Wednesday, August 30, 2006

Silêncio rádio

Vou até um mundo diferente onde a presença dos computadores não é desejável, nem atractiva.
Um mundo liquído e encantatório.
Silencioso.
Onde as comuns palavras são demais e perdem o sentido.
Onde o tempo tem outro tempo que não se tecla em histórias, em especulações.
Levarei o meu Moleskine porque, nesse mundo, a escrita é em papel, em privadas palavras, em sigilosas emoções.
Sentada em mesas prontas a receber viajantes de outras épocas, em busca de sonhos perdidos, completando sonhos temíveis de sonhar.
...
Voltarei.
Um dia.

Monday, August 28, 2006

Beijos salgados XI

Papagaios de papel.
Daqueles que têm dois fios.
Que dão uma trabalheira e montar e a esticar os fios e a lançar.
Uma vez no ar, içados pelo vigoroso vento figueirense, deixam-se manobrar em piruetas redondas, em loopings atrevidos e em vôos picados...
Quando o vento amaina e os fios amolecem, ele fica ali a planar, em contraluz.
Pescoços esticados e olhares atentos.
Até que um aterra, em atitude desrespeitadora da mão que o comanda.
Hoje cheguei a ter três papagaios para relançar a pedido das crianças condutoras, nós a desatar, choques aéreos a resolver...
Fiz o gostinho ao dedo com um papagaio de dois fios de longa cauda encarnada e ainda não perdi, de todo, o jeito. Só não consegui fazer loopings múltiplos e a insistência da criança-dona impediu-me treinos mais longos.

Sunday, August 27, 2006

Beijos salgados X

Com a autoridade que me concedo de quem passa férias na Figueira há para cima de uma data de tempo, achava que dominava a minha envolvente geográfica em matéria de "onde encontrar o melhor de..."

Está bem de ver que comprava o melhor pão, comia os melhores croissants, bebia o melhor café, saboreava o melhor peixe e pecava com as melhores bolas de berlim.

E assim andei, anos e anos, a repetir matinalmente o meu ritual de compra do pão, degustação de café e recolha de jornais, tudo nos melhores estabelecimentos.

Até que, alma inquieta, mente retorcida, me segredou por entre o ventoso da praia, que não havia pão, croissants e bolas de berlim como os de uma pastelaria que eu nem conhecia!

Meu Deus, como tal seria possível?

Encolhi os ombros perante a informação de um, certamente, recém-convertido às brisas figueirenses e portanto detentor de informação incorrecta e tendenciosa.

Eis senão quando de outra fonte, esta de antiguidade figueirense dinossáurica, me chega idêntica informação... e de outra ainda...e de mais outra!

Cabala, gritei! Só pode ser uma cabala. Terei eu andado tanto tempo enganada a comer o não-melhor? Eu com pergaminhos atestados de banhista de águas gélidas e de resistente a ventosas nortadas?

E hoje de manhã lá fui, com ar de veterania, à patelaria da moda!

Confesso, ainda não estou totalmente convencida, mas é certo que quando lá fui não havia bolas de berlim! Voltarei amanhã.

Logo vos direi se este ficará marcado como o ano da mudança radical dos meus hábitos matutinos.

Friday, August 25, 2006

Beijos salgados IX

Pronto, já vi os D'zrt!

Foi na noite mais fria, noite de nortada!

No Coliseu Figueirense a desorganização era total. Uma hora só para entrar e, felizmente, o concerto começou com mais de uma hora de atraso. Se assim não fosse, metade das pessoas nem entrariam a tempo! (Pergunto-me: começou atrasado porque houve atrasos na entrada, ou houve atrasos na entrada porque os moços estavam atrasados?).

Nunca vi tanta criancinha para um concerto! Eu própria dei a minha contribuição... 23h15 é, de facto, o horário mais adequado à faixa etária presente em grande maioria. Tirando, portanto, a mão-cheia de adolescentes, a assistência era composta por criaturinhas ensonadas e adultos acompanhantes gelados.

Ainda assim, os elementos da banda com o fabuloso nome de D'zrt (percebi que dizem "dizerte"! Nitidamente com menos impacto, escrito deste modo.), fizeram o que puderam para acordar o pessoal e aquecer a malta, incluindo saltos-mortais, passos de break dance, e feedbacks no microfone.

Em benefício dos crescidos (só pode, porque os pequenos sabem as letras todas das canções!), algumas líricas eram exibidas nos ecrãs em modos de karaoke. Muito me ajudou a ter um ar mais inteligente. E fui aprovadíssima pelas crianças da minha contribuição: até parece que dei os gritos certos nos momentos certos! Uau!

O meu top aos olhos da gente miúda estoirou com a compra de pipocas coloridas (aprendam, pipocas coloridas!) no final da festa.

Agora só falta saber quem é o Zé Milho (atenção que eu já sei que o baterista se chama Miguel. E esta hein?), que neste concerto tinha uma crista no cabelo, camisa sem mangas e calças de ganga de quando ele era muuuuiiito mais gordo. Claro que esta descrição cabe a quase todos, daí o meu problema em reconhecê-lo se ele passar por mim na rua! Só não entro em stresse descontrolado porque tenho fé na lei das probabilidades segundo a qual a minha chance de me cruzar com o moço em Bruxelas é, francamente, diminuta. Que a lei não me falte agora é a minha oração.

Também vou ter que estudar a ligação destes ídolos com os Morangos com Açucar. Aposto que, depois do meu ar descontraído e dos meus saltos entusiasmados (estou a surpeender-vos, não?), a pequenada vai achar que eu sou versada na matéria. Isso e comprar roupa dread! Para que não me chamem betinha... (mas betinha não era antes? Há coisas que insistem em resistir ao tempo...)

Tuesday, August 22, 2006

Beijos salgados VIII

No final do dia, quando o sol prepara o seu banho no horizonte do mar, quando o cansaço se acumula na pele colando-se com o sal dos mergulhos no oceano, quando a praia começa a esvaziar-se e os vários chapéus já fechados anunciam o fim do dia, quando as pessoas se atarefam a arrumar pás e baldes e a sacudir toalhas, vem a nostalgia do fim!

Recostada na cadeira de lona, vendo os veleiros a recolher ao porto, não posso deixar de me perguntar por onde me levarão as opções que fiz, há 20 anos, há 10 anos, no ano passado, ontem apenas.

E especulo como teria sido se, em vez dessas, tivessem sido outras as opções.

Exercício vão, eu sei. Não só porque não há como alterar o sentido da história, nem a vivência da nossa estória, com a pequenez da nossa própria dimensão mas com a importância de a sabermos única e irrepetível, como também porque, por mais que o assim o pensemos, nem sempre somos donos das nossas decisões.

E quando o sol toca a linha da água prenunciando o crepúsculo, diz-nos, ao mesmo tempo, que amanhã é um novo dia, com novas opções para fazer.

Nada está decidido.

Sunday, August 20, 2006

Beijos salgados VII

Uma cerveja, loura e fresca, um prato de tremoços, uma mesa com amigos, saudades dos amigos ausentes, tudo regado com luminosos raios de sol e salpicado pela habitual nortada, praia à frente dos olhos e mar na linha do horizonte...
Não se pode querer muito mais!

Thursday, August 17, 2006

Beijos salgados VI

Gosto de um dia de chuva no Verão! Por ser tão fora de época, por sair da rotina imposta pelo sol que obriga à praia. E porque é uma chuva quente que permite andar na rua, como se não chovesse... Mais uma vez o passado que regressa à memória, em brincadeiras molhadas sem medo de zangas paternais... E o banho no mar à chuva? Entre risos e desafios, perante o olhar meio divertido, meio enternecido dos adultos.
Mas também gosto de ficar em casa a remexer gavetas, a descobrir objectos passados, esquecidos, de outras experiências, alguns de outras vidas, que nos trazem sorrisos e lágrimas.
Objectos que rearrumamos em locais visíveis ou deitamos fora, encerrando assim ciclos, em paz ou com mágoa, mas numa resignação consciente de que já não se recupera o que se perdeu ou se rejeitou.
Dias em que se trocam as actividades ao ar livre por divertimentos caseiros e, no fim, sobram quadros coloridos que se penduram nas paredes para gáudio orgulhoso das crianças-pintoras, livros que se terminam e que se encaixam nas sobrelotadas estantes, refeições a horas e sem as pressas de mais uma saída.
Dias em que se veste roupa de cidade logo pela manhã, em que se enfia o casaco de malha para se ir comprar o pão e o jornal e se regressa com notícias do frio, do vento, da chuva e hoje não se vai à praia, sem pena, sem lamentos, porque é sempre bom variar!

Wednesday, August 16, 2006

Beijos salgados V

Em dias de nortada, com o céu repleto de farrapos de algodão a encobrirem de tempos a outros o sol, a praia tem algo de chamativo.
Porque está mais vazia, porque perde o ar de natureza domesticada cheia de toalhas, vendedores de bolacha americana, raquetes de praia e papagaios de papel.
Só sobram os indefectíveis que, de camisola vestida, se deleitam com um livro ao som do vento e do mar.

Saturday, August 12, 2006

Beijos salgados IV

Acordei com o som do farol.
Sinal de manhã de nevoeiro.
Essa bruma matinal tão típica da Figueira, que envolvia, melancólica e poeticamente, as traineiras a entrarem no porto de pesca, que amortecia os sons da cidade que despertava, devagar, dos divertimentos nocturnos...
Sinal de uma infância, ida em tempos, em que o farol ritmava os cantares das varinas e acompanhava os preparativos para os pequenos-almoços num lançar de um novo dia, feito de sacos de praia, cestos de compras vindos da praça, jornais regionais que os de Lisboa chegariam mais tarde às mãos ansiosas de pais e tios.
Espreitei pela janela e vi o nevoeiro.
Tudo o resto imaginei.
Um dia destes vou ver se as traineiras ainda chegam, manhã cedo, ao porto da Figueira, vindas das brumas.

Thursday, August 10, 2006

Beijos salgados III

Provavelmente em homenagem a uma certa aristocracia decandente, a FNAC resolveu abrir uma filial de verão na Figueira. O facto de terem a atender pessoas sem qualquer formação é, talvez, secundário quando se passa o dia à beira-mar:
Tem o último livro do Vasco Pulido Valente? De quem? Do Vasco Pulido Valente. Sabe o título? Por acaso, não mas é o último, sobre o Paiva Couceiro. Sobre quem? O Paiva Couceiro. Posso ver se há em Coimbra. Disse-me que era sobre quem? Paiva Couceiro...é o último do Vasco Pulido Valente. Tenho que apontar, sabe, é que eu sou da área de fotografia e não conheço esta obra...Disse-me Vasco?...
...
Disse, mas deixe!

Wednesday, August 09, 2006

Beijos salgados II

Comer um Magnum branco, acariciada por um vento quente e salgado, vendo os reflexos dourados do sol a saltitar no mar enrugado...um hábito que não me custaria a criar!

Monday, August 07, 2006

Beijos salgados I

A vantagem da onda de calor é que a Figueira da Foz fica uma praia quente e o mar gelado uma benção refrescante.

Friday, August 04, 2006

Tanka pela paz

Vem da Azulita e é um apelo irrecusável.

Pela paz eu cito "The Blue Day Book" de Bradley Trevor Greive e digo:

If someone else is doing the wrong thing, stand up tall and say, "That's not right and I won't stand for it!" It's ok to be forceful

De vez em quando

Passarei por aqui, de vez em quando, entre dois banhos de mar e a pele repleta de sol.
Passarei para matar saudades e para vos deixar beijos salgados.
Boas férias!

Wednesday, August 02, 2006

O meu Moleskine e eu (2)

A BBC online informa-me de que a princesa Kiko do Japão está grávida.

E isto só é notícia internacional porque é fundamental para aquele país electrónico que nasça um menino para assim assegurar a continuação do trono.

Com efeito, o reino já tem princesinhas que baste mas o príncipe desejado, o herdeiro varão, continua a ser negado ao Japão.

A ideia de alterarem o enquadramento jurídico para permitirem o acesso das mulheres ao trono passou-lhes pela vista (por força das circunstâncias!) mas estava a custar-lhes. Tanto que, assim que se soube da feliz graça da princesa Kiko, o Japão parou, suspendeu a respiração e enquanto não se souber o sexo da criança nada se faz, excepto ritualizados gestos tradicionais para que o bebé nasça, nasça bem e, sobretudo, nasça homem.

Entretanto, o notícia da BBC alonga-se explicando os problemas levantados pela ex-reforma to be, problemas de natureza essencialmente política, não obstante uma opinião pública aparentemente favorável à mudança da lei de sucessão.

A notícia aponta ainda as diversas soluções apresentadas pelos conservadores para resolver a crise de herdeiros e menciona a opinião do príncipe Tomohito o qual, provando que se pode ser príncipe e tonto ao mesmo tempo, advoga a reintrodução das concubinas.

Por curiosidade, mais do que por defeito profissional, fui dar uma vista de olhos pela constituição japonesa e, claro, o princípio da igualdade dos sexos lá está consagrado! Enfim, como já dizia o outro, há sempre uns que são mais iguais do que outros!

Tuesday, August 01, 2006

Atravessando o parque num final de tarde

Olhou o vento. Olhou para ele através de uma folha precocemente arrancada da árvore.

Viu-a rodopiar, elevar-se, cair, elevar-se de novo, Ainda não tinha as cores douradas das folhas do Outono. O vento diluía-lhe o verde, rasgava-lhe a pele ainda macia.

Num gesto instintivo afastou os cabelos da cara e franziu os olhos para os proteger da poeira.

Seguiu, com o olhar, a folha sem perceber se ela se entristecia por ter deixado a árvore ou se se deleitava na última dança à luz de ténues raios de sol amarelos-húmidos.

Regresso à normalidade


Chegou a altura de dar a contra-ordem!

Voltou o cinzento, voltou a chuva ... como certeza tenho que o frio também vai voltar (um dia, cedo demais!).

E eu que já estava habituada a Bruxelas tropical!