Wednesday, October 29, 2008

Nada

Tenho este problema, de pensar em várias coisas ao mesmo tempo, de ouvir o que me dizem e desligar em função do movimento ambiental ou de pensamento mais interessante que me tenha surgido, enfim, sei que tenho este problema e tento, já que me falta o engenho para corrigi-lo, tento que, ao menos, não se note muito; aprendi a manter um ar interessado, a monossilabar para não desiludir o interlocutor, até a responder coisas vagas mas que vão sempre bem.
Espantam-me as pessoas que se concentram numa só coisa e que até conseguem ficar em casa sem fazer nada, sem pensar em nada! Invejo-as no fundo. Imagino a tranquilidade que deve ser o despojamento total do cérebro e do corpo.
Medito muito sobre esta questão, creio até que consigo chegar ao minuto, isto é, sessenta segundos, sem me mexer, sem me coçar, sem me lembrar doutra coisa qualquer.
Pensar em nada, foi, para mim e durante muito tempo a cor branca. Tentar pensar em branco. Hoje tenho dúvidas! Terá o nada cor? É que a ter, inclino-me mais para o lilás. E vejo um manto diáfano a flutuar em grandes ondas na brisa ... entre as árvores...oops, lá estou eu a poluir o nada!
Será talvez o negro, a escuridão. Mas como, se a mim a escuridão se enchia de monstros e outros bichos? Nada era quando se acendia a luz e eles se escondiam!
Até quando fecho os olhos não vejo o nada! Vejo linhas e pontos, reflexos de cor, coisas em movimento. Se os entreabro, vejo os objectos difusos, a liquefazerem-se, a dançarem.
Também tentei escrever nada. Peguei na caneta e fiquei ali. O nada transformou-se sempre em alguma coisa não obstante a minha busca por coisa alguma.
Disseram-me então para meditar: recostar-me em sala calma e repetir uma palavra, uma qualquer palavra, vezes sem conta, até ela perder o sentido. Parece que, então, se atingirá o nada.
Tentei.
Não consegui decidir-me por palavra nenhuma nesta busca infernal pela palavra ideal para me levar até ao nada.
E, a bem dizer, também não tenho paciência para grandes esperas: se ao fim de três repetições o nada não tiver chegado vou à minha vida que não tempo tempo para fazer nada!

7 Flocos de neve

Blogger Mol atirou uma bola de neve ...

Como te compreendo: 10 minutos de relax no yoga, com o instrutor a repetir para deixarmos o mundo terreno e nos abandonarmos num mundo de sensações positivas... Passado menos de um minuto estou-me a coçar, a abrir os olhos, a bater os dedos, a ajeitar a posição,...

11:11 am  
Blogger Carlota atirou uma bola de neve ...

Belo exercício sobre nada, Pitucha. Muito giro!

11:20 am  
Blogger anamoris atirou uma bola de neve ...

Olá Pitucha
Há muito tempo que eu e o meu marido temos esta discussão: ele diz que pensa frequentemente em "nada", e eu acho que pensar em "nada" já é estar a pensar...
Não consigo meditar, tenho sempre a cabeça a mil à hora. Disse-me uma amiga que é barra nestas coisas: É tudo uma questão de treino. Não sei
A maneira como a minha cabeça fica mais vazia é estupidificar em frente à telvisão, a ver séries ou filmes.
Beijos

12:58 pm  
Blogger calamity jane atirou uma bola de neve ...

Sempre me debati com essa dificuldade. "Diz que" quando conseguimos atingir esse nada alcançamos a paz e a serenidade. Deve ser então isso que me faz falta...

1:18 pm  
Blogger Claudette Guevara atirou uma bola de neve ...

Gostei muito desta tua introspecção.

O meu sócio tem o mesmíssimo problema que tu. E é complicado pô-lo a pensar em nada, ou não pensar de todo. Mas é uma questão de treino, e vontade.
Olha! Os filmes da TVI ajudam a não pensar em nada. Embrutecem-nos. Viramos pastores.

3:58 pm  
Blogger NoKas atirou uma bola de neve ...

Não faz mal Pitucha... Isto só significa que estas férias não vais ao Tibete atingir o Nirvana. :p

5:03 pm  
Blogger Xana atirou uma bola de neve ...

Será que isto ajuda?

12:08 am  

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