Saturday, September 30, 2006

Gestos

Quando fala, os dedos dançam ao som das palavras. Ao som da musicalidade feita frase.

Esticam-se, abrindo as mãos para libertar as ideias, enrolam-se quando os sentimentos são mais fortes do que o que se consegue dizer, entrelaçam-se quando as palavras se enternecem e se pronunciam num sorriso.

Apontam em palavras de curiosidade, sem a rigidez de uma acusação. Por vezes agitam-se de raiva ou escondem-se nos cabelos para fugir ao descontrolo.

Ondulam em sublinhados de uma história contada às crianças.

Saltitam em discretas gargalhadas humorísticas, arredondam-se em toques de ironia.

Sobem quando as palavras flutuam, alisam planos para que passem sem se desperceberem, empurram, juntas, para baixo dando peso às palavras.

Quando param, o tempo de acenderem um cigarro, os ouvidos ficam suspensos do que os dedos ainda têm para contar.

Friday, September 29, 2006

Conhecer as pessoas

Uma excelente maneira de conhecer as pessoas (ou de também conhecer as pessoas, porque ele há inúmeras maneiras de conhecer as pessoas!) é ajudar a abrir os caixotes aquando de uma mudança de casa.

As coisas que as pessoas guardam, meu Deus!

Thursday, September 28, 2006

Coisas da blogoesfera

Noite de concerto.
Cumprimentos de longe a uma amiga sentada na ponta oposta da fila.
Curiosidade da amiga sentada ao meu lado:
É quem?

Haviam de ver a cara de espanto da minha amiga!

Wednesday, September 27, 2006

Só quarta?

Ainda bem que há calendários e agendas e essas coisas que nos indicam com rigor o dia em que estamos.

Sim, porque se me fosse a fiar na minha intuição diria que era sexta!

Monday, September 25, 2006

À espera de mesa

O restaurante estava submerso num barulho indistinto feito de pratos e talheres, tilintar de copos, arrastar de cadeiras, passos de empregados avançando com os tabuleiros por entre pedidos de licença.

Três televisores, sintonizados em três diferentes canais, tentavam sobrepor-se ao som das palavras que, em várias línguas, se chocavam em brindes sorridentes, com ar de festa.

Sentado, solitário, a uma mesa, observava atentamente as pessoas que se atarefavam, em tarde soalheira, em degustativos prazeres, alheias ao peso da história deste local, outrora ponto de encontro da burguesia colonial. Permanece o tom bronzeado da pele, pensou, a unir épocas, a acentuar o pendor turístico, veraneante, como se a grande cidade ficasse longe, muito longe e guardasse para si as preocupações de viver em cada dia.

Sabia como era difícil pensar em trabalho quando o olhar se perde no mar à sombra de coqueiros, quando a pele se tisna com os raios de sol, quando a caneta e a máquina fotográfica se perdem em postais e pores-do-sol no Indico em vez de passarem ao papel os resultados da investigação.

Um cigarro numa boquilha prendeu-lhe a atenção. Esperava ver uns dedos esguios num olhar fatal, feitos de poesia e de álcool, perdidos no fumo diáfano… parecia ser mais fácil viver aqui os clichés dos romances dos tempos em que este mundo era um novo mundo feito de esperança e de promessas. Mas o fumo exalava de mão masculina, pulseiras de cabedal no pulso, anel dourado no dedo.

Colar étnico ao pescoço, camisa aberta, óculos de sol, espelhados, colocados na cabeça, cabelo cortado rente, barba por fazer, numa imagem de aventureiro moderno, com a sabedoria feita de juventude passada em caçadas e negócios, talvez marfim, imaginou, romanceado os seus pensamentos perdidos em solitária hora de almoço.

Quando o seu olhar se cruzou com o dela, que esperava lugar para almoçar, pediu a conta e saiu. Não lhe apetecia ser, por sua vez, personagem de um romance longínquo, feito de palavras perdidas que duram o tempo de uma espera. Estava sozinho, estava calado e o resto seria imaginação. Os óculos de aros escuros e a caneta pousada na mesa talvez lhe dessem um ar de jornalista fora do tempo, em busca de relatos de experiências idas.

Atentamente, ela viu-o afastar-se. Reparou que, antes de sair, olhou para o televisor que transmitia o jogo de rugby e trocou umas palavras com o empregado. Que acenou com um sorriso, olhando mais uma vez para a televisão.

Friday, September 22, 2006

Aprender Excel

Eu faço estas formações informáticas todas para ficar mais inteligente e para olhar para o computador com aquele olhar cúmplice de "tou a entender-te", piscadela de olho e mãos nos bolsos...

Aqui entre nós, não me parece que esteja a resultar imenso!

Thursday, September 21, 2006

Palavras

Por vezes, dou por mim a pensar nas expressões que usamos.
Descontextualizadas, ficam ora divertidas, ora estranhas, ora sem sentido.
Uma das minhas favoritas é "Essa é que é essa".
Até já tentei traduzi-la.
That is that one. That one is the one that is that one. That it is that.
Celle c'est celle. Celle est la celle.
Nada a fazer, não resulta na tradução. Essa é que é essa!

Wednesday, September 20, 2006

Lindo

Quando uns dedos esguios flutuam nervosa mas melodiosamente sobre as teclas de um piano e outros seguram com elegância o arco de um violino, o que acontece é um mundo em harmonia onde Mozart torna ainda mais incompreensível as guerras e as disputas.

Porque a arte de Maria João Pires e de Augustin Dumay é maior.

E eu estava lá, no Bozar, deixando que as notas das pautas me ocupassem no espírito o lugar das preocupações. E ocuparam.

Tuesday, September 19, 2006

O meu Moleskine e eu (4)

Diz-me o telejornal português que o Al Qaeda me declarou guerra! A mim e a todos os demais cristãos. Pelo menos disse claramente aquilo de que já todos desconfiávamos.

E lembrei-me de uma frase que vi, algures, e que dizia qualquer coisa como: não serei tolerante com a intolerância dos outros.

Sunday, September 17, 2006

O meu Moleskine e eu (3)

Esta do politicamente correcto é a forma politicamente correcta de os medrosos viverem de cócoras gritando para o mundo que estão de pé, nos bicos, mesmo e ai de quem se atrever a dizer que o rei vai nu.

Friday, September 15, 2006

É que não posso (9)

Desconfio daquelas pessoas que têm uma opinião sobre tudo, sabem de tudo e de tudo falam com certeza e pompa.

É que sei de quem tenha, com garra, sem dúvidas, nem sombra de hesitação, distinguido a NATO da OTAN.

É que não há pachorra.

Wednesday, September 13, 2006

Nada de novo na frente europeia

Começo a entrar em velocidade de cruzeiro: cumpro as minha rotinas diárias, de antes, de agora, de amanhã decerto.
Mudei algumas coisas! Porque todos sabem que é preciso mudar algumas coisas para que tudo fique na mesma.
E, como de costume, tomo café, blogueio por aí e mergulho nos meus dossiers europeus. Para começar o dia.

Sunday, September 10, 2006

Tatá

Voltei, mas ainda não completamente!
só me apetece gozar as recordações das vivências...

E vou ter que me pôr em dia.
E vou ter que me habituar ao cinzento de Bruxelas!
E não quero!
Não quero mesmo.