Saturday, April 28, 2007

Explicando-me

Carlota

Tu, que me conheces de mundos mais reais, sabes bem da minha falta de pachorra para aturar pessoas que vêem o mundo a preto e branco, bons de um lado, maus de outro, como se tudo na vida se pudesse separar em duas metades claramente destrinçadas, cortadas por uma espada de fogo, sem hipóteses de contactos, ou deverei dizer de contágios?

Sabes também que não me entendo com quem não percebe ironia, sobretudo quando ela é por demais evidente.

Serão defeitos meus, é certo, mas parafraseando uma boa amiga (também da vida real e sem moradas bloguísticas), já não tenho idade, nem estatuto social para mudar (atenção mundo e arredores, esta última frase é irónica!)

É que, francamente, achar alguém, que me conheça minimamente, ainda que só blogoesfericamente falando, que eu quero o regresso da URSS é mau demais! Tão mau, que nem sei por onde começar!

Se por dizer que estou consciente dos mortos estalinistas, assim como estou dos maoístas, dos nazis, e de todos os demais ditadores, incluindo Salazar que na sua pequena dimensão, também tem culpas no cartório.

Se por dizer que sei bem a história dos dissabores históricos europeus, o que não impede que se veja hoje na Europa um sistema de avançada protecção dos direitos humanos.

Se por dizer que pecados passados nunca impediram conversão nenhuma, assim nos ensinou Jesus Cristo, e que o mau não tem necessariamente que morrer mau e o bom bom. E sim, também sei o que foi a Inquisição, caso esta minha referência a Jesus Cristo aflija certos espíritos.

Se por dizer que o poder corrompe e que o poder absoluto corrompe absolutamente.

Talvez diga que o desabafo meu em comentário a este teu interessante post só significa que o mundo precisa sempre de pesos e de contrapesos para que a balança se mantenha equilibrada. Era também um lamento, muito profundamente sentido, pela Europa em que acredito (acredito mesmo!) ainda não ter conseguido ser o tal contrapeso que a URSS foi noutros tempos (para nosso mal, é certo).

Dizer que Guantanamo é um horror, não é dizer que os EUA são o demónio em forma de país! Dizer que os EUA têm, neste momento, ou tiveram até recentemente leis arrepiantes (como o Patriotic Act que parcialmente caducou em 2005) não é o mesmo que dizer que nada de bom sopra dos EUA.

É só dizer que se é contra certas coisas: até porque o mundo dá voltas danadas e quem sabe amanhã, num infeliz cruzamento de dados (quiçá mesmo o teu post, Carlota!), não caímos em malhas infernais numa qualquer visita à nossa agente especial!

Eu prefiro que a lei me proteja não deixando que, sem mandados legais, me espreitem o meu computador, me investiguem as contas bancárias, me prendam preventivamente por tempo indeterminado, disparem primeiro e perguntem depois … seja nos EUA, seja no Reino Unido, seja onde for.

E não obstante ser cidadã de um país que expulsou mouros, perseguiu judeus, escravizou negros, torturou muitos, matou outros e contribuiu para a extinção dos Dodos, não me sinto coibida de lutar pelos direitos humanos e de exigir que eles sejam respeitados, em todo o lado, até nos EUA e não é o facto de o não serem em tanto lado, se calhar em todo o lado, que me desanima!

Posto isto, e caso não tenha ficado claro, não quero que volte a URSS!

Friday, April 27, 2007

Thinking Blogger Award

A Papalagui foi uma querida ao distinguir-me com este galardão.

Que eu agradeço, reconhecida, porque é sempre bom quando se lembram de nós (que bela maneira de começar o fim-de-semana!).

Parece que me compete agora nomear 5 blogues. Não uns quaisquer, mas blogues que me fazem pensar, aprender coisas novas, ver o mundo com outras cores.

Ora aqui vão as minhas escolhas:

Permito-me salientar mais um que, dados os laços de família, não achei correcto mencionar na lista dos cinco: Na Senda das Beiras.

Muitos mais há na minha coluna dos favoritos. Hoje apeteceu-me salientar estes.

Felizmente é sexta-feira

Esta de estarmos enfiados dentro de um gabinete todo o santo dia e de irmos a correr para gozar o sol quando ele já está de partida para uma merecida noite de repouso não é ideal!

Ao menos amanhã posso esticar-me na chaise longue, na varanda, café frappé ao lado, livro na mão e télélé no bolso, não vá alguém desafiar-me para um gin tónico (e essas coisas não se recusam!)...

Tenham um excelente fim-de-semana.

Thursday, April 26, 2007

Provado, mais do que provado!

A melhor parte de uma aula de ginástica, daquelas em que se transpira o suor que se tem e o que nem sabia que se tinha, daquelas em que achamos que nunca mais vamos ter o coração calmo e os músculos sem doer, é o duche!

Abençoada água!

Wednesday, April 25, 2007

Foi assim

"Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas.
As Forças Armadas portuguesas apelam a todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma."

Foi assim há 33 anos.

Em Lisboa.

Hoje, em Bruxelas, continuo a não encontrar cravos vermelhos. Saíram de moda parece, como se as flores tivessem modas!

Resta a fotografia dos cravos vermelhos colada na porta do meu gabinete e as memórias deste dia, há 33 anos.

Tuesday, April 24, 2007

Traço de união

Neste espaço multicultural e multilinguístico são poucas as coisas que verdadeiramente possam ser consideradas fios invisíveis que nos cosem nesta forma que temos, próxima da forma de outros, diferente de outras formas, cosidas com outros fios invisíveis.

Dizem-me que é a cultura! A cultura feita linha, passada por esse buraco que é a agulha da vida.

A cultura feita língua, feita história, feita memória.

A cultura feita Eusébio.

Monday, April 23, 2007

Dúvida

Será que tenho tempo a menos ou livros a mais?

Thursday, April 19, 2007

Carta

Aceitou a carta.

Estava ali para isso, aliás. Tinham-lhe dito que estivesse ali às 22h, em ponto, sem falta, acrescentaram mesmo. Que passaria um carro. Cinzento. Como se de noite, àquela hora, não fossem todos os carros cinzentos! Dar-lhe-iam qualquer coisa que deveria trazer discretamente, assim como quem não quer a coisa pensara, porque achava esta expressão gira, o querer tanto que se finge não se querer nada, mas era necessário ouvir as instruções, nada poderia falhar, tinham sublinhado, Ouviu bem? Nada pode falhar! Seria grave, de consequências imponderáveis. Às 22h precisas, repetiram.

Quando saiu de casa, fechou cuidadosamente a porta atrás de si, sente que deve salientar que fechou cuidadosamente a porta porque é importante mostrar que é pessoa meticulosa, que fecha cuidadosamente a porta, com o mesmo cuidado e atenção com que receberá algo, a tal carta já sabemos nós, mas ela, no momento em que fecha a porta cuidadosamente ainda não sabe que é uma carta que irá receber às 22h.

Observou a rua, alguns passantes a regressar a casa, dois carros que circulavam em sentido contrário ao seu e as árvores que se agitavam em tremor de Outono. Puxou a gola e ajeitou a écharpe. Achou que era a reacção adequada à agitação das folhas, ao murchar das flores. Olhou para o relógio e confirmou que dispunha do tempo suficiente para estar no local combinado às 22h.

Não era conveniente chegar demasiado antes. Daria a impressão que nada tinha para fazer ou que se comprazia em demasia com esta combinação. Talvez até pensassem que encarava a tarefa como se fosse um jogo. Lembram-se que, ao sair de casa, ela puxou a gola para cima? Reparem que não se disse que sentira frio. Nem sequer que tinha sentido um arrepio na costas como aqueles que se sentem quando o medo nos acompanha os movimentos! E se fosse um gesto premeditado de quem acha que está a brincar aos espiões? Não sabemos, convenhamos, se é de uma gabardina a gola que se levanta. Seria demasiado óbvio que a vestíssemos com uma gabardina e a fizéssemos sair de casa para uma rua quase deserta onde o vento agita as folhas das árvores.

Não faremos tal. E assim não saberemos se ela acha que tudo isto é um jogo! Sabemos contudo que ela não quer que se pense assim.

Continuemos, portanto, a levar tudo a sério, até para não atrasar a nossa heroína que saiu de casa conscientemente a horas para ser pontual. Nem se compreenderia que o narrador interferisse de modo tão inoportuno, tão claramente boicotando a trama da história. Aliás, nem vale a pena deixar o narrador ir por aqui porque já sabemos que ela aceitou a carta. Está dito logo no princípio. Assim se começou a história. Conveniente seria que o narrador estivesse atento e não se deixasse levar por ilusões de poderes de criação que, já vimos, não possui.

Ela caminha de gola levantada e chegará a horas. Talvez uns dois minutos antes. Para ter a certeza que vê chegar o carro cinzento. Não um qualquer carro cinzento, mas aquele carro cinzento que passará às 22h para lhe entregar uma carta.

Quando chegou, faltavam dois minutos para as 22h. Tal como havíamos previsto! Não se vislumbrava qualquer carro na rua, além de um vermelho estacionado na esquina. Tivera o cuidado de verificar que era vermelho, não obstante o tom pardo próprio dos carros às 21h58. De qualquer maneira o carro estava parado e aquele que ela esperava, e que a esperava a ela, chegaria às 22h em ponto.

Avancemos esta história. Porque, de facto, não há história nos dois minutos que nos separam das 22h. Ela esperou. Às 22 h, precisas, chegou um carro cinzento que lhe entregou uma carta.

Que ela aceitou.

Wednesday, April 18, 2007

Mais um livro

Eu já falei da Orfeu, a livraria portuguesa aqui do Burgo.

Ontem lá fui de novo para o lançamento do livro de José Rui Cunha "E o chão aqui tão perto" que foi apresentado por uma professora de português da Escola Europeia, Maria Manuel Gandra.

Admito que franzi o sobrolho quando vi Maria Manuel Gandra puxar de papéis para ler a sua apresentação. Não gosto de ouvir ler, o que querem?!

Mas vou ter que dar a mão à palmatória! E dou, de bom grado.

Porque foi um texto belíssimo, que me fez ir a correr comprar (e ler!) o livro de José Rui Cunha, na ânsia de aí encontrar o prazer com que li "Um homem sorri à morte com meia cara" de Rodrigues Miguéis.

As perguntas da audiência foram pertinentes, sobretudo uma que levantou a questão de Deus e do divino.

Estou a adiantar-me, eu sei! Mas eu explico.

José Rui Cunha conta-nos a sua difícil experiência pessoal em vencer a doença, em agarrar-se à vida. Conta-nos que por várias vezes esteve nesse limiar sem forma e sem tempo entre a vida e a morte.

Daí a pergunta do divino.

Que eu achei interessante.

Afinal falo


Ou estamos todos a criar habituação a estes fenómenos made in USA e a dar-lhes a importância que damos aos fenómenos do Entroncamento, na mesa do café, sem alcance nem profundidade, ou estamos anestesiados de horror a desejar, secretamente, que a loucura não passe fronteiras e que os jovens europeus deseperados peguem na caneta e despejem no papel poemas de solidão e de amor perdido, como de tradição, ou procurem em ONG o caminho para salvarem o mundo.

Tudo e qualquer coisa a usarem uma arma contra jovens que ficam por viver.

Deveríamos ter condenado a acção, manifestado o repúdio, lamentado os mortos, dissecado os motivos do acto, analisado as prováveis consequências nesta busca cega e mal orientada pela segurança, só segurança e nada mais do que segurança.

Não o fiz porque não tenho palavras para o fazer, não tenho alma para perceber o enorme desepero de alguém que mata e se mata!

Não o fiz! Penitencio-me.

Tuesday, April 17, 2007

Vozes de Malaca

Entre 1511 e 1641, Malaca, na Malásia, fez parte do Império português.

Ainda hoje em Malaca, uma pequena comunidade malaia, orgulhosa das suas distantes origens lusas, fala Cristão (ou Kristang), um crioulo de português que permite, se falado devagar, que nos entendamos.

Uma amiga, sabendo deste meu interesse pelo rasto que fomos deixando pelo mundo, mandou-me este link: http://www.malaccavoices.com/

Se passarem pela livraria Ferin, onde o livro se encontra à venda em Portugal, folheiem-no e digam-me que tal.

Monday, April 16, 2007

Mudam-se os tempos

Já há tulipas nos jardins da cidade.

Friday, April 13, 2007

Resposta a provocações

É certo, não gosto de sandálias!

Mas ainda que gostasse, e por uma questão de princípio, nunca as usaria em Abril em Bruxelas.

Porque não!

E questões de princípio não se discutem!

Thursday, April 12, 2007

Por vezes há que dizer bem

Fiquei admirada pela qualidade dos entrevistadores ontem, durante a conversa com o nosso primeiro!

Estou tão habituada a irritar-me com o ar arrogante e petulante de alguns jornalistas, que, confesso, estava preparada para o mesmo, até para desligar a TV ao fim de alguns minutos.

Ora tal não aconteceu!

Tiro o meu chapéu e faço uma vénia à Maria Flor Pedroso que mal conhecia (só do Prof. Marcelo, que, como se sabe, não deixa ninguém falar!) e de quem fico fã!

Houvesse mais jornalistas assim e até eu via a RTPi.

Wednesday, April 11, 2007

Visita

Esperaram que o museu abrisse.

Montes de pessoas esperavam, horas a fio, irrequietas ou cansadas, mas decididas a ostentarem aquele museu na lista das coisas visitadas.

Os vendedores ambulantes sabiam que as presas eram fáceis: quanto mais não fosse para quebrar o tédio, dava-se uma olhada e cedia-se a mais uma bugiganga, mais uma lembrança, algo que concretamente provava que ali tinham estado.

Quando finalmente entraram, desagradou-lhes o espírito de supermercado que os rodeou: havia pressa de riscar mais um item nessa lista de compras das coisas a ver durante as férias.

Mas, como passar por ali sem se descobrir na sua enorme pequenez perante a genialidade assim oferecida aos olhos que olham sem observar? Como não parar perante as pregas no mármore, feito carne, feito vida, como não se extasiar perante o dedo que se estica, que se oferece para nos tocar, de tinta feito, pleno de energia?

Há um barulho permanente, feito de vozes e de guias turísticos que se manuseiam. Feito de passos apressados e de desinteresse de crianças.

E, contudo, tamanha beleza apela ao silêncio. Porque só nos espantamos mudamente. Sem palavras.

Porque nem sequer as há para descrever a admiração.

Talvez as lágrimas a possam descrever.

Quando a beleza é extrema, limitemo-nos a senti-la, a deixá-la entrar em nós.

Para contá-la só as palavras dos poetas.

A mole humana circulava com ar de dever cumprido, a programar já o próximo monumento, gula turística sem limites. A fotografar sem respeito pelo interdito, porque só assim sabe olhar.

Nós ficamos a um canto, sentados, a tentar ouvir o chamamento das obras-primas, a gravar na alma a sua magnificência.

E a achar que, em certas alturas, o inferno são, de facto, os outros.

Tuesday, April 10, 2007

Irritação

Juro que já estive mais longe de atirar esta droga deste computador para o chão e de lhe saltar em cima com os dois pés juntos!

Monday, April 09, 2007

De volta

Ao ritmo normal da vida.

A desejar que o ritmo normal da vida fosse outro!

Wednesday, April 04, 2007

Amêndoas

Desejo-vos uma santa Páscoa.

Vou dar uma volta por aí pelo que não virei até aqui!

Amêndoas, contudo, não creio que as vá comer. Se alguém fizer o favor de comer uma por mim, eu agradeço.

Tuesday, April 03, 2007

Invenções

Por vezes pousava o livro e deixava que os pensamentos galgassem, desordenados, a barreira do real e do razoável.

E imaginava-se noutra dimensão, onde os desejos mais arrebatadores eram possíveis, onde aquilo que ambicionava se tornava um quotidiano sem dificuldades nem obstáculos.

Deixava-se deslizar para esse mundo, para onde só transportava aqueles a quem queria bem e aqueles que nem sonhavam que ele lhes queria bem.

Sabia que, nesse outro espaço, ele era um manipulador dos factos que criava como se existissem, adaptando a história em função das suas conveniências, ora herói de corajosos actos, ora vítima de profundas incompreensões.

Acima de tudo transformava-se em personagem que ambicionava ser neste lado real do mundo, porque tudo era mais fácil: as réplicas saíam-lhe perfeitas, os gestos sem hesitações.

Era com dificuldade que voltava à sua realidade, à sua tão completa normalidade, aos seus contornos diluídos.

Restava-lhe a vitória de saber que na outra fase da sua existência os que o rodeavam tinham uma vivência que eles nem imaginavam.

Arrogância

Cada vez me convenço mais que nada, nem ninguém, se prepara para as situações em que algo corre mal.
Ontem, perdi o dia todo para fazer uma viagem Lisboa - Bruxelas, porque o avião teve um problema técnico.
Claro que isto provocou a maior das confusões no aeroporto, com a Portway a gerir muito mal a situação, não obstante a carta dos direitos dos passageiros que, a pedido, distribuiram.
Quando digo mal gerida, não falo apenas na procura de soluções para encaminhar os passageiros, mas e sobretudo, no miserável exercício de relações humanas!
Ora, dado que problemas técnicos podem sempre acontecer, penso que o mais fácil seria fazer simulações para os "worst case scenarios" para que os funcionários responsáveis soubessem como reagir nessas situações.
Mais do que acreditar na natural incompetência das pessoas, temo que o verdadeiro problema esteja na arrogância desta nossa sociedade, evoluída e avançada, onde não se admite que algo possa correr mal!
Mas, quanto mais não seja pela regra do limite da resistência dos materiais, há vidros de cockpits que racham...
Agora vão perdoar-me esta saída rápida mas tenho que ir redigir a reclamação para a Brussels Airlines que eu não sou do tipo de consumidor de ficar calado!