Monday, March 31, 2008

Quase de volta

Só me apraz dizer que o tempo passa.

Wednesday, March 19, 2008

Páscoa

Bruxelas acordou adormecida.

E com ar de fim-de-semana longo.

As pessoas enrolam-se nos cachecóis e escondem-se dentro dos casacos, olhos semi-cerrados por causa dos flashes de sol que rompem as nuvens que, sabe-se, trarão chuva. Neve até, dizem os mais pessimistas. Ou os mais informados, quem sabe. Que isto do tempo em Bruxelas, certo certo é a chuva e tudo o mais é esperança de que alguma coisa mude (como muda para que tudo fique na mesma seguindo O Leopardo, frase que muito uso, mas em que penso pouco).

Caminham mais lentamente, como se a diminuição do trânsito na cidade trouxesse uma acalmia ao stresse quotidiano. Que não será da Quaresma, porque poucos recordam esse tempo de recolhimento, de arrependimento, de preparação para a Páscoa que é (é?) mais do que amêndoas e ovos de chocolates e férias. Contra mim falo. Espantada que fiquei quando dei pelo domingo de ramos porque vi ramos nas mãos dos que saíam de uma igreja. Senti que tinha perdido as referências temporais da minha infância, quando o ano se delimitava em estações e em festas, se saltitava de celebração em celebração com momentos de penintência e de jejum, para que as festas soubessem melhor. Penso eu agora! Na altura, isso é tanto foclore como o demais, nunca verdadeiramente sacrifício.

Até os corredores estão mais silenciosos, com a ausência dos que já partiram, a calada excitação dos que vão partir e a resignação dos que ficam, porque, de qualquer modo, amanhã já é feriado e depois também e depois é fim-de-semana.

E eu aqui estou, em silêncio no silêncio reinante, que me convém, que me agrada. Gosto de ouvir os meus próprios pensamentos. Ainda que tal nem sempre suceda, hoje estou bem com eles. E eles em paz comigo.

Depois, logo se verá.

Tuesday, March 18, 2008

Marcadores

Tenho variadíssimos marcadores de livros.
Não obstante, uso sempre aqueles que nos dão nas livrarias, bocados de publicidade a maior parte das vezes.
Ontem comecei a ler um livro que trouxe de Goa e lá dentro estava um marcador, uma foto de uma flor, reparei de soslaio, e não prestei mais atenção.
Quando peguei nele para marcar a página onde ia, notei que havia uma frase inscrita numa das faces: "No entertainment is so cheap as reading, nor any pleasure so lasting".
Concordo.

Monday, March 17, 2008

Ora então explica lá

A Carlota quer saber o porquê do meu blogue!

Posso dizer: porque assim o quis. E, no fundo, essa é a mais pura das verdades. Assim o quis e assim o quero porque a enorme vantagem do meu blogue é que é um hobby, um entre demais, que faço porque quero, quando quero e enquanto quiser.

Mas isto não é uma verdadeira razão: porquê este hobby e não qualquer outro, como coleccionar borboletas ou decorar as letras das canções do Jacques Brel?

Posso dizer igualmente: porque gosto de escrever. Já aqui o disse aliás.

Convenhamos que também esta não é uma verdadeira razão. Não são necessários blogues para escrever. Um qualquer caderno de folhas pautadas serve muito bem. Ou um documento Word, se quisermos dar um ar de modernidade.

No fundo foi a curiosidade que me levou a esta realidade. Nada de muito original! Porque é a curiosidade que faz rodar o mundo. Acho que sim. Se não fosse pela curiosidade, não teria clicado no blogue de um amigo para ver a nova coqueluche da Internet, que unia gente conhecida e muitos desconhecidos na necessidade comum de emitir opiniões.

De página bloguistica em página bloguistica, fui saltitando por esta esfera virtual durante alguns meses, leitora furtiva, bebedora de palavras alheias sem deixar nada em troca.

A admiração, o espanto, por vezes a indignação, levaram-me a comentar com amigos reais esta realidade irreal.

Até que me apeteceu.

Apeteceu-me deixar de ser silenciosa espectadora.

Percebi que a enorme esfera tinha um espacinho para mim, para os meus desabafos de alma, para os meus sorrisos em letras.

Percebi que era uma forma de partilhar, de descobrir, de conhecer, de me espantar, de me revoltar, de me alegrar.

Tudo numa língua que é, como diria o poeta, a minha pátria e na qual me divirto a teclar, dia após dia, post após post.

A quem passo esta corrente? Não sei! Gostaria de a passar, em negativo, a bloggers que suspenderam os seus blogues e que me deixaram com fome dos seus posts. Mas não creio que seja decente fazê-lo. Pararam porque sim, porque quiseram, porque não puderam continuar...

Sunday, March 16, 2008

Por entre letras

Entre guerras e desgraças, notícias de mal estar e de tristezas profundas, circos mediáticos que interessam pouco e mórbidas curiosidades que me dizem nada, vou andando de livro em livro.
Para melhor compreender a realidade que me rodeia. Longe da frieza das análises jornalísticas, sem sentimentos e sem a ilógica lógica feita de sonhos e de medos.
"A long way gone" leva-nos ao fundo do horror e deixa-nos com a esperança de que a salvaçāo é possível. 
Eu quero acreditar que sim.

Thursday, March 13, 2008

Ao sabor da pena

Ao sabor da pena, dá assim aquele ar gostoso de quem passa a língua pelos lábios depois de um mergulho no mar. É um sabor deslizante, sem engulhos, como o leite-creme. Ainda que tenha o açúcar queimado por cima, pois haverá coisa mais deliciosa do que pressentir o doce e saber que se vai colar aos dentes para prolongar a delícia.

Ao sabor da pena, leva-me a tardes ensolaradas a cheirar a maça e a pêssego, a jogar badminton sem preocupações de regras, nem crispações de pontos, só tem que passar a rede, por cima, por cima, repete-se entre gargalhadas.

Ao sabor da pena, traz o cheiro da maresia, quando se abre a janela no final de uma viagem sonhada, sempre repetida e sempre ideal. Quando a baía, ao longe, nos envolve em memórias passadas, que se ambicionam repetir em impossíveis memórias futuras. Quando o presente, no momento de abrir a porta de casa, se desenrola em calor de croissant acabado de cozer.

Ao sabor da pena, são as palavras que se vão escrevendo e lendo, sensações de quem as desenha, com carinho ou com pressa, pequenos recados "volto mais tarde" ou tristes mensagens "não volto mais", notas de vida "bom-dia; espero por ti" ou rascunhos de dúvidas "o que fazemos logo?".

Ao sabor da pena vamos em corrida atrás de ideias curtas e saltitantes, que se espraiam no papel em ritmo de imaginação e se desfazem em fumos coloridos, sem rasto, sem continuação. Ou então, flutuamos em modo de poesia sentido os teus dedos no meu cabelo, entrelaçando os braços em harmonia de sentidos, e deixando que as estrelas nos cubram de pó cintilante.

Deixemo-nos ir ao sabor da pena.

Wednesday, March 12, 2008

Pérolas e golas de pele

Hoje sinto-me como aqueles retratos antigos em que as damas ostentavam pérolas e uma gola em pele, tinham um ar de mistério e enchiam o retrato de perguntas profundas.

Não era possível adivinhar se tinham uma vida de sorrisos ou de lágrimas. Só se sabia que havia solenidade.

Depois, talvez porque não sejamos capazes de viver sem respostas, viu-se aí elegância e discrição.

E assim ficaram os retratos antigos, sem cheiro nem vivência quotidiana, ficaram retratos de elegância e de discrição, com pérolas e golas de pele.

Mas eu não me sinto elegante nem discreta, que isto foram desvios de letras, devaneio de quem não consegue ir direita ao assunto, mentes femininas, dirão alguns, ou então pensarão apenas para evitar olhares de reprovação ou argumentos de defesa.

Sinto-me envolvida pelo ar de mistério que perpassa desses retratos e que nos faz ficar assim a olhar e a imaginar e a efabular.

Acho que deveria escrever poesia. Porque, nesses retratos, as mulheres têm sempre ar de poetisas amarguradas, de almas que procuram sem encontrar e que se encontram em espaços que não reconhecem.

Pois eu acho que elas, tal como eu, têm perguntas para as quais não encontram respostas. Têm respostas que não cabem em pergunta alguma.

Mas devo ser eu a inventar! Decerto também elas tiveram um ombro onde se podiam encostar. Talvez também a elas alguém lhes tenha dito para não se esquecerem disso.

Tuesday, March 11, 2008

Oposições

Falta-me a lareira.
Falta-me a lareira para bem poder apreciar o vento.
Lá fora.
Que se ouve nas danças que ensaia com as árvores e com as mesas e cadeiras que encontra deprevenidas nas varandas.
Que se vê nos guarda-chuvas que se viram e nos cabelos que se soltam.
Que se sente nas frestas que assobiam.
Tenho a manta, o sofá confortável, o silêncio reconfortante.
Falta-me a lareira.

Monday, March 10, 2008

Retrato

Era a forma como segurava a chávena que atraía.
Mais do que o cabelo longo a cair encaracolado sobre o rosto, teimosamente, não obstante as tentativas de o segurar atrás da orelha.
Mais do que os óculos, grandes, fora de moda, a escorregarem pelo nariz como se quisessem, eles, tocar as páginas do jornal.
Mais do que o enorme cachecol enrolado ao pescoço, de lã colorida, a lembrar paragens longínquas da América Latina.
O que prendia a atenção era a forma como enrolava a mão para segurar na chávena. Como se quisesse, ao mesmo tempo, proteger-se do calor da bebida e absorvê-lo. Como se quisesse proteger a chávena, acariciá-la.
Naquele momento, a chávena integrava a mão, a mão pertencia à chávena.
Quando a levou aos lábios, foi o ligeiro estremecimento dos dedos que fez pensar que a mão estava a saborear o gosto do chá.
E a gostar.

Friday, March 07, 2008

Sexta pela graça de Deus

E porque quero, e porque posso, hoje vou ver as cores do arco-íris no cinzento reinante. Yes, I can.

Wednesday, March 05, 2008

Cansado

Cansado de falar com os seus botões, decidiu iniciar um diálogo consigo mesmo, por e-mail.

Frase

Dois monólogos, ainda que em completa sintonia, não fazem um diálogo.

Tuesday, March 04, 2008

Da leitura e dos seus direitos

O Magnuspetrus, não sei se por magnanimidade (como indica o nome), se por pura retaliação (sim, andei a provocá-lo com algumas correntes blogoesféricas!), desafiou-me para ser um elo de mais uma cadeia.

Enunciando os direitos dos leitores, quer ele saber a que livros tenciono eu aplicar esses direitos.

Vejamos:

1. O direito de não ler – Todos os do José Rodrigues dos Santos
2. O direito de saltar páginas – Rio das Flores, Miguel Sousa Tavares
3. O direito de não acabar um livro - Qualquer um da Agustina Bessa Luis
4. O direito de reler - A bend in the River, V.S. Naipaul
5. O direito de ler não importa o quê - Diário de um Mago, Paulo Coelho
6. O direito de amar os “heróis” dos romances - Hercules Poirot, Agatha Christie
7. O direito de ler não importa onde – Na praia
8. O direito de saltar de livro em livro – Uso este meu direito raramente
9. O direito de ler em voz alta – Para declamar! Porque não?
10. O direito de não falar do que se leu - Saio de mansinho.

Quem quer continuar?

Monday, March 03, 2008

Alguém duvida que este é um blogue de uma mulher?


Só me apraz dizer que numa segunda-feira de manhã me sinto extremamente feminina, sem pingo de ironia, sem sentido de humor, sem vontade de escrever nada com qualidade e sem qualquer luz de erudição que me valha.

Agora vou meditar um pouco sobre o meu grau de feminilidade nos demais dias da semana.

Mais logo, aproveitarei para dar uma olhada no espelho, história de verificar alguns atributos exteriores. Que o seguro morreu de velho e ademais, não gosto de facilitar.

Ou então, para que não me acusem de inflexibilidade mental, vou achar que o texto acima carece de profunda hermenêutica e que não diz o que diz.

Dirá outra coisa qualquer!

No fundo, pouco importa.

P.S. E, porque acho que, neste caso, vale a pena, voltam os comentários.