Wednesday, October 31, 2007

Pelo sim, pelo não

Mesmo que não nos importemos de nadar longe da costa, umas bóias no caminho, de vez em quando, fazem-nos sentir mais seguros.

As páginas dos livros

Sabia que andava por aí e várias vezes me perguntei quando cá chegaria!

Foi agora
, pela mão da Leonor Barros.

Tenho que agarrar no livro que estou a ler, ir à página 161, quinta linha.
E depois, continuar esta corrente.

Ora bem, o livro que estou a ler, clube de leitura oblige, está em casa.

Aqui, no escritório, nesta pausa para café e blogue, tenho um guia, Le guide du routard, Roumanie, Bulgarie.

Países que visitarei em breve, em obrigação de trabalho.

Na página 161, na quinta linha, deparo-me com duas colunas de texto, sobre o Spirit Café, que fica em Timisoara, na Roménia. Não passarei por lá dado que os meus passos apenas cruzarão, pelo menos por agora, as ruas de Bucareste!

Mas fico a saber que é na Str. Mercy, que está aberto 24h/24 e que tem "Un décor feutré avec une musique qui l'est moins. Les murs sont ornés de nombreuses gravures représentant la Roumanie: à contempler en buvant un des nombreaux cafés ou cocktails proposés".

Diz-me Leonor, irias tu a este café com esta descrição?

E que tal, "O suave ambiente é completado pela pouco suave música. Completado e contrastado. Como a própria Roménia, que se espraia na paredes, em gravuras que se contemplam com cheiro de café ou ao sabor colorido de diversos cocktails".

Talvez assim fizesse um desvio até Timisoara.

Assim sendo, o espírito do Spirit Café deixará o meu espírito sem traços nem pegadas.

O que dizem as páginas 161 dos livros que estão a ler agora, Madalena, Mãe, Pessoana e Nokas?

Monday, October 29, 2007

A poesia dos números

É verdade que nunca gostei de números.
Não me diziam nada. Não me preenchiam a cabeça de histórias. Não me davam corda à imaginação.
Eram frios e vazios.
Duros.
E assim fui crescendo, de costas voltadas para os números, a brincar com as palavras, a dobrá-las, a colá-las, a colori-las.
Os números eram os meus monstros, que enchiam a minha cabeça de escuro (não gosto do escuro, medo de criança que nunca perdi).
Um dia alguém me falou da poesia dos números.
E eu, não sei porquê, lembrei-me da Maria Alberta Menéres e de "O Poeta Faz-se aos 10 Anos".
Se aos 10 anos me tivessem falado da poesia dos números, talvez eles fossem hoje para mim contas de um poema.
Somaria algarismo a algarismo até fazer um arco-íris.
Subtrairia uns zeros, redondos como lágrimas, para que o número sorrisse.
Multiplicaria 1, por 1, por 1 até sempre! Até, num passe de mágica, enganar a aritmética e atingir o infinito.
Dividiria todos os números contigo.
E faria um poema, que cantaria com a música da tabuada, que tão bem se adapta aos números, 2x1=2, 2x2=4, 2x3=6 e assim por diante até ao canto nono.
Quem sabe não encontraria uma ilha dos amores em fórmulas matemáticas!

Apesar da chuva

Começar a semana com chuva e frio não é a melhor maneira de começar semana alguma!
Ainda que esta seja curta.
Seja.
A noite há-de chegar.

Sunday, October 28, 2007

Incompreensão

A encomenda foi feita assim que passou por aqui.

Lançado no dia 25 deste mês, fiquei a aguardar ansiosamente o momento de poder ler o novo livro de Miguel Sousa Tavares.

Hoje, pela mão do João Gonçalves, acedi a esta entrevista.

Respirei fundo.

Enfim, podemos gostar do escritor sem gostar do homem, não podemos? Se não, mal estava o José Saramago!

Admito, alturas há em que, de facto, não percebo os homens*. E, não obstante parecer que eles também não nos percebem, não digo isto por aplicação pura do princípio da reciprocidade.

Mas talvez devesse.

Porque, se ele diz isto numa entrevista: (Porque tem tantas descrições de comida e de sexo? As duas coisas que os homens mais gostam de comer), o que dirá numa reunião de amigos, cerveja na mão, jogo de futebol num ecrã de televisão?

E já agora, para que não restem dúvidas, não, não leio MRS por ele ser bonito! Nem sequer charmoso!


*Não penso poder afirmar que, a contrario sensu, há alturas em que percebo os homens! Confesso que também não tento muito! Limito-me a gostar da companhia de alguns. Por vezes mesmo, a gostar muito!

Domingo

O sol está pálido. Muito pálido. Como se estivesse a fazer um esforço para cumprir uma promessa.
A promessa de que viria, ainda que pálido.
Talvez esteja perturbado com as horas sem saber que brilho dar às de hoje.
Talvez esteja em mudança também.
A achar que chegou a hora do sol de Inverno.
E aqui lembro-me da canção, antiga, antiga, do Sol de Inverno, da Simone creio, e agora não me apetece misturar a modernidade nas minha memórias e não vou googlar, nem linkar, vou apenas recordar, era triste a canção, julgo, triste como um sol de Inverno.
Mas hoje o sol não está triste, só está pálido, mas veio para cumprir a promessa de que viria, assim me foi dito, e outras coisas me foram ditas e eu acredito porque o sol, ainda que pálido, aí está.
Sei que me veio dizer olá.
E eu, ainda que atarefada com a mudança da hora, para que tenho eu tantos relógios?, respondo olá.

Saturday, October 27, 2007

Noite de bloggers

Foi um serão de animada cavaqueira.
Os blogues deram a desculpa para nos juntarmos.
Depois, a conversa correu fluida por aqui e por ali, sem regras nem limites, como é próprio de amigos. E também de blogoamigos.
Aqui, no local do Cinzento, com muita honra minha, estiveram a Carlota do vizinho Lote 5, a Sinapse que deu um pulo ao plat pays, o Periférico ainda mal refeito da sua missão, a Nokas que nos dá um preciso diário de bordo da capital europeia, a Pessoana e o seu imenso talento para a escrita e, last but not the least, o MRP, o caçula destas lides blogoesféricas em terras do chocolate Marcolini.
Fica o breve registo e a vontade de repetir.

Friday, October 26, 2007

Sexta, pela graça de Deus

Isto hoje nem com muito café lá vai!

Thursday, October 25, 2007

Recado aos belgas

O sol é um direito, não é um privilégio.

Nostalgia

Hoje acordei com a nostalgia do Outono.
Por aqui está tudo cinzento, mas eu queria um sol pálido a reflectir-se nas folhas douradas, um vento fresquinho a chamar um casaco de malha, o alegre crepitar de uma lareira acendida pela primeira vez.
Eu hoje queria cheiro de castanhas assadas na cidade.

Wednesday, October 24, 2007

Gala


Farei os possíveis para não destoar, mas não nasci com jeito nenhum para me artilhar à maneira.
Enfim, dado que não me deixam ir de jeans (porque não, meu Deus, porque não?!), lá terei que me enrolar numa distinta farpela de seda, calçar uns sapatitos de salto alto e até, imaginem, maquilhar-me discretamente, porque todos (todas!) sabem que a elegância quer-se discreta!

Aviso à navegação: não haverá fotografias! (Porque este blogue é de palavras feito).

Tuesday, October 23, 2007

Memórias de viagens III

Quente e húmido.
Estava calor e humidade, como gosto.
Já há muito desistira dos óculos de sol que persistentemente escorregavam pelo nariz. Pu-los na cabeça, a segurar os cabelos. Numa tentativa de os domar enquanto o jipe prosseguia por estradas estreitas ladeadas por impenetráveis florestas.
Chegámos.
Em terra dos Maias, a pirâmide de Chichen Itza surgia de repente, numa imensa clareira insuspeita.
Como nas fotos, é um maciço monte de pedra. Robusto, imponente.
Como nos filmes, muitos turistas a trepam, pequenas formigas lá em cima se vistos de cá de baixo.
Ainda assim, a mente não se apercebe da altura da pirâmide.
Talvez porque o seu ar sólido e compacto a puxe para a terra, a impeça de se projectar no espaço como os pináculos das catedrais.
Talvez porque nos queira enganar, chamando-nos para o seu cume, para onde vamos sem receios.
Os degraus, altos e estreitos, não são fáceis de subir e a ânsia de chegar lá a cima impede-nos de olharmos para trás. Ainda bem! Talvez não chegássemos lá a cima se olhássemos para trás!
Subi, de um só fôlego. Concentrada nos degraus, contornando turistas mais lentos, não me impressionando com os que haviam olhado para trás e ali ficavam, incapazes de subir, temerosos de descer.
Subi.
Até lá acima.
Até ao patamar último de onde a pirâmide revela o seu segredo: a vista espantosa sobre a cerrada floresta a perder de vista.
Mas quando o olhar desce os degraus, esmaga-se contra a lonjura do chão, o coração começa a bater desenfreado, o cérebro bloqueia na frase "não vou conseguir descer" e as pernas ameaçam tornar-se no mesmo suor que nos escorre pelo corpo.
Encostei-me à parede.
Limpei a cara.
Fechei os olhos por uns momentos.
Respirei fundo.
Obriguei o cérebro a pensar que não havia registo de alguém ter ficado, para todo o sempre, no cimo da pirâmide de Chichen Itza.
E eu também não fiquei!

Monday, October 22, 2007

Desabafo

Pôxa, que está um frio que não lembra!

Sunday, October 21, 2007

Clube de leitura

"Oftentimes have I heard you speak of one who commits a wrong as though he were not one of you, but a stranger unto you and an intruder upon your world.
But I say that even as the holy and the righteous cannot rise beyond the highest which is in each one of you,
So the wicked and the weak cannot fall lower than the lowest which is in you also."

“The Profet”, Kahil Gibran

Festejou-se!

É muito bom quando se reúne à nossa volta alguns dos amigos feitos em 20 anos de vida pelas bandas das Europas mais centrais e se recebem, ao mesmo tempo, mensagens de amigos dos anos anteriores a esses, mensagens vindas de Lisboa, a perguntar se a festa correu bem.

E correu! Comeu-se, bebeu-se, houve sorrisos e abraços em várias línguas e no final a saudade cantou-se em fado, cantou-se em português, com a voz cheia de alma da C., cantou-se em português com a guitarra do E., a guitarra portuguesa do M., e o violoncelo do M.

Cantaram eles e cantámos nós, a afugentar o frio que subitamente se abateu por aqui.

Friday, October 19, 2007

20 anos

20 anos fora da Pátria.
Festeja-se.

Thursday, October 18, 2007

Frase

Tinha o futuro cheio de um passado demasiado presente.

Momento Calimero

Oh meu Deus, porquê a mim?

Post it

Fazer as coisas com calma, com ponderação e usando a cabeça.
De preferência dentro dos prazos!
Para evitar situações de sufoco.

Wednesday, October 17, 2007

Recital de letras

Os dedos afagam as teclas do computador como se fossem mãos de pianista.

Deslocam-se devagar, no princípio, ponderando o ritmo, prolongando cada toque, letra a letra, como se estivessem indecisos da sequência a dar às palavras, a dar às frases.

Interrompem-se, em pausa breve de andamento.

Retomam, fluidos agora, deslizando pelas palavras e escorregando pelos parágrafos e compondo ideias e esgrimindo argumentos em discurso directo. Seguem em crescendo de afirmações e de perguntas e de exclamações, saltitam por vírgulas, quase que páram em pontos, ganham fôlego nos pontos e vírgulas e continuam até às reticências.

Breve pausa; ficam os dedos indecisos entre continuar ou apagar, voltar atrás para polir o estilo, corrigir um sentido equívoco.

E decidem continuar: talvez a medo, cautelosos, digitando as palavras pelo som, pela musicalidade, preocupados com a harmonia, com a afinação.

Reforçada assim a confiança, avançam de mãos abertas, dez dedos no teclado, para a apoteótica conclusão.

Tuesday, October 16, 2007

Sem jeito

Parece, por vezes, que as palavras ganham vida própria, nos fogem dos aparos das canetas e se divertem a inventar sentidos que não queremos que tenham.
Queremos que sejam objectivas e elas torcem-se em arabescos, queremos que sejam suaves e elas endireitam-se em rigidez agressiva, queremos que sejam risonhas e elas transformam-se em lágrimas.
Cuidadosamente pousamos a caneta, à procura de um silêncio reparador e ele alia-se às palavras e ali fica acusador, pensativo, insuportável.
Pensamos, ponderamos, escolhemos e desenhamos uma flor com a caneta! Uma flor para dizer que sim, uma flor para dar esperança, uma flor para receber um sorriso, um piscar de olhos!
Desenhamos com medo, com medo de que também essa flor entre no jogo e se revista de espinhos e de rosa passe a cacto!
Sem saber mais o que fazer encostamo-nos na cadeira e deixamo-nos ir ao sabor da corrente.

Monday, October 15, 2007

De noite

De noite é o tempo das dúvidas!
Chegam com as trevas, de mansinho, insidiosas.
Não se precipitam. Contudo avançam sem hesitações.
Acendo mais uma luz.
Mudo de posição.
A música que toca não me ocupa.
O livro que leio não me distrai.
Olho pela janela, procurando no céu os restos do dia, os prenúncios do que está para vir.
Sei que a luz ofusca as dúvidas.
Que o sol as afasta para longe.
Mas de noite, elas chegam com as trevas.
Porque de noite é o tempo das dúvidas.

Tento dormir.

Sunday, October 14, 2007

O outro eu

Saí do filme "The brave one" a pensar quão fágil é a linha que separa a normalidade, o nosso mundo, de um outro mundo que julgamos não tocar. E, no entanto, ele ali está, tão perto, demasiado perto.
Porque está dentro de nós, adormecido, domesticado, acalmado.
Sabemos, ou suspeitamos que cá está, mas não o conhecemos, esse outro eu que acordará (acordará?) numa situação extrema de violência, de medo, de raiva, de ódio!
Um eu que deixa de sorrir, um eu obsessivo, um eu agressivo, um eu depressivo, um eu anulado, que eu serei eu? Para além deste eu, impaciente e sôfrego, que transporto diariamente? Para além deste eu que sonha longe mas resigna-se perto?

Saturday, October 13, 2007

Memórias de viagens II

O acordar faz-se cedo, na altura em que a manhã se adivinha em tons lilases.

Os barcos, pequenos barcos de madeira, levam homens que já não se extasiam perante a imensidão turqueza do azul do mar.

Os remos mergulham suavemente, sem ruído, deslizando fluidos, hábeis, sincopados.

Enterro ligeiramente os pés na areia, deleito-me com a macieza dos grãos que me acariciam a pele, me envolvem e me acolhem agradavelmente quentes.

Os barcos desapareceram ao longe. Voltarão mais tarde com o peixe que dará de comer àquelas famílias, talvez tragam algumas conchas que os turistas cobiçarão.

E não vale a pena dizer-lhes que o não façam, que a natureza é mais bela lá onde ela é, do que numa qualquer estante de uma casa europeia.

Sou surpreendida por um caranguejo que, confiante na minha quietude, sai do seu buraquinho, em passos rápidos e decididos e a ele retorna, veloz como um raio, assim que viro a cabeça.

As folhas das palmeiras debruçam-se idilicamente sobre o oceano e sussuram múrmurios de bons dias. Aos poucos, a praia vai-se espreguiçando: ao fundo passa uma mulher jovem, enrolada numa capulana de cores vivas, equilibrando um cesto na cabeça, surgem crianças trazendo nas mãos colares de missangas que irão vender aos forasteiros, empregados preparam as mesas para os pequenos almoços.

A pensar na papaia que irei comer ao matabicho, mergulho nas águas tépidas do Oceano Índico que brincam com pérolas de sol e me afagam em reflexos brilhantes.

Quisera nunca mais sair deste mar, quisera nunca mais deixar de me aquecer na maravilhosa praia do Wimbe.

Memórias de viagens I

A muralha ia para além do que se podia ver, mas imaginava-se facilmente.
Afinal era uma daquelas coisas que todos conhecemos ainda que nunca lá tenhamos estado: já vimos em fotos, já imaginamos em leituras.
E agora ela estava ali, impressionante de robustez e de dimensão, mas humanizada pelo seu parcial descalabro, pelos séculos e séculos de estar ali, sem utilidade nem justificação.
Uma caminhada na muralha da China é também um passeio na história, é pisar um mito, é desfazê-lo, no fundo. É alcançar o inalcançável.
Os turistas eram muitos. Demais talvez. E muitas seriam com certeza as motivações para estar ali. Mas todos unidos por essa imensa curiosidade de ver, de tocar, de percorrer a célebre muralha da China.
Em 4 horas de caminhada, falei várias línguas, cruzei diversas raças, troquei impressões com pessoas que nunca vira antes e que nunca mais verei, deixei os meus olhos livres para absorverem a vista fabulosa, os horizontes sem fim, para além daqueles que os nossos olhos europeus se habituaram a ver, deixei a minha memória absorver as pedras a desfazerem-se, os troços já reconstruidos numa luta perpétua contra o tempo, as ervas que teimosamente crescem na muralha, deixei os meus pés subir degraus subidos vezes sem conta, escorregar em areia tantas vezes derrapada, caminhar sempre em frente como o resto da muralha humana.
O silêncio da muralha só o pude imaginar.
Esse sobra para os chineses que habitam perto, em casas que não se vislumbram.
Para mim sobraram memórias, fotos e uma camisola que diz I climbed the great wall.

Friday, October 12, 2007

Mundo

O mundo que eu sonho é muito mais giro que este onde vivo!

Agora, se algum dia eu conseguir viver no mundo que eu sonho ficarei sem sonho!

E como será viver num mundo sem sonhos?

Mais um prémio

O Mochito teve a amabilidade de me distinguir, com o prémio do visitante.

Prefiro chamar-lhe o prémio dos blogoamigos.

Porque, primeiro são visitantes, mas depois são mais do que isso: fazem-nos falta quando não aparecem, alegram-nos quando nos comentam, preocupam-nos quando entristecem.

Fazem-nos descobrir coisas e olhar por novas perspectivas.

A dada altura, é também por eles e para eles que escrevemos.

Parece-me que agora tenho que nomear alguns desses blogoamigos para que a corrente não morra.

Pois eu vou fazer uma grande misturada entre amigos, blogoamigos e até família (sim, até isso) porque separar uns dos outros faz pouco sentido.

Portanto, aqui vai:

Em Bruxelas

Em Nova Iorque

Na Pátria

E todos os demais que não menciono porque estou farta de fazer links! Mas vocês reconhecem-se.

Thursday, October 11, 2007

Momentos

Há momentos em que não acreditamos que basta um momento para mudar, que basta um momento para escolher um novo rumo, que basta um momento para vislumbrar uma nova perspectiva.

Pensava nisso enquanto pousava mais um livro, um desses com que preenchera um momento de espera.

Mexeu cuidadosamente o café, enrolando as natas sem as quebrar, seguindo, sem se aperceber, o ritmo da música que, esquecidamente, tocava para ninguém, tocava para ela.

Seria Caetano Veloso?

É Caetano Veloso? Perguntou ao empregado que, sem entusiasmo, recolhia chávenas e copos de uma mesa ao lado. Que encolheu os ombros.

Saboreou o café meditativamente. Nunca iria compreender este desinteresse pelo interesse dos outros. Este viver paralelo sem sorrisos nem simpatia.

Esteve para lhe dizer que basta um momento ... mas viu nos olhos apagados um sinal de descrença em qualquer momento.

Wednesday, October 10, 2007

Vale a pena

Eu e mais uma série de pessoas que andam por aqui a trabalhar afincadamente para que a União Europeia tenha sentido e faça sentido para todos.
Fui à minha escola falar da União Europeia com crianças, vivas e espertas, que se entusiasmaram e me entusiasmaram.
E como são elas o futuro deste imenso projecto eu fiquei com fé no futuro.
Valeu a pena. Mas também, como o poeta diz, tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

Tuesday, October 09, 2007

Tradução

Como acham que se deve traduzir "chat" em português?
Pessoa amiga propôs "bate-papo".
Eu acho giro "dois dedos de conversa".

Na Pátria

Começar o dia com o sol a brilhar assim é uma excelente maneira de começar o dia.
Eu acho.

Monday, October 08, 2007

Fumego

Estou tão, mas tão furiosa, que se me aparecesse assim algum odiozinho de estimação pela frente levava pela tabela grande!
O meu vôo para Lisboa está atrasado três, leram bem três horas!
E não é da TAP!
E o pior, o que me dói mesmo no mais fundo da alma, é que o da TAP saiu a horas.
Eu bem digo que o meu anjo da guarda é um incompetente de primeira marca...
A única coisa que me consola (e uma pessoa vai buscar consolo a coisas estranhas) é que não fui eu que escolhi a companhia.
E não me apetece ser honesta comigo neste momento; caso contrário teria que admitir que mesmo que tivesse sido eu a escolher teria escolhido este vôo onde vou. Para minha desgraça!
Ai que raiva!

Convite para café

Queres açúcar no café?
Eu também o prefiro beber sem açúcar. Até o chá. Bom, eu não junto açúcar em nada, excepto no chá de menta porque esse se quer bem doce.
E como vais?
Pois é, nem sempre as coisas correm como gostaríamos mas eu creio que o mais importante é não perdermos a esperança.
A inocência, essa, perde-se, claro. Mas, no fundo, se pensares bem, perdemo-la a cada dia que passa, desde que nascemos, quando percebemos que o Pai Natal não existe!
Mas está também em nós a capacidade de a recriar.
Enfim, não é bem de inocência que falo agora.
Acho que é mais de cumplicidade.
Sabes?
As pontes que se criam só com certas pessoas e que nos permitem pensar que, de algum modo, somos únicos nessa relação, diferentes de todas as outras pontes que nos ligam aos demais.
Não achas que é uma forma de inocência?
Eu acho! Podemos deixar de lado as barreiras com que nos protegemos dos outros, podemos dizer o que verdadeiramente pensamos. Claro que haverá sempre obstáculos sociais, que para alguns são mais altos do que para outros…
É por isso que dizes que preferes não falar no assunto, não é? Entre o não querer maçar os outros e a defesa de uma imagem que convém manter, nem sempre é fácil abrir a alma.
Compreendo.
Mais café?

Faz de conta

Hoje vou fazer de conta que está sol.
Aliás, lembro-me perfeitamente como é, porque tivemos um fim-de-semana maravilhoso: aproveitei para apanhar sol, para andar com o carro descapotado, para passear a pé, para beber café em esplanadas.
Hoje, voltámos ao cinzento.
Mas eu vou fazer de conta que não!

Sunday, October 07, 2007

Súplica

Mas é uma sugestão obrigatória: há que segui-la porque a causa é nobre.
De facto, a Madalena é...eu ia dizer que era uma referência blogoesférica. É! Mas dizer tal é redutor. Muito redutor.
Porque a Madalena é muito mais.
Tanto que é uma pena que nos deixe para aqui sem a sua companhia, doce e ternurenta como só ela sabe ser, precisa e interessante como nós, leitores do Chora-que-logo-bebes, sabemos que é.
Volta.
Por favor!

Saturday, October 06, 2007

Obrigada

Tenho de novo computador em casa.
Carlota, agradece por mim ao chefe, sim?

Thursday, October 04, 2007

Texto sem sentido

Tento encontrar-me no meio dos papéis. Encontrar-me e encontrar o fio de uma meada que deixou de ter sentido. Sem sequer saber se existe um sentido. Por entre os papéis, nada faz sentido.

Lembrou-se de quando tudo era ordem. Antes de o tempo escurecer, assim desaparecendo o verde. Curiosa essa atribuição de sentidos às cores pensou. Alguma vez o verde teria sido esperança? Decidiu que não acreditava no verde, porque não acreditava na esperança, porque o mundo à sua volta escurecera há muito tempo, há um tempo que já nem sabe se existiu alguma vez.

Como se tudo fosse importante, dizem-me estes papéis que tudo é importante. Não creio. No fundo porque sou descrente. Até da importância dos papéis. Tudo hoje é documentos e eu não me encontro nas letras que me forço a ler. Gostava de ter coragem de fugir destes papéis. Ou então de fingir que fugia. Ou então de me encontrar neles.

A fuga era a única coisa de que se recordava. Era de noite. Ainda que fosse de dia, desde que o mundo escureceu, era sempre noite. E foi de noite que saiu de casa e se perdeu numa rota que não era a sua, nunca fora a sua. Mas que percorreu porque assim lhe disseram para fazer. Até que um dia ousasse parar, ousasse recusar esse trilho que não reconhecia. Mas que era seu. Era seu. E queria-o assim, escuro, sem cores.

No corredor as vozes afastam-se, indicando-me assim que o fim do dia se aproxima. Continuo a procurar sentido nos papéis, uma ordem que me faça sentido.

No fundo, procuro a luz.

Miguel Sousa Tavares em Bruxelas VIII

E não há dúvida.
O MST tem um charme danado.
Ao vivo ainda se nota mais!
E desculpem acabar esta série com uma nota tão pessoal.
Mas não havia como resistir.

Miguel Sousa Tavares em Bruxelas VII

Levei o "Sul".

Agora tenho-o autografado.

Ele escreveu:

Com votos de muitas viagens.

Pensei eu:

Bastantes já vão sendo. Resta descrevê-las assim. Esse é o meu desejo.

Miguel Sousa Tavares em Bruxelas VI

O Presidente da Câmara de Bruxelas louvou a iniciativa, um passo para o conhecimento das literaturas estrangeiras. Porque, disse, além da literatura francesa há outras, a portuguesa, a espanhola, a flamenga... Pois, porque parece que em breve estaremos separados!

Miguel Sousa Tavares em Bruxelas V

Ele disse:

Agradeço a apresentação feita por Vasco Graça Moura. É das poucas pessoas que está sempre pronta a dizer bem de mim. Há que aproveitar.

Miguel Sousa Tavares em Bruxelas IV

Ele disse:

Quis escrever um livro que impelisse as pessoas a ir para casa ler. A querer ir para casa ler. Como me acontece a mim quando gosto do que estou a ler.

Miguel Sousa Tavares em Bruxelas III

Perguntaram-lhe:

Que conselhos daria a quem quer escrever um livro?

Ele disse:

Nenhum, já não estou em idade de dar conselhos.
Mas a ter que dar algum é ler, ler muito.

Miguel Sousa Tavares em Bruxelas II

Perguntaram-lhe:

Quando começa a escrever sabe a história toda até ao fim?

Ele disse:

Toda! Não sou como o Lobo Antunes que diz que na página 50 ainda não sabe o que está a escrever.

Miguel Sousa Tavares em Bruxelas I

Ele disse:

Não sei se sou um escritor.
Dêem-me uma história, eu escrevo, mas não sei o que fazer face a uma folha em branco.

Wednesday, October 03, 2007

Enigmático

Procurei, desesperadamente, o Equador.
Afinal está em Lisboa.
Trouxe o Sul.

Tuesday, October 02, 2007

Imagem

Sentada no chão, caderno de folhas brancas pousado nas pernas enroladas em coloridas perneiras de lã, uma caixa de lata cheia de lápis de cor à frente, um lápis de carvão nas mãos.

Um Kandinsky na parede.

O cabelo acompanhando, ritmado, o movimento regular da cabeça, do quadro para o caderno, do caderno para o quadro.

O olhar que se concentra nas cores que se escolhem, para que o desenho se aproxime o mais possível do quadro.

Os restantes visitantes do museu que passam sem a ver.

As crianças que param e que se prendem nas cores de tantos lápis dentro da caixa de lata.

Os guardas que recordam "No photos, please. Thank you".

Monday, October 01, 2007

É que não posso (13)

Não tenho pachorra para gente pretensiosa!
Nenhuma!
Então aqueles que opinam sobre tudo e sobre todos sem conhecimento de causa, desesperam-me.
É isso e aqueles que não entendem que na vida há momentos para tudo, até para conversas inconsequentes à mesa do café!
Nem todos os momentos são momentos para defender teses de doutoramento!
E não vou discutir temas profundos em blogues, nem espero que outros o façam. Até porque temas profundos, discuto com quem estimo e por quem tenho respeito intelectual. Gente que conheço.
Um blogue é uma agradável mesa de café por onde passa muita gente: amigos que conheço, pessoas que irei, porventura, conhecer, pessoas que ficarão sempre no virtual blogoesférico.
Fosse tudo assim tão simples!

Surreal

A eleição do Menezes permite antever tempos giros.

Apertem os cintos!

A montanha russa vai começar.

Decisão

Deixou que os pensamentos se espraiassem enquanto saboreava o gin tónico.

Perdeu-se nos raios de sol que imaginava, deleitou-se com o calor que sabia sentir nesses momentos, ficou um instante mais nessa magia encantada, como se tudo fosse real.


Sorria. Sabia que sim. E no entanto, tinha perdido as ilusões.

Por vezes, basta um gin tónico, uma troca de impressões, para se perceber que não é ali que se quer estar. Não é ali, nem com aquela pessoa.

Era tempo de retomar o ritmo da cidade.