Wednesday, February 27, 2008

Conto a conto (2)

Não é mais do que um momento, disse ele, um só momento.
No fundo tu não escreves, tu fotografas com palavras. Não são histórias, são retratos.
E isso é mau, perguntou ela em jeito de defesa.
Houve um gesto de impaciência. Um levantar de braços. Um sorriso.
Mau? Disse por fim. Não, não estou a colocar a questão nesses termos. Se o que queres é ser fotógrafa com palavras, tudo bem, mas isso não é escrever histórias. É tudo.
Uma história tem um enredo, uma trama, um princípio, um meio, um fim.
Sei lá.
E se eu não tiver histórias para contar? E se eu só for contadora desses momentos que o cérebro regista e que depois amplia e corta e cria e inventa?
Olhou para o papel.
Ficou à espera que a história surgisse, que, de modo mágico, se enrolasse dentro da caneta e saísse pelo bico em jorro constante, como água de uma torneira, como vinho de uma garrafa.
Nada!
Talvez seguindo a tradição, pensou.
E escreveu "Era uma vez".
Mas lembrou-se de príncipes e de princesas e achou que não era uma história dessas que queria contar.
Era uma vez uma bola que rodava nas mãos de um menino.
Não que a frase seja original mas é um princípio. Falta o meio, falta o fim.
Enrolou o cabelo nos dedos e ficou a imaginar o que poderia um menino fazer com uma bola.
Jogar, obviamente. Que pergunta tonta para se colocar, ainda que em silêncio, no desespero de um processo criativo.
Poderá jogar ser o meio da história? Não ficará demasiado curta?
Talvez acrescentar outros meninos a andar de bicicleta, a saltar à corda, a subir a árvores.
Evitou descrever a bola, não queria que ele dissesse que era mais uma fotografia. Ficaria portanto à imaginação dos leitores. Ainda assim, não conseguiu impedir-se de pensar numa bola encarnada.
Faltava-lhe um fim. Que não fosse o final do dia e o regresso a casa do menino que jogava à bola. Sem dúvida que era um fim! Não, ninguém quer saber de uma história assim.
Talvez devesse criar mais personagens.
Levantou-se.
Um avô. Um avô como nas histórias. Um avô que conta histórias. Num jardim, num dia de sol, onde há meninos que brincam e um deles tem uma bola (encarnada).
É isso. Um dia, pensou, vou escrever esta história.