Wednesday, April 30, 2008

Chove

Pois é: chove!
Ainda assim, e revelando o meu optimismo nato, reservei um campo de ténis para logo à tarde.
Se chover, vou para casa regalar-me com a LER, em papel, que mão amiga me trouxe da Pátria.
Fico sempre a ganhar.
Até porque amanhã é feriado!

Tuesday, April 29, 2008

Realidade

Eu vejo as coisas como eu as vejo.
Não posso garantir que as veja como elas são.
Vejo-as através dos meus gostos e dos meus desgostos, através das minhas experiências e das minhas lacunas.
Vejo-as à luz de outras coisas parecidas ou dissemelhantes. Por comparação ou oposição.
Vejo-as com a minha escala de cores.
Sei o que vejo. Mas não sei se tu vês o mesmo que eu.

Monday, April 28, 2008

Fim de semana

O sol veio e aqueceu.
Não sou ingrata.
Instalei a chaise longue, pus os óculos de sol, peguei num livro e regalei-me.
Mas a história de John Franklin não me prende o suficiente para impedir a moleza que se instala.
Fui buscar música, fui buscar outros tempos. Fui ouvir Chico Buarque.
A relaxar do exercício matinal, a deixar o cérebro dançar ao som do violão do Chico.
Nas redondezas, risos de crianças e máquinas de cortar relva.
...
Hoje chove de novo.

Friday, April 25, 2008

Resignação

Estou a trabalhar.
Porque, apesar de aqui ser dia 25 de abril não é o 25 de Abril!
Se me faço entender...
Pois gozem o feriado e o sol e o calor e mais essas coisas todas que não interessam a ninguém... (diz ela tentando reter as lágrimas).

Thursday, April 24, 2008

PSD

Cada vez que leio algo sobre o PSD lembro-me dos meus entusiasmos juvenis. E fico indecisa entre achar que o PSD se recompõe, porque sempre o fez, e pensar que, de facto, envelheci.

Wednesday, April 23, 2008

Conto a conto (6)

Pousou o livro nas pernas.
Segurava-o com a mão, o polegar marcando a página onde ia.
Ergueu a cabeça; tinha um ar de espanto. Não, era mais de surpresa.
Este livro foi escrito para mim, pensou.
Olhou-me e disse:
"Este livro foi escrito para mim".
Estranhei.
"Conheces o autor?"
Que não, disse-me, mas que sabia que o livro tinha sido escrito para ela.
Contrariei.
"Disparate".
Olhou-me ofendida.
Agarrou no livro, percorreu as páginas, nervosamente, fez um ar de alívio quando encontrou o que procurava e olhou para mim com ar desafiante.
"Ora ouve."
"Tinha medo. Medo do desconhecido. Medo de que se transformasse no conhecido. Por isso se controlava. Por isso temia alargar-se nos seus sentimentos, instalar-se no conforto de uma certeza."
"Vês? Sou eu!"
E antes que lhe pudesse dizer que seria ela e mais uns milhares de pessoas que assim pensavam, que o autor nem sequer era original, recomeçou a citar.
"Mas aceitou. Quis acreditar que ainda era possível. Nas voltas da vida, era agora a sua vez de rodar"
Repetia "Isto sou eu", "Isto é para mim", sem parar, sem me dar tempo para intervir.
"Ouve", "ouve", insisti para conseguir a sua atenção.
"Essas frases são de uma banalidade sem fim, não visam nada nem ninguém".
Olhou-me incrédula.
"Nem sequer são dignas de um livro", acrescentei. "São frases de literatura barata, sem nível! Perdes o teu tempo a ler essas coisas."
Levantou-se irritada e insultou-me com os olhos.
Tentei corrigir a situação.
"Acho que um escritor não escreve para ninguém em especial. Talvez escreva para si próprio. Para se exorcizar. Ou então escreve para todos os que o lêem. Conta-nos uma história. Inventada ou sua. Mas nunca a história de cada um de nós".
Não quis continuar a ouvir-me.
Saiu magoada.
"Dizes isso porque nunca ninguém escreveu para ti!"

A propósito...

Já há tulipas nos jardins de Bruxelas.

Tuesday, April 22, 2008

Noite de insónia

Tinha os olhos abertos, muito abertos, tentando, em vão, ultrapassar a falta de luz.
Tinha os ouvidos atentos ao silêncio.
Procurava distrair-se.
Queria dormir.

A fresta da porta deixava passar uma claridade ténue.
Na rua, um raro carro que passava fazia-lhe companhia.
Virava-se na cama.
Não queria pensar.

Levantou-se.
Por hábito, bebeu água.
Olhou pela janela para a noite lá fora.
Suspirou pelo dia que ainda estava longe de chegar.
Ligou a televisão.
Baixinho para não incomodar.

Sentia o cansaço mas o sono recusava adormecer-se.
Esticou-se no sofá e fechou os olhos.
A fingir uma calma que não sentia.
Teve frio.

Voltou para a cama.
Afundou-se na almofada e colou-se aos lençóis em desespero de salvação.
Queria dormir, queria dormir, queria dormir.

Monday, April 21, 2008

Eureka

A Sinapse iluminou-me!
Encontrei explicação para os atrasos sistemáticos da TAP: virou americana!
Só assim se explica a absoluta falta de consideração pelo tempo dos passageiros, de que a TAP põe e dispõe como se fosse dona dele.
E eu a pensar que era pura incompetência! Falta de organização! Desleixo!
Que nada.
Tudo mais não é do que uma questão de nacionalidade. E o nome Portugal é só para enganar os tolos...

Wednesday, April 16, 2008

Recomendações

Segui o conselho do Magnuspetrus e deliciei-me com as aventuras de Shantaram.

O livro, um romance baseado na vida do autor, fez-me pensar que há aí, ao lado do nosso mundo normal, um outro mundo, com outras regras, com outros princípios, com outros códigos.

Um mundo de crime.

No entanto, também nesse mundo se sofre e se ama. E se morre!

Tuesday, April 15, 2008

Viró disco e toca o mesmo

E os italianos lá escolheram mais do mesmo!
Estarão a jogar pelo seguro? Sempre é um mal conhecido!

Monday, April 14, 2008

Book club

Giro, giro é falar sobre um livro num grupo onde uns não gostaram do que leram e outros acharam fascinante.

Realtivamente a The Cleft de Doris Lessing, houve quem dissesse que o escolheria caso tivesse que levar um só livro para uma ilha deserta.

Para outros, é uma obra menor da escritora.

Há, de facto, gostos para tudo.

Friday, April 11, 2008

Sem acordos ortográficos

Admito.

Gosto do brasileiro, o sol feito língua, assim nos aquecendo, provocando um sorriso, inventando um galopar de imagens na nossa mente (tou nem vendo, só imaginando mesmo, né?).

Gosto da língua tropicalmente se enriquecendo por essa África fora, desconseguindo de me baralhar, só me espantando a cada instante de invenção, de criação. Fazer mesmo mais o quê?

Gosto do nosso português de séculos, evoluindo suavemente como fado melodioso, agarrando-se com força de raízes histórias às letras mudas, que espelham a minha formação, feita de histórias e de actos.

Gosto dessa diversidade de me sentir em casa nesses cantos do mundo que nós arredondámos. De descobrir o que é o "tico-tico no fubá", de não criar "makas", de beber sumo de cana-de-açúcar.

Gosto também de me espantar com o "Bom dia" do papiamento de Aruba, Bonnaire e Curaçao, de me entusiasmar com o Arigato japonês, de me emocionar com o Kristang de Malaca (e com o peixe à portuguesa, delicadamente pousado numa folha de bananeira, no Restaurante Lisboa).

Gosto de me procurar nos vestígios de Mombaça, Maurícias, Seychelles onde as memórias dos portugueses são mais longas que os feitos do Cristiano Ronaldo.

Gosto da língua portuguesa, minha pátria, língua viva feita vento, feita aventura, flexibilizando-se para abarcar o mundo, para que este caiba nela, assim se reforçando e crescendo, favorecendo afectos e aproximações.

A minha língua portuguesa, a tua língua portuguesa e a tua, e a deles e a desses tantos outros que nela se expressam e se acordam. Hoje mesmo. Sem acordos ortográficos.

Fachada do prédio

Cinzento foi a cor decidida. Por maioria. Senhores de ditadura implacável. Cinzento será.
Mas não muito escuro, sugeriu alguém.
Muito claro também não pode ser, aconselhou outro.
Médio, acalmou a maioria.
Mais uma vez ditatorial.
Seja.
Cinzento médio será.
Pois, mas há varios cinzentos médios, alvitrou alguém.
(Começo a fumegar).
Talvez um cinzento azulado, arredondou uma menina, em tons de delicadeza.
E porque não dois tons de cinzento?
(Olha, agora deu-lhe para os dégradés...)
Evitando a confusão, a maioria, em voz de ditadura, decidiu voltar ao cinzento médio.
Prossiga a reunião
...
E voltando ao cinzento, talvez umas amostras, de vários tons...insistiu alguém.
E umas nuvens, desesperou o do lado, umas nuvens para confundir com o céu?
Claro, acrescento, e num canto a inscrição "ceci n'est pas un graffiti".

Wednesday, April 09, 2008

E-mail

Recebi um e-mail de alguém cujo rasto fui perdendo.
Era um convite para uma festa.
Pelos demais convidados vi que a minha vida se descruzou da de muitas pessoas, sem que disso me tivesse apercebido.
Achei que não devia desviar o meu rumo para tocar de novo essas linhas passadas.
A vida é, muitas vezes, como no surf. Podem recordar-se boas ondas, mas não surfá-las de novo.

Monday, April 07, 2008

Conto a conto (5)

Todos a conheciam como a senhora da casa grande.

Não parecia nome que colasse, vendo o seu sorriso doce, o seu jeito afável, repousado e discreto.

Falava pouco, sorria apenas e assentia com um gesto da cabeça ao que se dizia.

De vez em quando, o olhar perdia-se para lá da saudade, em sombras de tristeza e nostalgia e, nesses momentos, contava histórias de outros tempos, tempos em que a casa grande vivia e gargalhava, cheia de pais e de filhos, de criados e de visitantes de passagem, em negócios, em interesses.

Lembrava-se da última festa. Que vivera em entusiasmo de não a saber última. Agora recordava-a em cores de sépia e de arco-íris: nesse passado onde tudo estava em ordem e todos estavam vivos.

Envelheceu ao contar esses contos passados.

Rejuvenesceu quando recordou o curso de direito tirado quando as mulheres se reservavam ainda a trabalhos mais domésticos, sem letras nem canetas. Nesses tempos idos em que estudara como desafio, para se provar, para marcar um lugar nessa casa grande.

Deixaram-na ir. Que ocupasse o tempo enquanto o tempo a não ocupasse a ela com choros e fraldas, com responsabilidades de camisas por passar e de jantares para orientar.

O sorriso doce era agora decidido, alongando-se em códigos e leis, considerações políticas e opções de sociedade. O passado colava-se ao presente, à sua actividade diária de clientes e de barra.

Que já não era hoje, contudo.

Porque a notícia viera imprevista, fria e directa "morreu a senhora da casa grande".

E ele sentiu falta de ouvir as palmas da senhora da casa grande a chamar a Filomena e a pedir um sumo de manga fresco para o senhor doutor, e para mim, um chá.

Ambiente

De Portugal chegaram vozes ensolaradas e veraneantes durante todo o fim-de-semana.

Por aqui, frio e chuva, chuva e frio.

É assim, essa coisa do aquecimento global não deveria ser para todos? Até por uma questão de solidariedade...

Friday, April 04, 2008

Sexta pela graça de Deus

Sonho com o momento de me enroscar nos braços dos meus livros e de esquecer o cinzento.

Thursday, April 03, 2008

Conto a conto (4)

Estava sentada e escurecida.

Como se a luz fugisse dela. Como se soubesse que era necessário recolher-se para não se reflectir nas rugas e nas lágrimas. Como se tivesse medo de alumiar desgostos, mágoas.

É sabido que se se quiser acentuar o lado trágico da história se deve diminuir a luz, desenhar lá fora trovões e relâmpagos, chuva intensa. Parece que calor escaldante também serve. Sobretudo se fora de época. O que é preciso é transmitir desconforto, espíritos encolhidos ou derretidos, receio e surpresa.

Calo-me. Tento ouvir a chuva a bater nas janelas ou o trovão a ribombar nos céus. Mas só impera silêncio. Pesado. Imposto. Nem ela, sentada ao fundo da sala, enche o espaço com algum suspiro que seja.

Inquieto-me. Espero que o silêncio me dê o cenário de tragédia de que preciso. Esforço-me por pintá-lo de preto, por evitar que por ele passem notas de música ou sons de fala. Espero, caros leitores, que contribuam também e que se abstraiam de ruídos exteriores. Desliguem os telefones e carreguem nas teclas devagar, devagarinho.

As mãos estão desalentadas no regaço. Só se movem em redor de um lenço que, de vez quando, levam à cara. Será para enxugar lágrimas? Para aliviar do suor? Ou apenas movimentos como sinal de vida, repetidos sem sentido, só para prender aquele corpo imóvel e escurecido a este espaço. Aproximo-me.

Persisto em manter esta atmosfera trágica apesar de nada saber. Para mim a escuridão é sempre trágica, é sempre triste. Por enquanto é assim que quero a cena.

Ela virou-se. Lentamente. E falou.

Não sei o que fazer. Pensei em voltar atrás e em cortar esta última frase. Como se atreve a minha criação a assim iluminar o meu texto com falas? Querem ver que ainda se atreve a sorrir?

E sorriu!

Entendimento

Tentam-se palavras, tentam-se gestos e olhares, tentam-se sons.
Entoações, paragens, sublinhados.
Tenta-se tudo.
A clareza da prosa.
O onírico do poema.
A lógica do discurso.
A criatividade da frase.
Mas não há como dizer o que não se consegue dizer.

Wednesday, April 02, 2008

Há dias

Há dias em que o cinzento inventa frestas para entrar em todas as almas: até parece que a luz se amarelece e que a vontade se esfarela em falta de força.

Tuesday, April 01, 2008

Compensações

Se a TAP tivesse que me indemnizar cada vez que se atrasa, eu já não trabalhava! Vivia às custas da TAP...