Monday, July 31, 2006

O meu Moleskine e eu (1)

Coincidência, ou talvez não, mas a guerra actual que se desenrola no palco libanês trouxe para as ruas de Bruxelas um número inusitado de burkas, negras e pesadas, imaginavelmente quentes nestes passados dias de Bruxelas tropical.

Sempre acompanhadas por homens morenos vestidos de ocidentalíssimos jeans e t-shirts.

Por muito comedida que seja e normalmente respeitadora de outros hábitos e costumes, senti estas burkas em mim, no calor que fazem, nas formas que escondem, no significado que ostentam e não gostei.

Na mesa do café, bebendo uma cerveja, com os braços desnudos procurando a frescura inexistente, as pernas desleixadamente relaxadas em calças que posso usar, lembrei-me de lutas passadas que não sendo minhas me trouxeram esta sociedade em que vivo.

Esta sociedade que é a minha. E pela qual é chegado o momento de lutar.

Sunday, July 30, 2006

O meu Moleskine e eu

Sempre quis ter um!

Na senda de Hemingway, ambicionava ter um bloco onde apontar ideias e pensamentos, recados e motes. Nunca ousei comprar um Moleskine. Nunca ousei comparar-me a Hemingway.

Agora já tenho um!

Amigo sabedor do meu interesse pelas letras e crente nas minhas capacidades de escrita, colocou-me nas mãos a maior das responsabilidades: ser merecedora do meu Moleskine.

Farei por isso.

Por aqui, achei giro criar esta rubrica: "O meu Moleskine e eu".

E tudo se deve a quem me ofereceu o Moleskine. Obrigada!

Friday, July 28, 2006

Que maçada!

Porque será que quando se está de t-shirt branca e se come um iogurte de cor branca e um iogurte cor-de-rosa é sempre este último que cai na t-shirt?

Desafio

As estrelas disseram-me que era muito importante não pôr nuvens a tapar o brilho das flores que nascem em mim.

Mas sabes, não foram as estrelas! Creio que não!

Foram dois anjos que espreitaram, com um sorriso matreiro. Eu vi-os deitados na nuvem branca, de bruços, olhando para nós que distraidamente nos perdíamos nas estrelas do céu.

Eu nessa altura não acreditava! Mas eu queria acreditar! Oh, como eu queria acreditar. E pensei ver, num tremelique de uma estrela, a direcção do caminho a seguir.

Mas agora, agora que ganhei a coragem de perder o medo, sei que foram os anjos que me disseram para não voltar atrás na minha decisão. Para não deixar que as dúvidas, as inseguranças, afugentassem o sol das flores que há em mim.

Marta, de mar, de asas, de riso, de ternura, de arte, vamos agarrar os nossos sonhos, lutar por eles, acreditar que aquela mão que nos é estendida é para nós.

Eu vou, Marta, eu vou atrás daquela mão! E depois vou mão na mão, para sempre! Porque quero, porque mereço, porque sim!

Thursday, July 27, 2006

Sonhos de uma noite quente de Verão

Encostada à porta da varanda absorvia o ar fresco da noite, sentia a brisa ténue que não tinha força para entrar pelas janelas abertas de par em par.

Procurou no céu os sinais de uma trovoada anunciada. O desejo da chuva que viesse aliviar a terra seca, que libertasse os cheiros enterrados, que trouxesse de volta a música a este silêncio quente que pegajosamente se colava à pele.

Ficou a conversar com o silêncio, deixou os sonhos alargarem-se e crescerem, construírem irreais histórias de esperança tão possíveis no calor desta noite.

Uma lufada de ar fresco murmurou-lhe um sorriso ao ouvido, deu-lhe um abraço vindo de longe e desejou-lhe, em segredo, boa-noite.

Talvez amanhã!

Wednesday, July 26, 2006

Novo título provisório

Até nova ordem, o título deste blogue passa a ser "No amarelo de Bruxelas".

Para todos os efeitos, considerem que a nuvenzinha é um girassol e as gotas de chuva que dançam com o cursor devem ser vistas como sendo chapeuzinhos de sol.

Quanto à autora é, neste momento, um ser inundado de luz e cor, sorridente e saltitante, com roupa ligeira de Verão e óculos de sol.

A produção de posts mais imaginativos seguirá a partir de uma esplanada.

Peço cerveja para quantos?

Tuesday, July 25, 2006

Bom dia

Vamos tomar café?

Hoje será servido acompanhado de um raiozinho de sol, quente e brilhante, para nos alumiar o dia.

Pendurei um deles na lapela para me reconhecerem.

Monday, July 24, 2006

Imagem de marca

Sei que tenho estado particularmente parca de observações meteorológicas.

Assim, e a fim de repor este blogue na imagem de marca que é tão sua, cumpre-me dizer: adoro Bruxelas tropical!

Saturday, July 22, 2006

Diálogo com textos 6

Adormeci ao som das tuas belas palavras. Há quanto tempo não me deixava embalar por uma doce voz murmurando arcos-íris ao ouvido.

E com um pincel, um simples pincel que te ofereci, e com sete cores, setes cores que o arco-íris nos dá a todos no final de tempestades quando anuncia a bonança, fizeste o mais belo destes diálogos.

Não, não foi o gin tónico, tão-pouco o calor desta noite estrelada, que me fizeram adormecer.

Foi a doce ilusão reconfortada no verde dos teus olhos de que cada um de nós tem o seu caminho a fazer, a percorrer. Mas sobretudo, e foi isso que me disseste nesta conversa, que ele é de cada um mas também é nosso.

Não olhes para mim com esse ar incrédulo. Mesmo quando pareço afastar-me em busca dos meus castelos no ar, estou a ouvir-te. A ti e aos outros que percorrem este mesmo caminho. Achando, cada um, que o fazem de forma original, contra ventos e marés.

No sono em que me perco, descanso finalmente. Estou a subir o arco-íris. Ousei ignorar o medo de escorregar nesse azul que me perde, de tropeçar no laranja que me ofusca, de me aquietar no amarelo que me aquece, de me perder no vermelho que me assusta. Ousei enfrentar a imensidão do violeta, percorrer a estranheza do anil e finalmente aceitar a esperança do verde.

Ainda assim, porque o medo é erva daninha que persiste, dá-me a tua mão.

E não pergunto se achas que no fim estará um pote de ouro…

Sei que vais dizer-me que somos nós que o criamos com todos os reflexos dourados que colhemos no nosso caminho.

Thursday, July 20, 2006

Dignidade

Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia

Artigo 1° - Dignidade do ser humano

A dignidade do ser humano é inviolável. Deve ser respeitada e protegida

Wednesday, July 19, 2006

Guerra de todos os hábitos

Quando um dia (mais século, menos século) o Médio Oriente acordar em paz, saberão os habitantes daqueles países o que fazer?

Saberão olhar para uma flor, num jardim, sem medo do jovem de blusão que se passeia com ar descomprometido?

Saberão amolecer ao sol-à-beira-mar sem procurar nos céus aviões inimigos?

Saberão ajeitar as almofadas na cama para se enredarem no último livro que compraram, sem se manterem alertas para os silvos dos mísseis?

Saberão festejar aniversários sem se preocuparem com as raças e as religiões dos amigos convidados?

Saberão deixar as crianças a brincar na rua com um sorriso na alma de que uma queda de bicicleta é o mais grave que lhes pode acontecer?

Saberão sonhar sem que a capacidade onírica se esgote em tentar encontrar o pão de cada dia?

Tuesday, July 18, 2006

Perseverança e resignação

Lidar com administrações públicas é sempre uma odisseia!

Pois eu ando agora num percurso de combatente com a administração comunitária, digno de qualquer telenovela brasileira!

De Herodes para Pilatos, de Seca para Meca, lá vou eu percorrendo estes intricados caminhos por onde passam, carregando a sua cruz, aqueles que têm a ditosa infelicidade de precisar de "coisas": atestados, certificados e outros ados!

Vendo o lado positivo da situação, há algo de patriamente reconfortante em saber que todas as administrações se gerem pela mesma bitola: para quê fazer fácil se é possível complicar!

E assim, mesmo em Bruxelas, uma pessoa sente-se em casa…

Sunday, July 16, 2006

Diálogo com textos 5

Falas das cores de um arco-íris. E assim alimentas os meus sonhos, feitos de muitas cores e de mais ilusões ainda.

Já vi arco-íris fabulosos, rasgando os céus ainda húmidos das chuvas com fortes pinceladas coloridas.

E não consigo não imaginar que no fim do arco-íris está um pote cheio de ouro! Nessas alturas fico assim a olhar, com um sorriso na alma, a pensar que gostava de ir um dia atrás do arco-íris, seguir a sua rota e chegar lá onde ele se espraia sobre a terra, faiscando em reflexos dourados.

Lembras-te da canção “somewhere over the rainbow”? Devia cantarolá-la mais vezes quando deixo que o cinzento dissolva as cores da minha alma, quando me esqueço que em qualquer sítio, se calhar mesmo “over the rainbow”, há uma mão que se estende.

Se olharmos bem, creio que veremos o brilho do ouro que se reflecte nuns olhos carinhosos. Será aí o fim do arco-íris?

No mar? E se o arco-íris acaba no mar, dizes tu? Icemos as velas então. Brancas, luminosamente brancas. Deixemos que o vento as insufle e empurre o barco virado para a lua, fazendo montinhos de espuma na rota que trilha no mar.

Vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil, violeta.

Nesta tela branca que aqui tenho vou tentar pintar um quadro com estas cores, um quadro que comente o passado, retrate o presente e imagine o futuro. Um quadro sem cinzentos.

Também tenho um pincel para ti.

Friday, July 14, 2006

Opostos

Silly Season.

As revistas ditas femininas apresentam, pela enésima vez, aquela dieta que vai funcionar. Come-se de tudo, não se faz ginástica!

Em momentos de maior introspecção dou por mim a pensar nesta estranha sociedade, neste mundo desequilibrado, onde uns morrem de fome e outros vivem de dieta em dieta até ao juízo final da balança.

Wednesday, July 12, 2006

Ide!

Ide fazer outra coisa porque aqui, hoje, não há post.

Tuesday, July 11, 2006

Recorde

Hoje bati o meu recorde absoluto de telejornal português. Segundos, não mais do que segundos, foi o que consegui aguentar.

Vi um tipo que, de acordo com as legendas é presidente do sindicato dos jogadores, a manifestar a sua estranheza por quererem tributar os prémios dos jogadores que participaram no mundial de futebol. Obviamente isentos pelo serviço prestado à Pátria!

Não, tirem-me deste filme…

E os restantes cidadãos portugueses que labutam diariamente, por vezes em condições que não lembram ao diabo? Não se condói desses a Pátria…

Foquemos de novo a imagem: os moços, pagos a peso de ouro, ficaram em quarto, repito, quarto lugar. Nem uma medalhinha!

Monday, July 10, 2006

Perplexa!

Confesso, fico mesmo perplexa, assim até um pouco aparvalhada, sabem, de boca aberta e olhos esbugalhados, com o cérebro meio encravado, de tal maneira que nem consigo articular palavras, ou então sai assim uma coisa que não dá com nada, até chego a ostentar um sorriso amarelo daqules que são imbecis todos os dias, cada vez que alguém me diz que se aborrece imenso no fim-de-semana porque não sabe o que fazer!

Helloooo!

Sunday, July 09, 2006

Ainda o futebol

Não vi o jogo entre Portugal e a Alemanha, admito.
Puro desinteresse.

Mas espero que a Itália ganhe a taça do mundo.
Bom, o que eu verdadeiramente quero é que a França perca a taça do mundo.

Friday, July 07, 2006

Acasos

Acasos da vida levaram-me ao cinema ver o "United 93" (sobre um dos aviões do 9/11) em dia de aniversário dos atentados de Londres.

A minha incompreensão não pára de crescer.

Como são possíveis actos destes?

London for ever

Londres, 7 de Julho de 2005.

Recordemos as vítimas de mais um atentado cobarde, feito por gente para quem o ódio é mais forte do que qualquer outro valor ou princípio.


E nós, aqui, no mundo, em Londres, reafirmamos: não temos medo!

Mas digo mais, porque a grandeza de alma de certas pessoas me obriga a parar e a pensar. O marido de uma das vítimas, diz aos filhos 'Do not harbour hatred.'

É desta massa que se fazem os heróis!

Thursday, July 06, 2006

Diálogo com textos 4


É o sol que vai derreter o gelo.

(Tu sabias que eu ia falar do sol).

Vês agora porque tenho fascínio pelo sol? Porque não gosto de enfrentar a noite de todos os gelos?

Não é só porque sou friorenta. Nem sequer pelo frio que entra na minha alma (desculpa se não falo em coração mas ainda não é dia e esta noite, quente e estrelada, não foi feita para lágrimas). É pela saudade. Não te faz frio a saudade?

E agora que falamos em saudade, esse nobre sentimento lusitano, mote de fados e de olhares perdidos ao longe, deixa que te diga que o que me magoa não é a saudade dos tempos idos feitos, segundo esta minha visão escura como a noite, de erros e de derrotas. Como ter saudades de um caminho que não se quer trilhar de novo?

Sinto saudades de um tempo que nunca vivi, que apenas imaginei, idealizei. Sei-o hoje. Nunca o vivi. Mas procuro-o.

Por isso espero ansiosamente o dia, mesmo que agora não o admita com a frontalidade de outrora. Preciso do sol, da luz, do calor para retomar a minha busca que construo, a cada dia que passa, subindo um a um os degraus de um raio de sol.

Essa nostalgia do que não tive é o que me dá forças para me afastar, sempre um pouco mais, do passado, desse passado de que falas.

O nosso encontro (não, não lhe chames reencontro porque corremos o risco de projectar vivências antigas no futuro, até neste presente, neste momento agradável que o gin refresca), pode, se o quisermos, se o soubermos, ser feito de palavras tecelãs de uma estória diferente.

Não olhes para as pontes que cruzámos e, sobretudo, não sintas vontade de as cruzar de novo. Já fomos por aí! Se outra margem houver será a nado que a alcançaremos.

Isso eu percebi e sei que tu também o sabes.

Assusta-te a hercúlea tarefa de enfrentar o mar salgado?

Eu já tive tanto medo. Acho que ainda tenho um pouco. Mas creio que o mar é a minha ponte (será a nossa ponte?) para chegar a uma praia onde repousarei das emoções desta noite.

Repara! Ali ao longe já se vêem raios da alvorada. São apenas cores ténues que, com aparente fragilidade, anunciam a renovação.

Vejo no teu sobrolho carregado o desespero de não conseguires sentir hoje paixões de antanho.

Não me olhes assim. Sabes que gosto de efabular, de ver na ténue madrugada o raio quente do sol que desejo.

Está bem, nada vejo, apenas pressinto que o abraço da noite e o gosto gelado do gin te impedem de crer…

Perguntas porque me calo?

Porque, apesar da aurora, ainda não é chegado o tempo de aflorar a tua mão com os meus dedos. E se, apesar disto, sorrio é porque acredito que ainda não é altura de amortalhar a esperança.

Conversas de corredor

Um colega, vizinho de gabinete, não consegue, com o seu sorriso triste, esconder a preocupação pelo filho. Após um parto complicado, poderão ter ficado sequelas, dizem-lhe os médicos.

Nós, habitantes deste corredor e de corredores paralelos, tentamos incutir a esperança possível.

O bebé foi finalmente para casa.

Uma chefe de uma outra unidade, dinamarquesa fogosa e decidida com ar de quem não perde tempo na vida com ninharias, preocupou-se.

E sabendo que o bebé já estava em casa disse, em palavras que se espalharam pelo corredor e que decerto não deixaram ninguém insensível: You'll see everything will be all right. Love and tenderness make miracles.

Wednesday, July 05, 2006

Crónicas de Bruxelas 9

Marcamos encontro no "Tour et Taxis", edifício imponente, feito de tijolo e rasgado por largas janelas.

Quando foi construído, entre 1904 e 1906, destinava-se a ser o Entrepôt Royal, enorme armazém adaptado à conservação de mercadorias por longos períodos.

O advento de uma Europa única, sem fronteiras e com livre circulação de produtos, ditou o seu fim e o edifício foi desafectado em 1987.

Podia dizer-vos que ele foi, entretanto, transformado em espaço de trabalho e de lazer, obras que ainda não acabaram, mas se nós estamos em "Tour et Taxis" não é para ver o edifício. Também não é para passearmos nos arredores. Não obstante ficar situado perto do canal de Bruxelas e de ter, teoricamente, todas as condições para ser um local agradável, ainda não é! Daqui a uns tempos talvez nos possamos deslocar lá, para passar um simpático serão. Por enquanto, ainda sobram resquícios da decadência a que aquela parte da cidade, de pendor industrial, nos habituou.

Estamos aqui para visitar, gozar, fruir, o festival" Couleur Café" que se desenrola no vasto pátio ao ar livre que rodeia o edifício.

Organizado pela primeira vez em 1990, o festival oferece desde então um cocktail de músicas de pendor essencialmente africano e afro-cubano, num contexto étnico e exótico. Desde 1994 que ele se desenrola no "Tour et Taxis" e hoje em dia é referência obrigatória para quem deseja passar três dias, de sexta a domingo, com os ritmos da música do mundo.

Bruxelas está ainda meia embrulhada no seu torpor invernal quando os cartazes coloridos anunciando a edição anual do "Couleur Café" se espalham pela cidade. Marcam-se as datas nas agendas, e parte-se à descoberta dos músicos que virão animar o rame-rame quotidiano.

Este ano, a comunidade lusófona animou-se com a prevista participação de Yvete Sangalo e de Gilberto Gil, dois dos cerca de 40 nomes ao som dos quais dançarão jovens e menos jovens de várias cores e línguas, numa prova de que Bruxelas é um centro multifacetado a que o cinzento insiste em retirar a cor.

Encham-se de paciência para a fila da entrada no primeiro dia. Afinal de contas os belgas nunca foram conhecidos pelos seus dotes organizativos! Este ano, em tempos de mundial de futebol, as nacionalidades ostentavam-se em t-shirts e bandeiras atadas as pescoço ou enroladas à cintura e écrãs gigantes permitiam que se seguisse o festival sem perder de vista os golos.

Uma vez no interior do recinto, procurem em qual das três enormes tendas cantará o vosso cantor preferido: hiphop, world, afro, reggae, ragga, latin, salsa, rock, há verdadeiramente de tudo!

Entre dois concertos, bebidas, comidas e muito artesanato de várias partes de mundo permitem que se passe o tempo e que se troquem dois dedos de conversa com amigos. Desde que se esteja suficientemente afastado das tendas, claro! Caso contrário, o nível sonoro dos concertos não permitirá que os dois dedos de conversa se alarguem para muito mais…

Não se vão embora sem pararem para observar o colorido e a diversidade das pessoas que circulam no festival, numa descoberta, por vezes surpreendente, de que há em Bruxelas gente de que a gente nem suspeitava!

E agora, soltem-se e dancem.

Tuesday, July 04, 2006

Diálogo com textos 3

E não achas que paixão e equilíbrio são antagonistas? Por vezes penso que sim.

Acredito que seja excitante vestir a pele de um artista de circo e tentar a sorte nesse periclitante balanço de um amor flamejante, como dizes. Claro que sim, que acredito.

Mas sabes, no princípio, quando o passado é suficientemente pequeno para não ter força e o futuro ostenta um brilho intenso que nos atrai inexoravelmente, é fácil viver o presente nessa corda bamba; até é fácil achar que se pode viver sem estabilidade. Tão assim é, que quando se cai, mais do que a dor, o que nos dói é o espanto, a surpresa. Como se nunca nos tivéssemos apercebido que estávamos instavelmente assentes num equilíbrio desequilibrado e desequilibrante.

Ainda assim, a inconsciência (ou será a fé? Dizem que move montanhas! Talvez seja capaz de acalmar as tremuras dessa corda bamba.), a inconsciência, dizia eu, leva-nos a percorrer caminhos já conhecidos mas que teimamos em desconhecer.

Não vemos (eu não vi. Viste tu?) os olhares irónicos de quem prevê a nossa queda. Ou, quando vemos, sorrimos apenas, condescendentemente, achando que o nosso anjo se transformará em rede de segurança, em bóia de salvação.

Tens razão, o céu está estrelado e não é ainda chegada a altura de amortalhar a esperança.

Gosto de ouvir as pedras de gelo a estalar quando o gin as envolve; gosto de ver a rodela de limão a dançar nas bolinhas da água tónica.

Fiquemos assim, à espera da madrugada, que vai chegar quando for a hora.

Surpreendi-te, não foi? Sei que não me reconheces nesta vontade inerte de aceitar um ritmo que não é meu, de viver a noite sem esse desejo sôfrego de que nasça o dia. Digo baixinho que ele vai chegar. Preciso de o dizer. É o meu equilíbrio percebes? É a minha forma de não perder a rosa, como disse a Natália Correia, nunca percas a rosa.

Lembras-te das conchas? Vamos então reinventar um passado como se fosse nosso para que caiba no futuro.

Vejo-te sorrir e olhar de novo o céu estrelado.

Agarra esse fio dourado. Não tenhas medo, agarra-o.

Para que nunca percamos a rosa.

Monday, July 03, 2006

Diálogo com textos 2

Sim, mais um gin tónico para cada um.

Acho que vou buscar umas castanhas de caju, que eu adoro. Também queres ou preferes amendoins?

Fiquei a pensar nos diálogos paralelos, aquilo que dizemos, ainda que muitas vezes por palavras cuidadosamente escolhidas, e aquilo que não dizemos a ninguém por vezes nem a nós mesmos.

Mas é disso que somos feitos, de ditos e de não ditos, de ditos de outrem que temos pena de não ter dito, de ditos nossos que desejaríamos não ter dito.

No fundo o que todos procuramos, mais do que paixões arrebatadoras, é o equilíbrio. Não concordas? Vejo o teu sorriso trocista e adivinho que percebes que procuro o impossível. Admito que o procure. No fundo, só se dá mais um passo se o objectivo a atingir estiver à distância de toda uma vida. Se assim não for aborrecemo-nos! Entediamo-nos!

É nessas alturas que as ondas do mar surgem como caminho e sabemos que é preciso navegar (já se cantava) para procurar um novo equilíbrio noutro ponto, quiçá noutro tempo.

É a esperança que nos move, percebes? Ou a ilusão! Olha, não sei bem que palavra utilizar. No fundo, é uma busca que nos leva sempre mais além. É como apanhar conchas. Percorre-se o areal, no final do dia, enrolados nas cores quentes de um pôr-do-sol laranjamente nostálgico e vão-se apanhando conchas, uma aqui, uma ali, e mais outra…já viste alguém dizer encontrei a concha de que andava à procura? Ou, não preciso de mais conchas, tenho bastantes? … claro que não! Não perguntes o que me impele a apanhar mais uma concha. Mas para todas tenho justificação feita dessa vontade de tudo racionalizar, até aquela concha amarelada, ou a outra pintalgada de castanho, ou mais uma delicadamente rosa. Talvez deixe passar a lilás, por causa das bagas, lembras-te? Ou talvez volte atrás para a apanhar. Se o mar deixar! Só se o mar deixar! E nessa altura, se te embalares no balançante marulhar das ondas esqueces as conchas. Então deixas que os teus pés acariciem o mar e que o mar os acaricie também numa reciprocidade tão ideal.

Mas tu falavas de uma estória com um sapo e um escorpião…

Sunday, July 02, 2006

Factos e uma pergunta!

Não vi o jogo de Portugal.

Como já tinha dito, troquei-o pelo Gilberto Gil, em ambiente eufórico no festival Couleur Café.

Fui sabendo o que se passava por sms amigos e depois um telefonema gritou-me alegremente ao ouvido "Ganhámos"!

Também não vi o jogo do Brasil.

Na minha ingenuidade feita de ignorância futebolística e de alguma reacção anti-francesa absolutamente primária (admito! Também tenho destas coisas...) nunca imaginei, nem por um segundo, que o Brasil não fosse o nosso próximo adversário.

Expliquem-me, como é que foi possível o Brasil perder?

Saturday, July 01, 2006

Diálogo com textos 1

Dizes “Porque assim vale a pena, quando os dois se despedaçam, não apenas um e porque é burro cego que não quer ver” e tive que me refrear para não repetir, como o poeta, que tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

Desde que a alma tenha uma ponte para o coração!

Caso contrário, entorpece-se o espírito, rasga-se o sorriso em conveniências sociais, alucina-se o ritmo em copos e música, para que o momento do descanso, antes de chegar o sono, seja breve e pouco lúcido, esgotado que está o corpo em extremos de irrazoável.

Porque, repara, não vale a pena, não vale mesmo, se no momento da paragem se sentir que os pedaços despedaçados que restam de nós, são envolvidos pelo mais pesado dos silêncios, aquele que não é feito de escolhas, nem de piedosas obrigações, mas sim aquele que nos grita ao ouvido a ausência, o vazio, a falta!

Ouves-me? E acaso entendes o que digo? Percebes que não vale a pena quando as palavras se estilhaçam contra as paredes em solidão de diálogo? Que é insuportável quando a resposta às interrogações, que nem nos atrevemos a ecoar em voz alta, nos vem da música de um CD, ou da televisão que ocupa a nossa solidão com sentimentos de culpa aguçados pelas desgraças despedaçantes que povoam o nosso mundo!

Bebamos o gin tónico que preparei, gosto de um gin tónico, com muito gelo, em noite quentes como estas. Porque te digo isto? Para que saibas e para que penses antes de responder. Sabes, juntar dois monologantes em monólogo alternado não é um verdadeiro diálogo, pois não? É só mais uma forma de iludir a solidão.

Queres mais gelo?