Wednesday, January 30, 2008

Esclarecimento

Há quem me pergunte se os meus múltiplos hobbies não me tiram tempo ao trabalho.
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Oi?
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Gentes, o trabalho é que me tira tempo aos meus múltiplos hobbies!

Tuesday, January 29, 2008

Carta

O papel tem que ser pautado.
Porque eu não escrevo direito sem linhas e muito menos por linhas tortas.
E, para cúmulo, irrita-me escrever em papel quadriculado.
Tem que ser pautado e com margens.
Preciso de limites, de saber os terrenos que piso, até onde posso ir.
Também não pode ser muito poroso. Como bem sabem todos aqueles que já experimentaram escrever com caneta de tinta permanente nesse tipo de papel.

A caneta, com tinta azul-turquesa, por vezes sépia, tem que escrever grosso. Não gosto de sentir o aparo a raspar no papel. Irrita-me o rec-rec permanente. Concentra-me no aparo e, quando dou conta, dou por mim a carregar na caneta e canso-me. Não! O aparo tem que deslizar, dançar, silenciosamente, libertando as letras, desenhando-as sem esforço nem hesitação.

No fundo é um tango. Uma história de paixão entre o papel e a caneta. Coreografada pela minha mão. Posta em música pelo ritmo enrolado dos "o", pelo som sincopado dos "i", pelo perfil sóbrio dos "p". Entusiasmando-se nas letras de que gosto, como o "s" ou irritando-se nas letras que não aprecio como o "x" ou o "G", assim, maiúsculo, que nunca soube desenhar na escola.

Fico a olhar o aparo a deixar marcas húmidas no papel, que sopro no momento de dobrar a folha, deixo a mão deslizar na tampa da caneta que enrosco em gesto automático enquanto procuro a morada e pego no envelope.

E, para prolongar o gozo da escrita, sublinho, no endereço, Portugal.

Não se pode ter tudo

Por vezes sinto saudades de escrever com caneta de tinta permanente.
("Tinta permanente" tem um ar de estabilidade resistente à história!).

Monday, January 28, 2008

Com um brilhozinho nos olhos

Via-se o mar, ao longe, através da janela que protegia do vento agreste, nessa manhã de Inverno.
Advinhava a maresia enquanto se enebriava com o calor líquido do café.
Releu mais umas linhas, antes de ser distraído por pensamentos de desejos profundos.
Tornou a baixar os olhos, tentando prender-se nas páginas que lhe falavam em silêncio e que, desta vez, teimava em não escutar.
Ouviu o mar.
Estranhou.
Afinal o mar estava tão longe, para além do vidro, para lá do areal, num movimento que, daqui, só podia imaginar.
Mas teve a certeza de que ouviu o marulhar salgadamente enrolado do mar, de que sentiu esse gosto de verão quando passou a língua pelos lábios e sorriu quando lhe disseram "Bom dia".

Sunday, January 27, 2008

Em percentagem, desta vez

A, que é uma querida, achou que este blogue estava 100% aprovado.
Uma honra vindo de quem vem.
Fico agradecida.

Friday, January 25, 2008

Impressões


De Goa ficou-me a sensação de muito carinho para com Portugal e os portugueses, mesmo por parte daqueles que não falavam, ou já não falavam português.

Recordo-me particulamente de um jovem que nos servia um caril numa praia de Candolim e que voltava regularmente à nossa mesa para saber coisas dessa Lisboa longinqua que ele ambicionava visitar.

Ou de uma senhora em Mapusa que perante a nossa dificuldade em identificar um produto, não obstante o termos provado depois de ela gentilmente o ter oferecido, se esforçou e disse "grão, this is grão. I still remember some portuguese words" e sorriu feliz com o nosso ar de descoberta.

Desaparecerá a língua portuguesa, talvez, mas o sentimento de proximidade com um Portugal que eles imaginam, com afecto e, decerto, com muita imaginação, não creio que esteja em vias de extinção.

Pelo menos enquanto todos insistirem em dizer que em português conhecem Bom dia e Obrigado.

Eu fiquei com esta sensação.

Thursday, January 24, 2008

Gente diferente

Isto é que é arrastanço?

Carlota
, minha doce Carlota.

Arrastanço é a gente ter que se levantar de manhã, queira ou não queira, para vir construir a Europa, quer ela queira quer não queira, faça chuva ou sol (pronto, admito, esta foi só para dar um ar compostinho à frase! Nunca faz sol...).

Arrastanço é ter que suportar reuniões mais chatas e longas do que a espada de D. Afonso Henriques.

Arrastanço é ter que ir ao supermercado, porque a dada altura a mulher a dias nos explica que sem o material ela não pode fazer milagres, numa versão moderna de não se fazem omoletes sem ovos.

Arrastanço é ter que fazer aquelas coisas que as mulheres modernas, como nós, claro, têm que fazer, quanto mais não seja para evitar que nos aproximemos perigosamente da natureza do urso tantos são os pêlos.

Arrastanço é ter que ir para a cozinha preparar comida de grilo porque até eu tenho limites para o pão com manteiga.

Agora, querida Carlota, arrastanço não é colocar num saco uma bolsa giríssima com produtos chiquérrimos e que irão contribuir imenso para o brilho do cabelo, a macieza da pele, a luminosidade dos olhos e, é óbvio, destruir em dois tempos a celulite.

Arrastanço não é vestir uma roupa com montes de charme e que foi cientificamente estudada para absorver o suor, esconder as imperfeições do corpo e suscitar olhares de inveja das demais meninas (nunca lá há meninos, assim como assim!).

Arrastanço não é calçar os ténis adequados, diferentes dos da véspera porque o exercício é outro (mas vou ter que te explicar tudo?!). A palavra-chave aqui é "adequados"!

Arrastanço não é tomar um duche magnífico depois de se ter feito um relaxante banho turco.

Percebeste?

Wednesday, January 23, 2008

Coisas da blogoesfera

Cirandando por aí, por esses espaços blogoesféricos, não posso deixar de sorrir perante a evidência de que, apesar de virtual, nada muda na natureza humana.

E tal como antes riscávamos com veemente fúria o número de telefone dos caídos em desgraça, hoje deslincamo-os.

Com um toque de tecla e puf, fica o vazio. Nem sombra de número riscado com a dimensão do desgosto medida em páginas marcadas pela raiva do risco. Não sobra nada.

Um post em desacordo, um verbo desalinhado, um ataque mal visado a blogue amigo basta para a admiração do linque se transformar em castigo de deslinque!

E a blogoesfera continua.

Como a vida.

Tuesday, January 22, 2008

Tudo bem por terras ocidentais

Abençoado país que não tem problemas.
Porque, se os tivesse, não andaria com os nervos em franja por causa do futebol (falta de nicotina?) nem teria ataques de fúria por causa da lei anti-tabaco (falta de desporto?).

Monday, January 21, 2008

Telefonema

Brincava com a caneta com gestos irritados.
Bruscos mesmo.
E não fora esse detalhe, nada afectaria o ar de controlada serenidade que deixava transparecer.
Indiferente ao calor que levava outros a abanarem-se procurando num leque ou numa folha de papel ao acaso o vento refrescante que a natureza negava.
Indiferente ao ruído persistente das buzinas dos automóveis que permanentemente tentavam criar uma ordem impossível nesse normal caos rodoviário.
Indiferente até aos apelos dos vendedores de lembranças, dos taxistas desejosos de partilharem com os forasteiros os seus conhecimentos pátrios.
Como se a mão não fosse dela.
Ou tivesse vida própria, para além do rosto calmo, do olhar pacato.
De vez em quando levava aos lábios um copo de sumo de cana-de-açúcar.
Agitava-o levemente, sentindo o tilintar dos cubos de gelo, embalando-se nesse som ligeiro que, por breves instantes, a isolavam dos barulhos exteriores.
Pousou, devagar, o copo e logo de seguida, como se fosse resolução maduramente pensada, meteu a caneta no bolso, num jeito seco.
Pegou no telefone.

Sunday, January 20, 2008

Há sempre um tempo para tudo

Nesta tarde cinzenta é tempo de ouvir música e de ler.
Vaya con Dios e Rio das Flores (de Sousa Tavares) para esquecer que falta a luz e a cor.

Friday, January 18, 2008

Mundos

"East, West", de Salman Rushdie, conta-nos, em contos, essa relação de querer/não querer entre a nossa Europa Ocidental e a Índia com que sonhamos e que julgamos conhecer pelos restaurantes indianos que vamos frequentando.
Rushdie explica-nos que a questão é mais complexa. Não, expresso-me mal. Ele não explica, em palavras de sapiência. Ele conta-nos histórias, escritas magistralmente, como ele sabe fazer.
Histórias que, ora nos transportam para os céus cinzentos de Londres, ora nos envolvem em saris coloridos e peles morenas imaginadas em cheiros de especiarias.
E, lido numa praia quente em costas goesas, também eu me senti embrulhada em mundos misturados, o meu e o que não o sendo também o é.
Um pouco.

Thursday, January 17, 2008

Um pouco de Bollywood na minha vida

E o que virá depois da sopa de alho francês?

Tuesday, January 15, 2008

Post sonhado

Disse que era a música e prometeu posts em dó, com claves de sol em jeito de adjectivo.

Falou das cores que lhe encheram os sentidos, ainda que apenas os olhos se tivessem deleitado. Acrescentou-lhes textura para as acariciar, sentindo o calor do laranja e a alegria do amarelo.

Quis descrever sentimentos com sabores de pastel de nata, com cheiro de pāo acabado de cozer, com a ternura de se olhar uma criança.

E sonhou escrever o riso, esse riso fresco de quem ainda vê o mundo com o sabor da descoberta. Esse riso que a surpreendeu pela melodia cristalina como o despertar do sol em dia que se advinha quente e húmido.

Torceu as letras para que elas mostrassem a alma. 

A sua alma. 

Espelho de histórias que nāo têm palavras para se contar.

Monday, January 14, 2008

Música

Ando a descobrir músicas que deveria ter descoberto noutras épocas em que andava a fazer nem sei bem o quê!
Um dia escrevo um post em notas musicais.

Thursday, January 10, 2008

Cores

Há cores que se sentem, que se tocam, que nos tocam, cores feitas matéria, mais reais do que o objecto colorido.

É por isso que gosto de mercados.

Mais do que o movimento, mais do que os cheiros, mais do que a confusão das pessoas, vou em busca das cores.

Que se declinam em frutas, em legumes, em tecidos, em especiarias.

Que se movem e se cruzam, que rodopiam e se misturam.

Sobretudo, que se iluminam em puzzles de sol e sombra e se regateiam em preços desacordados em jogos de desinteresse e sorrisos até ao compromisso final.

Tudo em cores.

Tuesday, January 08, 2008

De volta

Espero que alguém tenha tido a gentileza de ter comido uma fatia de bolo-rei por mim!