Thursday, February 28, 2008

Conto a conto (3)

Saiu de casa já apressado.
Atrasara-se a ouvir rádio e agora esperava não perder o autocarro.
Sentia-se, se súbito, posto à margem, cansado do peso da vida que até hoje não sentira. Pensava no que ouvira, sem perceber se era notícia, se era publicidade, sobre a idade média dos empregados de uma empresa, todos muito novos, e das consequências de tal juventude: alegria, disseram, alegria e informalidade.
Achou que deveria ser triste e formal. Para condizer com a sua própria idade.
Sem dar por isso, levou a mão ao nó da gravata, alisou o cabelo para evitar rebeldias e sacudiu o pó inexistente da pasta.
Tentou controlar a respiração acelerada pelo rápido caminhar até à paragem do autocarro e perguntou, polidamente, a uma senhora de idade se o 54 já tinha passado.
Que não sorriu ela, de sorriso demasiado fresco para a hora matinal e, porque não dizê-lo, para a idade que teria, mais adequada à tristeza.
Esteve para lhe dizer. Talvez a senhora não tivesse ouvido a rádio de manhã.
Mas foi a senhora que lhe disse, com o mesmo sorriso, "páre de pensar em parvoíces" e lhe piscou o olho quando ele se surpreendeu.
Os jovens têm a alegria própria dos que nada sabem. Eu tenho a alegria feita da minha história, feita das guerras e das deslocações, feita dos amigos que perdi e dos amores que afastei, feita dos erros que cometi e dos caminhos sinuosos por onde andei.