Friday, May 30, 2008

Sexta pela graça de Deus

Até as sextas podem ser assim: cinzentas e chuvosas.

Tuesday, May 27, 2008

Conto a conto (9)

A menina descobriu que havia um mundo para lá das palavras. Um mundo que ela podia construir e destruir e reconstruir. Um mundo que ela podia inventar, onde tudo era possível.

Isso descobriu a menina.

E começou a brincar com as letras. A divertir-se com os sons e as rimas. A embalar-se com o ritmo.

De caderno em caderno, de folha em folha.

Por vezes, a menina achava que não valia a pena e rasgava esses desenhos de letras feitos histórias e poemas.

Por vezes, a menina enternecia-se com as letras arredondadas da sua infância, com a seriedade da tinta permanente da sua juventude.

Um dia parou.

A vida continuou e, um dia, a menina julgou que tinha encontrado, de novo, um mundo para lá das palavras: um mundo de cores no meio do cinzento, de sonhos a fugir da realidade, de risos e sorrisos sem peso de coisas sérias.

A menina tornou a acreditar que, nesse mundo, tudo era possível.

Mas não era.

E a menina parou.

Indiana

A vida seria mais fácil se fosse como os filmes do Indiana Jones: os maus evidentemente maus, os bons obviamente bons, as balas só acertam nos maus, os bons escapam sempre e no fim os maus morrem e os bons casam e são felizes ever after.

Monday, May 26, 2008

Challenge

Aceitei o desafio.
Preparei-me.
Metodicamente. Disciplinadamente. Mesmo quando não me apetecia.
Fui tendo dúvidas à medida que a data se aproximava.
E medo.
Medo que o o corpo me falhasse.
Porque a mente sabia que ia lá. Que ia conseguir.

Friday, May 23, 2008

Sexta pela graça de Deus

Porque, apesar de tudo, as sextas sempre chegam.

Thursday, May 22, 2008

Cerejas

Já andam por aí.
As primeiras da época, ainda ostentando o brilho da novidade.
Quando as vi, sorri. Não me contive. Nem sequer tentei.
Para mim, são o sinal de que um novo ciclo começa; da melhor forma possível, anunciado pelas cerejas.
Ainda não as comi.
Espero pela altura ideal.
Até lá, vou-me deleitando com a imaginação, procuro as mais escuras, sinto o toque suave e deslizante, trinco-as com calma deixando que o sumo me encha a boca desse gosto sonhado. E vejo-me ao sol, lendo um livro, conversando com quem gosto e comendo uma e mais uma e ainda mais uma porque, todos sabem, as cerejas e as palavras ...
Talvez as compre este fim-de-semana.

Tuesday, May 20, 2008

Conto a conto (8)

Quem olhasse, via apenas uma menina a correr.
Cabelo solto e um sorriso fugídio que, por vezes, parecia feliz.

Se lhe perguntassem, dizia que andava à procura de uma borboleta, a mais bela de todas, a mais colorida, com asas rendilhadas que esvoaçavam em passos de ballet.

Viram-na? Ela perguntava, insistia, viram-na?

Tem as cores do arco-íris, a suavidade do algodão, a elegância de um fim de tarde na montanha.
Tem a ternura de um ombro amado e a delicadeza da esperança renovada.

Viram-na?

Se, por acaso, encontrarem a menina, não lhe respondam. Não lhe digam que, por mais bela que seja uma borboleta, nenhuma há que corresponda a tal descrição.

Deixem-na continuar à procura.

Ruínas

As notícias repetem-se em desgraça e destruição.
Provando que a natureza tem armas mais letais do que a imaginação humana.
Por nós, pelos nossos olhos protegidos pela calmaria deste bocado de mundo, passa o horror da fome, do frio, da ordem que se desorganizou.
Hoje, ao pequeno almoço, fiquei presa a uma foto, de uma chinesa (uma mãe, uma avó?) pendurada no que restava de uma parede que antes fora casa, fora lar.
Por muito que apregoemos que se deixem ir os anéis desde que se salvem os dedos, sabemos que há muito de nós nesses anéis!
Daí a importância que damos aos pronomes possessivos: é meu! é minha!
De repente, se a natureza assim o entender, deixa de ser. Num piscar de olhos.
Depois nada mais resta do que, pombalinamente, enterrar os mortos e cuidar dos vivos.
E recomeçar.

Monday, May 19, 2008

À espera

Sentada na areia, a olhar o mar, essas ondas sempre diferentes e sempre iguais, crescendo em direcção à praia até se derreterem em espuma e salpicos, ela esperava.

Deixou que o sol a abraçasse, uns braços quentes e acolhedores em que se perdia sorrindo.

Brincou com os dedos na areia, sentindo-a escorrer, vendo-a voar. Procurou mais fundo os grão húmidos e apertou-os com força. O vento não os arrancou da palma da mão e ela esfarelou-os desinteressada.

Respirou o vento norte, salgado, que tão bem conhecia. Sentiu-o frio.

Abraçou-se aos joelhos, enroscando o calor em si e ficou a ouvir o mar.

Continuaria sempre à espera.

Zélia Gattai

Os escritores não morrem.
Revivem a cada dia, nas letras que escreveram, nos livros que nos deixaram.

Sunday, May 18, 2008

Pequeno apontamento

Havia música.
Ao vivo.
Voz cristalina que se enrolava em harmonia com os sussuros e os goles de cerveja.
Corpos que se movem ao ritmo sentido, sem propósito, ondulando sem querer.
Reparou nela.
O longo cabelo moreno, um sorriso permanente nos lábios.
De vez em quando, abandonava a música e enrolava fios de conversa.
Perdia-se em gargalhadas mudas.
Porque não chegavam onde estava, de onde a observava discretamente. Mas via-se que eram gargalhadas felizes. 
Felizes como as mãos que se entralaçavam.
Felizes como a voz que cantava.
Todos indiferentes à chuva que persistia em cair, lá fora.

Friday, May 16, 2008

À espera

Que chegue "Sex and the City: The Movie".

Thursday, May 15, 2008

Por acaso tenho pena

Terei pena se a Feira do Livro não se realizar.
Não obstante não ter programado lá ir este ano, a Feira do Livro é, para mim, o subir e descer do Parque Eduardo VII, o descobrir os livros do dia, o deleite dos pavilhões dos alfarrabistas, a ilusão dos preços baixos que justifica todas as compras.
Também é ver os escritores em carne e osso, humanizar essas criaturas de que conhecemos o nome e o génio.
Também é olhar em volta e sentir que estamos integrados num mundo de gente que gosta de livros.
Também é levar as crianças e desejar que os "nossos" livros da Verbo infantil sejam, um dia, os livros deles.
É olhar para o céu e desejar que não chova.
É sentir a Feira de tarde e de noite, gozando o clima lisboeta de Primavera instalada.
Se me obrigarem a pensar, sem ser com a cabeça repleta de reminiscências do passado, sou capaz de ver o primitivismo dos barracões, o amadorismo dos contactos com os escritores, a iluminação deficiente.
Mas longe, nesta Bruxelas outra vez cinzenta, eu quero apenas sentir a minha Feira do Livro.

Wednesday, May 14, 2008

Capaz de gostar

Sou pessoa discreta.

Tenho as minhas coisas, os meus gostos.

Como todos.

Há coisas de que gosto muito.

Não que ande para aí a apregoar, mas gosto mesmo muito.

Uma delas é a canção "Malaika".

Gosto tanto que tenho umas sete versões em casa.

E continuo à procura de mais.


Enfim, talvez não goste o suficiente para aprender a pôr música no blogue!

Coisas que não entendo

Porque é que, estando calor lá fora, eu morro de frio cá dentro?

(Maldito ar condicionado)

O post possível

Ainda está sol!
Mas parece que os ventos estão a mudar.
Logo, hoje está sol.
Amanhã, não sei.

Tuesday, May 13, 2008

Conto a conto (7)

Se quiser escrever em mais de um tempo bastará dividir o conto em manhã, tarde e noite?
Ou serão precisos dias, semanas, meses, anos até?
E, no final, será um conto?
Ou será um romance?
Uma novela, talvez.

Enredada nestas dúvidas não deu conta que o tempo passava.

Assustou-se quando sentiu um arrepio de frio. Não se apercebera que o sol se havia retirado discretamente em longo crepúsculo de Verão.

Andava preocupada com estas questões. Não encontrava uma solução.

Mas era essa a tarefa, escrever com tempo. Com tempos. Qualquer coisa que fosse mais do que um momento, um instante.

Como se o tempo não fosse uma colecção de instantes, uns atrás dos outros, uns ao lado dos outros, num complicado colar nunca acabado até ao dia em que se deixa por acabar.

Vestiu um casaco de malha e foi buscar o computador.

Tentou escrever um conto gráfico, assim como quem desenha com palavras:

De manhã

- Ele acorda

- Enquanto toma o pequeno-almoço repara, ainda ensonado, que tem uma mensagem no gravador.

- Estranha: não ouviu tocar o telefone.

- Será de ontem? Mas ele sempre verifica se tem mensagens quando chega a casa!

- Se for de hoje, talvez tenha sido quando esteve a tomar duche.

- Ouve a mensagem.

De tarde

- Transtornado com a mensagem, alterou o seu programa.

- Por isso, faltou ao encontro que havia marcado na semana anterior.

- Comprou uma lembrança (chocolates?)

- Distraído, chocou com o carro da frente.

De noite

- Tentou, em vão, telefonar.

- Para dizer que estava disponível para o que fosse preciso.

Releu o gráfico e teve a sensação que agora tinha um instante maior, que se desenrolava num dia, mas não mais do que um instante.

Talvez se introduzisse mais personagens.

Voltou ao gráfico e acrescentou

1. Ele (terá nome?)
2. A voz da mensagem (Sofia)
3. Faltou ao encontro com quem? Carlos!
4. A lembrança será para Sofia? Ou acrescento mais alguém?
5. A condutora do carro da frente (Ângela).
Pelo caminho logo aparecerão mais personagens se necessário.

Tentou um começo:

"Ele acordou como habitualmente, ouvindo as notícias de BBC na rádio. Entre as desgraças na China e na Birmânia, nada de realmente importante.
Recordou-se de que tinha um encontro importante, de tarde, e decidiu vestir o fato cinzento claro com a camisa rosa.
Na sala, enquanto bebia com deleite o café, viu que o gravador o alertava para uma mensagem.
Era capaz de jurar que tinha verificado de véspera, quando chegara a casa, e que não havia mensagem alguma! Terão telefonado enquanto tomava banho?"

Que dia é hoje?

Ontem andei o dia todo a pensar que era domingo!
Hoje, consequentemente, é segunda!

(Os feriados baralham-me!)

Monday, May 12, 2008

Exames

Os britânicos andam preocupados com o stresse que os exames escolares provocam nas crianças. Vozes advogam mesmo que os exames não deveriam existir.
Conheço esse stresse: sou totalmente alérgica a exames! Mas fiz muitos durante o meu longo período escolar e muitos continuarei certamente a fazer pela vida fora. 
Porque a vida é feita de exames e de testes.
Como preparar as pessoas para os exames da vida se a escola deixar de os ter?

Sunday, May 11, 2008

"Todo o mundo é composto de mudança"

Se o mundo roda, os rios correm para o mar, as estaçōes do ano se sucedem, os dias anoitecem e as noites amanhecem, porque achamos que a vida deve ser estável?

Friday, May 09, 2008

9 de Maio

Este ano a Europa celebrou-se com sol. E calor. 
Assim vale a pena celebrar!

Wednesday, May 07, 2008

Também de repente

De repente surge o mail frio e inapelável, anunciando notícias tristes. 
E enquanto a recordação perdura, mantemos o firme propósito de viver a vida em pleno.
Depois, a própria vida se encarrega de nos temperar os ímpetos: continuaremos a viver como se não houvesse fim.
Até ao fim.

Tuesday, May 06, 2008

De repente

Quando se dá por ela é Maio e a Primavera entra-nos pela vida adentro!