Tuesday, October 31, 2006

Ele há coisas!

Estava para aqui a remoer no que haveria de escrever, tinha até pensado em adiar a coisa por um par de horas e eis senão quando recebo um mail amigo a reclamar: "Buáa, ainda não escreveste nada; e eu que contava contigo para sentir o sol a entrar na minha janela!"

O que dizer?

Oscilo entre deixar escapar um sorriso de vaidade (deixei, admita-se, mas ninguém viu!) ou em achar que o cinzento fez mais uma vítima.

Pelo sim pelo não, publico e agora telefono-lhe a dizer que este é o raio de sol possível nesta cinzenta cidade cinzenta!

Monday, October 30, 2006

O Diabo veste-se de Prada!

Depois de um par de horas bem passado, com um sorriso nos lábios, a ver este filme delicioso com a fabulosa Meryl Streep, convenci-me da minha natureza angelical: quilos a mais e marcas a menos...

A dada altura referem uma dieta radical: nada de comida. Quando se sentir quase a desmaiar come-se um quadradinho de queijo! Gostei, francamente, da segunda parte da dieta. E como não sou pessoa dada a radicalismos, sou capaz de começar esta dieta precisamente pela segunda parte: pelo quadradinho de queijo! Passarei para a primeira assim que me sentir em condições para a levar a cabo com êxito...

Mas se não recomendo a dieta, recomendo o filme. Depois digam o que acharam.

Friday, October 27, 2006

Exercício

"Às dez da noite, quando a casa já estava mergulhada em penumbra e silêncio, passou ao escritório e sentou-se à escrivaninha para escrever a sua primeira carta de exilado. Para o João.

S. Tomé e Príncipe, 22 de Março de 1906, 10.00 p.m.

Caríssimo João,

Cheguei (hoje), pouco vi e nada venci – antes pelo contrário. Não sei se sou eu que vencerei as ilhas ou elas que me vencerão a mim. Sei que tenho a estranha sensação de ter passado uma eternidade desde que saí de Lisboa, uma eternidade desde que hoje, de manhã, desembarquei aqui, em S. Tomé." O Equador, Miguel Sousa Tavares.

Plágio

Era meio-dia. A casa estava mergulhada em penumbra e silêncio numa tentativa vã de impedir que o calor entrasse. Sentou-se na grande secretária do avô e escreveu a sua primeira carta de exilada. Para a Joana

Goa, 12 de Dezembro de 1955

Querida Joana

Cheguei, há pouco, e o cansaço não permitiu que registasse grande coisa do caminho. Não sei se serei capaz de cumprir a tarefa de que me incumbi, ou se será ela que me cumprirá, a mim. Tenho a estranha sensação de ter passado séculos nesta longa viagem, desde Lisboa até este longínquo ponto do Império, cruzando mares até chegar aqui.

Inspiração

Olhou para as malas, depositadas no chão do imenso quarto que seria o seu enquanto estivesse aqui, enquanto cumprisse o destino que se impunha a si, (ou seria ela que se impunha ao destino?).

O cansaço envolvia-a em pesada lentidão, nem sequer conseguia distinguir o sonho, o desejo, da realidade que vira desde que, no cais, desembarcara do aventuroso navio que, cruzando oceanos, lhe ligara dois pontos de Portugal, de Lisboa a Goa, onde encontrara novas cores, novos cheiros. E calor! Foi a primeira sensação, quase palpável, foi esse calor húmido que se agarrou à pele, que a puxou para esta terra que escolheu.

Tinha que escrever à Joana. Dizer-lhe que nem sequer sabia se tinha sido ela a escolher. Talvez tivesse sido uma fuga! A Joana saberia. E o que não sabia pressentia. À Joana contaria tudo e então talvez o sonho se demarcasse da realidade e talvez conseguisse ver com mais clareza a enormidade da tarefa que lhe cumpriria viver.

Thursday, October 26, 2006

Em contraluz

O corpo, esguio, estica-se em deleite de som, arredonda-se em dor de fado, compassa-se em ritmo de música.

Vem da alma, é uma voz com alma, que sente o que diz, que diz o que sente.

E a nós, mais do que os fados que conhecemos dos discos, chega o corpo e o gesto, o sorriso, o olhar, a ternura, a entrega.

Deixamos de ser nós e ela, nós, ela e os músicos, para passarmos a ser um só, unidos nos acordes únicos da guitarra portuguesa.

No final, as palmas eram uma só: as nossas, as dos músicos e as da Mariza.

Wednesday, October 25, 2006

Para que se saiba

Li, li o Equador. E gostei.
E se o MST escrever outro livro comprá-lo-ei.
Tenho dito.
Tenham um santo dia.

Tuesday, October 24, 2006

Compromisso

Chove e faz sol ao mesmo tempo!
Não há dúvida, Bruxelas é a cidade dos compromissos.
Para agradar a gregos e a troianos...

Monday, October 23, 2006

Protesto

O tipo que inventou o horário de trabalho, só podia ser um gajo chato, sem imaginação e com pouquíssimos prazeres na vida!

Livros a metro

A menos que o novo livro de José Rodrigues dos Santos tenha a continuação do episódio "sexo e sopa de peixe", recordem-me que não vale a pena lê-lo...

Nem sei se ria se chore...

Adorei ouvir o telefone a tocar enquanto o Professor Marcelo falava.
Adorei ouvir a alegria de mais um golo, enquanto o Professor Marcelo falava!

Friday, October 20, 2006

Parvos

E está o mundo entregue a gente desta!

Thursday, October 19, 2006

Pura inconsciência?

Sou boa pessoa!
Sou!
E se me pedem favores, faço.
Da melhor forma que posso e sei.
Agora, baby sitter de plantas a longo prazo, cara E.*, é brincar com o destino e correr sérios riscos.
Eu esforço-me, mas as plantas odeiam-me...

*Uma já tem uma folha de três cores: verde, amarela e castanha. É normal? (E outra folha que já morreu e caiu e isso até eu sei ver que ela morreu, a folha, ainda não a planta...)

Fraquezas

Há dias que ando com vontade de comer pizza!
E esta história de combater a tentação faz com que ela, a tentação claro, esteja aqui de pedra e cal.
O meu dilema é, portanto, ou como uma pizza ou fico a pensar que me apetece comer uma pizza...
Garanto-vos que não há terceira via!

Wednesday, October 18, 2006

Faz-de-conta

Brincar ao faz-de-conta é brincadeirinha de criança. Que cresce com aqueles que, se calhar, não querem crescer.

E ficam a fazer de faz-de-conta no que criam: nos livros que escrevem, nas peças de teatro que montam, nos quadros que pintam em ilusão de cores, nas músicas que compõem.

Os meus faz-de-conta estão presos a mim, traduzem os meus valores e princípios, jogam com os meus sonhos, talvez se assustem com os meus medos.

Por muito que não queira, os fios estão lá a dar vidas às minhas marionetas faz de conta.

Espanto-me sempre quando, olhando para os faz-de-conta de outros, não vislumbro os fios, os arames.

Serão faz-de-conta vivos?

E agora estou a ler um livro em que o autor, nado após a segunda guerra mundial, faz de conta que é um oficial das SS, faz de conta que viveu a invasão da Rússia, faz de conta que participou na máquina infernal de extermínio de grupos de seres humanos, faz de conta que escreve agora o seu diário…

É um faz-de-conta pesado, doloroso. Que tira o sono. Porque houve quem fizesse esta história sem ser de faz-de-conta.

Monday, October 16, 2006

Contrastes

O contorno da cidade esfumava-se em linhas indecisas, em cores sóbrias e mortiças, em movimentos fluidos e quase irreais.

A neblina que pairava sobre o lago do jardim permitia todas as ilusões, imaginava que as lendas se materializavam nesse desenho irregular e instável de um mundo flutuante.

Puxou o gorro a cobrir as orelhas e sentiu-se melancólico. Porque sempre se sentia calmamente melancólico em dias de nevoeiro. O mundo indefinido que o olhava parecia-lhe mais terno, mais envolvente, mais silencioso.

Encostou-se a um pequeno pedestal, erguido pelos homens para que a memória não esmorecesse. E nem pensou que nunca tinha tido curiosidade de saber que memórias eram essas, que não temia esquecer porque só o que se sabe se olvida.

No pequeno arbusto que a humidade embrulhara em delicado orvalho um frémito de asas coloridas prendeu-lhe o olhar. Indecisas, elas também, quanto ao rumo a dar ao seu vôo. Em ligeiros estremecimentos que inundavam de cor o mundo em redor, pálido e embranquecido, percorriam o arbusto como se o reconhecessem. Ou como se não o reconhecessem, de todo, como se fosse a primeira vez que voavam por estes espaços, espantadas talvez com a calma que se instalara na cidade.

Quando se ajoelhou para a observar de mais perto, a borboleta afastou-se, sempre diáfana, em bailado de cores irreais num filme a preto e branco.

Grandes portugueses

Tanta vacuidade e incorrecções!
É certo que o assunto anda nas bocas do mundo e que um comentador que se preza tem que o abordar.
Agora, ir dizer na RTP coisas que contradizem o que a própria RTP diz no seu website, e nem sequer a apresentadora lhe chama a atenção para o erro, é obra.
Está claramente indicado que se vota em quem se quiser!
Pronto, Prof. Marcelo, pode votar no grande português anónimo mas que fez milagres lá em Celorico de Basto.
É que nem mesmo um comentador famoso tem obrigação de falar de tudo mesmo daquilo que não sabe...

Sunday, October 15, 2006

Tudo bem

Em noite de festa, copo na mão, dedos que ritmicamente deslizam até aos amendoíns, música de fundo que ninguém ouve, apresentações e sorrisos de reconhecimento, trocam-se palavras de ocasião ou de reencontro, discutem-se faits divers ou as mais recentes polémicas mundiais.

Tudo muito internacional, porque as nacionalidades divergem e os acontecimentos nacionais, ou que tocam de mais perto cada um de nós, são demasiado regionais, locais, para serem apercebidos por diferentes línguas que se cruzam em terrenos comuns, europeus ou americanos, mais Iraque menos Iraque.

Conhecimentos mais longos permitem tocar em vivências comuns, pessoais, cúmplices até. Porque o desenraizamento aproxima e solidariza.

Pronto, diz, compreensiva, uma amiga. Está tudo controlado e aceite, não é verdade?

Não, penso eu, há coisas que nunca se aceitam. Aprende-se é a viver com elas.

Mas esta frase não cola com o vinho tinto que o anfitrião espanhol distribui, nem com a simpatia polaca da dona da casa, pelo que sorrio e respondo, claro, tudo bem!

Despedidas

Bruxelas é verdadeiramente uma placa giratória de pessoas que chegam e que partem.
Ontem, foi mais uma despedida.
E lembro-me tão bem da festa de boas-vindas!
Também então a casa estava meio acampamento, com coisas que ainda não tinham chegado. Ontem era com coisas que já tinham partido...
Estive quase a escrever que uma pessoa se vai habituando a isto! Mas não é verdade; nunca nos habituamos a certas coisas.
Vivemos com elas porque tem que ser.

Friday, October 13, 2006

Sem tempo

O sono baila-me nos olhos e entorpece-me os dedos!
Gostava de encostar a cabeça e repousar. Perder-me em sonhos embalados em histórias onde o encantamento é possível.
Mas já não é.
Agora são sonos apressados, sem tempo para sonhos, porque a vida se faz urgente.
Essa vida que persiste em deslizar pelo tempo sem esperar que tenhamos tempo para a viver. Que se perde em horas ensonadas porque não há tempo para o sono, porque não há tempo para o sonho.

Wednesday, October 11, 2006

É que não posso (10)

Aqueles condutores que não conhecem as regras de prioridade enervam-me.

Não obstante virem da direita, ficam ali, hesitantes, e deixam passar um e depois outro e depois avançam uns milímetros e depois travam de novo porque ao longe se avista mais um e ainda se espantam quando levam uma valente buzinadela do condutor que tem a infelicidade de estar atrás deles…

Ainda por cima não percebi se não sabem mesmo as regras do código da estrada ou se, assim de repente, não sabem qual é a direita nem a esquerda e, por via das dúvidas, que passem todos, passem, passem!

Ora eu acho que estes condutores deviam, pelo menos às horas de ponta, ser proibidos de circular…

Tuesday, October 10, 2006

Ler

Alguém se lembra do Plano Nacional de Leitura?
Não sei se alguma criança guardará uma imagem forte que lhe tenha sido transmitida pelo tal Plano.
No nosso planinho caseiro, eu lembro-me das idas ao sábado, a uma livraria na Avenida de Roma (já não existe, pois não?), comprar um livro da Anita.
Um para mim, outro para a minha mana e depois trocávamos.
Claro que no domingo já suspirávamos pelo sábado seguinte.
Antes houve outros livros: em bébé, tive livros de pano, depois cadernos para pintar, mas aqueles de que me lembro e que me lançaram neste mundo da leitura foram os da Anita.

Monday, October 09, 2006

O meu Moleskine e eu (5)

Eleições locais na Bélgica.
Avanço da extrema direita.
Democraticamente, os eleitores votam em fundamentalistas, intolerantes, gente para quem os outros são o sinónimo do mal e do crime.
Os outros são os estrangeiros.
E eu, nesta capital da Europa, sou estrangeira.
Ainda que sem sinais exteriores de "estrangeiridade".
Mas sou.
Há que pensar.

Friday, October 06, 2006

Ao serão

As poucas pessoas na rua encolhiam-se debaixo do guarda-chuva.

O vento, frio, recordava que o Outono estava instalado.

Na esquina, profusamente iluminada, a gelataria abria-se, convidativa, em desafio às estações do ano.

Entrou.

Sentou-se.

Tirou a gabardina.

Esfregou as mãos para afastar o frio e a humidade.

Olhou, gulosamente, para o menu e optou por um crepe com gelado de baunilha e Sabayone.

Espreitou pelos vidros mas a escuridão exterior devolveu-lhe a sua imagem.

Como se a cidade tivesse desaparecido.

Thursday, October 05, 2006

Feriado

Será que os belgas alguma vez pensaram que se deitassem o rei abaixo teriam um feriado?

Wednesday, October 04, 2006

Coisas de mim

A curiosidade, desta vez, vem da Nancy! Quer ela saber seis coisas que não deveria saber sobre mim.
Que coisa complicada!
É que há coisas que nem eu deveria saber sobre mim. Outras que nem eu admito que sei sobre mim...

Mas e simplificando, aqui vão seis coisas para ficarem a saber um pouco mais de mim:

1 - Gosto de fotografar pequenos detalhes, pormenores insignificantes, partes de um todo.
2 - Tenho a mania das colecções. Desde pequenina.
3 - Ter as mãos paradas é, para mim, um suplício. Aliás, excepto quando estou a ler, estar parada é muito contra a minha natureza.
4 - Planos, não vivo sem planos, projectos, linhas directrizes.
5 - Destesto, mas oh! como destesto, esperar! E como acho que o mesmo acontece aos outros sou pontual, muito pontual!
6 - E, por fim, às vezes contradigo tudo o que disse antes, porque sou gémeos e não há nada a fazer. A contradicção vive mesmo em mim!

A quem passo isto?

Mantenho-me geograficamente por aqui e peço à Sofia e à Carlota que digam o que lhes vai na alma.

Tuesday, October 03, 2006

Coisas inexplicáveis

Como é que consegui ignorar tanto tempo o fabuloso livro de Harper Lee "Por favor não matem a cotovia"?