentados, os que se agarravam aos sms em momentos de maior excitação, os que discretamente liam o Expresso como se nada se passasse e os que lutavam contra o sono (como é possível?), houve gritos de alegria, suspiros de incompreensão, apneias de suspense e bocas de raiva.

No fim, depois de se afogar o sofrimento em champagne comemorando a vitória, combinou-se o próximo.

Mas eu tenho um problema: O Gilberto Gil vem cá no sábado...

Saturday, June 24, 2006

Começar

Olho para o ecrã e sinto nostalgia da folha branca. Da caneta de tinta permanente. Mas a hesitação de começar é a mesma.

As mãos ficam suspensas nas teclas, ousam palavras que logo apagam. Apagam! Desaparecem. Não deixam o rasto das palavras riscadas, de uma desistência que fica presente.

No final de um exercício, quando todo um texto se apaga, não sobram folhas amachucadas no chão, vincos de raiva num papel.

Agora ninguém sabe que tentei e que falhei!
Sobra um ecrã! Que não conta nada.

As mãos podem acariciar as teclas, com um sorriso nos lábios, ou castigá-las furiosamente com lágrimas nos olhos. Nada se vê. Não há marcas.

A música de fundo é a mesma (save your dance for me) a dúvida primordial idêntica (como escrever?) e o resultado tão diferente, um ecrã com letras e o toque discreto do delete.

Já só resta desligar o computador. Com o mesmo espírito com que se coloca a tampa na caneta e se olha para as manchas de tinta nos dedos e se recolhem as folhas de papel tentadas, experimentadas, inutilizadas.

Friday, June 23, 2006

Tentativa surrealista com imaginário salgado

Chovia! Bagas de cristal lilás que atravessavam o guarda-chuva. Prenderam os braços e enrolaram as pernas. Eram fios dourados. Que ligavam as pérolas de cristal umas às outras, umas atrás das outras.

Como um manto que viesse cobrir a areia da praia. E que envolvesse as ondas do mar numa rede encantada.

Tentou libertar-se mas cada movimento seu, descoordenado, desesperado, apertava os nós e as bagas de cristal lilás marcavam a carne, cortavam-na, fininho.

Uma gota de sangue flutuou, escorregou pelos fios dourados. Tingiu-os de cobre. Deslizou para o mar onde pintou de rosa a espuma que salgadamente se esgueirava da rede de ouro, envolvendo as pérolas de cristal numa onda que brilhava, rebrilhava e se esgotava na areia, perdendo-se entre os seus grãos.

Derrotada encostou-se a uma rocha e ouviu as bagas lilases a espalharem-se, como um colar que se parte. Pérolas por toda a parte, mas sem vontade de as recolher, de as reconstruir, para que se pudesse recuperar o passado! Enfiá-las de novo, uma a uma, num fio dourado, dar nós para impedir que se soltem, terminar com o fecho e pôr, de novo, o colar ao pescoço. Como se nunca tivesse havido uma mão com raiva que o tivesse puxado, rejeitado. Como se as pérolas, como se as bagas, nunca tivessem saltado no chão, rodando, rebolando, até se perderem nos cantos do areal.

O guarda-chuva afastou-se, de varetas dadas com o vento, deslizou sobre os fios dourados e cobriu as bagas de cristal lilás para as proteger das gotas de chuva, das gotas de sangue, das lágrimas salgadas.

Porque ela chorava.

Thursday, June 22, 2006

Post-moderno, decadente ma non troppo

As mãos pesam-me e o olhar perde-se para além da escrita.

Angústia, pesadelo!

Viro lentamente a cabeça, atiro o cabelo para trás.

Acendo um cigarro. Filosoficamente. Deixo-o a arder no cinzeiro.

Encosto o copo gelado à testa. Um arrepio escorre pelo meu peito.

Um ruído. Escuto.

Chegou.

Troco duas palavras, profundas, interrogando o sentido da noite.

Vem cansado e sem gosto pelo mundo.

Desiludido, perdido.

Quando apanharmos duas estrelas do céu dormiremos bem!

Wednesday, June 21, 2006

Texto à escritora moderna, escrita feminina, etc...

Chegou a casa, atirou a mala Gucci para a cadeira da entrada, peça antiga da avó, colocou o relógio Hilfinger em cima da mesa, que calor que fazem os relógios, pensou, descalçou as sandálias Ferragamo, e achou que precisava de um lenço Hermès para completar o look BCBG.

Sabia que era jovem e elegante, com uma já comprovada carreira profissional e um futuro promissor como arquitecta agora que ia fazer um projecto com uma equipa internacional.

Tenho absolutamente que ir tratar das mãos. De cavadora, parecem mãos de cavadora.

Deixou-se cair em cima do sofá e agarrou no livro. Pensou em comer mas lembrou-se da dieta.

Que maçada o Verão, ter que enfrentar no espelho a celulite, as gorduras de um Inverno descuidado.

Tentou ler.

Ainda bem que o livro tem as letras grandes porque em absoluto não me apetece ir buscar os óculos Dior que são lindos por acaso, também me custaram uma fortuna!

Levantou-se e foi até à varanda. Espreitou discretamente.

Mas porque será? Porque será que o vizinho, um tipo giro, com um cabriolet de morrer, não me liga nenhuma?

Tuesday, June 20, 2006

And now, for something different

Comecei ontem a provar o gostinho das novas funções profissionais que me esperam!
É bom aprender coisas novas, passar por novas experiências, ter outras perspectivas.
Só que até ganhar um bocadinho de calo, sinto-me tão, mas tão burra!
Mas como estamos em período de crise, com sobrecargas de trabalho e urgências para antes de ontem, atiraram-me para dentro de água e mandaram-me nadar.
Ao menos não tenho que me preocupar com a dificuldade da escolha: ou nado ou me afogo!
(E quanto a afogar-me, não estou nem aí!)

Monday, June 19, 2006

A minha alma ficou parva!

Hoje vi o telejornal da RTPi.
Dado que é um sucesso que se verifica raramente é, por si só, notícia.
Podia até acabar o post aqui!

Mas vou continuar. Porque ainda tenho a alma meio aparvalhada com aquilo que ouvi!

Futebol, claro! Portugal nem jogou, nem nada, mas isso não obsta a que se entrevistem todos os passantes para saber o que eles pensam (pensam?) do futebol.

Ora hoje o jornalísta de seviço resolveu dizer que muitos e grandes haviam sido os sacrifícios de alguns para ali estarem, na Alemanha, a acompanhar a sua (deles) equipa.

Neste momento liguei (já se liga automaticamente até!) a tecla pc* e comecei a pensar que cada doido com sua mania e ninguém tem nada a ver com isso.

Até que me entrou pela casa dentro um ser falando francês, ele próprio residente em França, que dizia que tinha familiares em África os quais tinham pago um mês de salário para verem o campeonato do mundo ao vivo e a cores, em detrimento (atenção que agora vem a parte perturbante) da escolaridade das crianças!

Fiquei estarrecida.

Eu que já achava todo este circo futebolístico um exagero sem explicação, nem entendimento, fiquei ali no sofá, derrotada e desmoralizada.

Hipotecar a escola das crianças para ver homens em boxers, pagos a peso de ouro, a correrem atrás de uma bola?

politicamente correcto

Sunday, June 18, 2006

Diálogo com Deus

Está certo, já entendi essa de abrires uma janela cada vez que fechas uma porta! Bom, não vou agora pôr-me a discutir, dada a tua natureza divina, mas isto não me parece propriamente uma win-win situation. Ainda assim, tudo bem. Seja pelos meus pecados...

Agora, tu que me fizeste à tua imagem e semelhança, sabes que não sou a pessoa mais paciente deste mundo. Mesmo que não reclame, porque não sou dada a isso, esta longa espera está a deixar-me stressada, moída.

Não me passaria pela cabeça pôr em causa a justeza das tuas decisões e muito menos o respectivo timing, mas quer-me parecer que há atrasos nos serviços celestiais.

Ora, com tudo isto, começo a ficar com dúvidas, muitas dúvidas.

E quer-me parecer que neste momento passas bem sem mais um cristão com dúvidas. Os tempos estão difíceis para todos e até por aí as coisas não parecem estar a andar sobre rodas.

Mas o meu caso é tão simples que até dá dó teres mais uma criatura com problemas de fé quando a situação se resolveria com um simples despacho de um qualquer anjo de serviço.

É que já nem quero que abras a tal de janela. Será quando tiver de ser de acordo com os teus desígnios sempre insondáveis.

Agora, custará muito fechar bem a dita porta? Com as pressas com que as coisas foram feitas ela ficou ligeiramente entreaberta e a corrente de ar é insuportável...

Friday, June 16, 2006

Fascinante

Fico fascinada com as pessoas que não têm sentido do ridículo!

Thursday, June 15, 2006

Explicando o post anterior

Para dar o toque da actual coloquialidade portuguesa digo: então foi assim, eu tinha dois quadros diferentes num slide feito em powerpoint e o exercício consistia em transformar o segundo quadro num quadro exactamente igual ao primeiro.

Isto significava apagar linhas, juntar mais quadradinhos, mudar a font das letras e a cor do fundo, escrever números em bold, alinhar tudo à direita e outros pormenores sinistros feitos para maçar a cabeça dos formandos!

Para contextualizar, este foi o último exercício de um dia inteiro de formação e, basicamente, já estava fartinha de estar sentada naquela cadeira…

Ora bem, eu lá fui buscar a borrachinha para apagar duas linhas, confesso que até me diverti com a borrachinha, mas acrescentar quadradinhos, assim de repente, não estava a ver como era e tive aquele momento súbito de preguicite aguda, género um grito no cérebro a dizer "tirem-me daqui" e eu a responder "Pitucha Maria tens mesmo que fazer este exerciciozinho, vá lá" e eis senão quando se fez luz: se era para ser tudo igual, igual, copy and paste.

Assim como pensei, assim fiz e o segundo quadrinho ali ficou, todo sorridente, igualzinho ao primeiro, sem tirar nem pôr.

No meu entendimento, juridicamente modelado, eu só tinha uma obrigação de resultado: que os dois quadros ficassem idênticos. Os métodos para lá chegar eram portanto da minha escolha, desde que lícitos e que não prejudicassem outrem, que nisto eu sou muito certinha, cheia de princípios e respeito pelos ditos!

E eles ficaram!

Iguais!

Qual batota, qual carapuça.

Wednesday, June 14, 2006

Devem estar a brincar!

Hoje tentaram convencer-me a efectuar uma longa série de operações informáticas para fazer algo que eu resolvi com um copy and paste.
Disseram-me que estava a ser batoteira!
Acharão que quando não tenho mais nada para fazer vou brincar com o powerpoint?
E deixo escrito para que não me desminta no futuro, sempre que puder fazer copy and paste eu não vou deleitar-me com abrir janelas, fechar janelas, verificar fonts, mais F1 e depois bold, etc, etc, etc...
Para mim é sempre, sempre, o caminho mais curto e simples e, logo de seguida, Esc do computador.
Estamos entendidos?

Tuesday, June 13, 2006

Quadras soltas em dia de Sto António

De Lisboa ou de Pádua
Santo de qualquer maneira
Traz manjericos e marchas
Para a União Europeia

***

Alegra esta triste cidade
Da Europa o coração
Dando-lhe arraiais gostosos
Um arquinho e um balão

***

Santo António padroeiro
Dos sonhos de ilusão e amor
Enche a cinzenta Bruxelas
De muito sol e calor

Monday, June 12, 2006

Detalhes da vida

Hoje almocei com uma amiga que não via há algum tempo, sentadas as duas na relva de um jardim, a saborear uma sanduíche.
Ela fala espanhol, eu respondo em português e nunca nos desentendemos.
Recordámos gente que ambas cruzámos e descruzámos na vida, comparámos novas experiências profissionais, consolámo-nos pelos momentos piores, encorajámo-nos com futuros mais risonhos.
Breve encontro numa hora de almoço num dia de trabalho.
Está prometida a repetição.

Sunday, June 11, 2006

Ufa!

Este fim-de-semana aqueceu, e como!, preparei a festa toda, barbecue incluído (admito, não fiquei ao calor porque um cavalheiro comunicou-me que o acto de grelhar, o próprio acto de sofrer à frente das brasas, é de homem, conquanto que haja cerveja geladinha por perto), com preciosa ajuda de mão amiga para as saladas, que ficaram deliciosas por sinal, saiu muita sangria, cerveja, gin tónico e algumas bebidas mais soft, as dietas de Verão fizeram uma pausa por alturas da sobremesa e a noite prolongou-se por horas muito latinas em conversas animadas e poliglotas na varanda, à procura do fresco.

Logo, curta, curta foi a noite.

Hoje de manhã, cedinho, lá fui com a Carlota para mais uma excitante experiência bruxelense.

E agora que a casa está quase em ordem, que Roland Garros pousou as raquettes, que a sessão do clube de leitura correu bem como habitualmente, vou encher um copo com água muito gelada e estirar-me no sofá à espera do Portugal-Angola.

Façamos figas...

Se eu adormecer durante o jogo, acordem-me por favor!

Friday, June 09, 2006

Crónicas de Bruxelas 8

Hoje vamos dar uma volta pela "braderie" do meu bairro.

Nos dias precedentes, cartazes e faixas foram chamando a atenção dos moradores e passantes para a data. Será um domingo de animação.

O restaurante brasileiro da Place de Londres avisa que haverá música brasileira ao vivo enquanto os vários restaurantes africanos preparam já os churrascos.

Deseja-se muito que não chova.

No próprio dia, o trânsito é cortado na zona. Tudo fica entregue aos peões que ali vão, movidos pela curiosidade dos objectos em venda ou almoçar em ritmo de feira, vendo passar gente de todas as cores e feitios.

Comecemos pela rue de la Paix. Entre os habituais feirantes, que disto vivem, e que vendem sobretudo roupa e artesanato mil vezes visto e feito em série, e os tradicionais stands de comidas e bebidas, onde iremos mais daqui a pouco, temos os particulares que, num espírito de feira da ladra, se tentam desembaraçar de objectos que se tornaram, aos seus olhos, inúteis ou velhos.

Estas "braderies" são locais excelentes para coleccionadores, como eu. Entre livros velhos, cassetes vídeo de outras eras, louças desirmanadas, brinquedos que o tempo colocou a um canto, vamos certamente encontrar aquele objecto que nos seduz. Um pequeno quadro para a parede do fundo, um bonito conjunto de chávenas de café, um cinzeiro igual àquele que havia em casa dos avós e que nos traz memórias de infância, um anjinho para juntar à colecção, três porta-chaves com máscaras africanas, bem negociados pelo preço de um…

Prestem particular atenção às bancas de certos marroquinos, ali na Rue de Dublin, que vendem copos de chá de cores variadas, rendilhados a dourado, expostos em pratos de latão amarelo esculpidos, ao lado de acolhedores poufs árabes. Tenho que admitir que os copos têm o seu quê de kitsch que os torna particularmente atraentes. São o bilhete para viajar no tempo e no espaço e imaginar umas tendas no deserto e o chá, muito doce, a ser servido por homens morenos em trajes de filmes.

E nem de propósito, não percam o representante tuaregue vestido de azul, ou não fosse ele um dos homens azuis do deserto. Está na Place de Saint Boniface. Vende colares, pulseiras, coisas tuaregues diz ele, a preços muito europeus, penso eu, mas o seu sorriso cativante dificulta uma rápida passagem. Assim, paremos um pouco para ouvir o que tem para contar. Afinal de contas, a "braderie" vai durar o dia todo.

Estamos quase a chegar à Place de Londres e já se ouve a música dos brasileiros e demais latinos a animar o recinto. Aqui predominam o verde e o amarelo, as caipirinhas, o guaraná. Duas baianas fritam uns bolinhos típicos e, aproveitando a maré, as bancas adjacentes exibem t-shirts, biquinis e havaianas. Se ao bonjour deles respondermos com um bom-dia nosso, teremos um sorriso de reconhecimento, um oi, cê fala português? Queria um pastelinho desses, pode pegar, e era uma cerveja brasileira, pode sentar eu levo pra você.

Sentemo-nos portanto, ao sol. Tem que estar sol. "Braderie" com chuva é uma contradição nos próprios termos. E desta vez, que sorte, o sol não faltou.

Agora deixo-vos. Eu ainda vou cirandar pelas outras ruas, nunca se sabe o que se vai encontrar e quero sucumbir à minha tentação ritual destes dias, a banana frita, que está à venda na zona dos africanos, mais para a Chaussée de Wavre. Sigam o cheiro dos churrascos e vão lá dar sem engano.

Até para o ano. Esperemos que não chova.

Wednesday, June 07, 2006

Ilusão

Cansado de esperar apagou a luz, fechou a porta e procurou nas vozes cruzadas do café uma vivência que lhe agradasse mais.
Quando regressasse a casa, se regressasse a casa, não seriam horas de esperar mais nada.
Ficaria menos desiludido.
E qual será a sua vontade de se desiludir se não tem mais ilusões?
Afinal, a vida é isto mesmo.
A ilusão permanente de se acreditar na ilusão, de acreditar que um dia se deixa de acreditar na ilusão.
Quando abriu a porta e acendeu de novo a luz, em horas de não esperar mais nada, o telefone tocou.
Iludiu-se!
Porque a ilusão é mais forte.

Monday, June 05, 2006

Gémeos?

Lisboa cheia de sol, céu azul, crianças vestidas de cores de chupa-chupa!
Nos bancos do jardim, onde o descanso procurava a frescura da sombra, gente lia o jornal, trocava impressões sobre as últimas do dia, deixava o tempo escorrer sem pressas.
Um senhor segurava pela trela dois cães idênticos, cor-de-mel, cheios de vontade de correr.
Uma criança olha e comenta espantada:
Olha, aqueles dois cães são gémeos...

Thursday, June 01, 2006

Quase no final do dia da criança!

Quando eu for grande quero ser professora de ginástica. Quero andar aos pulos e dar cambalhotas, saltar no trampolim e subir às árvores.

Quando eu for grande quero ser jornalista. Quero andar a correr por aí para saber tudo o que aconteceu e depois ir contar a toda a gente para que ninguém fique sem saber o que se passou.

Quanto eu for grande quero ser poeta. Quero rimar cantar com dançar, flores com cores, sorrir com divertir,

Quando eu for grande quero ser escritora. Quero acariciar capas bonitas a guardar as páginas cheias de palavras que eu escrevi, numa ordem que é a minha, para contar histórias a toda a gente.

Quando eu for grande quero ser arqueóloga. Quero descobrir coisas antigas, bonitas, surpreendentes, que nos ajudam a perceber como se vivia antes, o que faziam os que por aqui andaram antes de nós.

Quando eu for grande quero ser política. Quero saber os segredos que as pessoas importantes sabem, quero agitar bandeiras e debater ideias.

Quando for grande quero ser diplomata. Quero perder-me em jogos de bastidores, cruzar línguas e culturas diferentes, com firmeza em forma de cortesia.

Quando for grande quero ser missionária. Quero fazer o que posso por aqueles que não podem.

Depois cresci e não fui nada daquilo que quis.