Tuesday, December 23, 2008

Não consigo ser original

Desejo-vos um Santo Natal e um Ano de 2009 pleno de coisas boas.

Monday, December 22, 2008

Reflexo

Fez o gesto de puxar a franja para o lado ao ver o seu reflexo na bola de Natal.
Só depois se admirou com o tamanho da bola, enorme, com um dourado muito brilhante.
Viu, reflectidas, as pessoas que passavam atrás de si, apressadas, sem tempo para um olhar, sem pausa para um espanto, como se estivessem habituadas aos festejos de Natal e a bolas douradas gigantes.
Procurou nas mãos sacos de papel com fitas e laços a sair por fora. Seria esse o motivo da pressa, a compra de mais uma prenda ainda não decidida. Mas as mãos não tinham poesia, eram mãos do dia a dia, umas nos bolsos, outras a segurarem carteiras e sacos do supermercado.
Concentrou-se, de novo, na franja que teimava em cair.
Puxou-a para trás, com cuidado até os seus olhos se prenderem no olhar daquela criança que se espantava com o brilho da bolha, talvez com o tamanho.
Ou talvez com as suas mãos vazias de prendas e ocupadas a arranjar franjas.

Friday, December 19, 2008

Sexta, pela graça de Deus

O sol, em intervalos de cinzento, está aí.
Será sol de pouca dura, dizem. E encolhem os ombros em resignação invernal.
Eu, que acordei com chuva e que já não creio em sóis de Inverno, fiquei surpreendida.
Vou olhando pela janela e sonhando com dias mais quentes.

Wednesday, December 17, 2008

Cores

Não sei se me fascinam mais as cores ou os nomes que as descrevem.
Talvez ambos.
Só sei que me deixo embalar pela poesia de um rosa-velho, pela força de um vermelho-vivo, pela delicadeza de um branco-pérola.
Sinto o peso de um cinzento-chumbo, a estranheza de um preto-azeviche, a indecisão de um branco-gelo com os seus reflexos azuis.
São mais do que nomes, são descrições, são imagens.
São mais do que cores, são sentimentos e emoções.

E agora que a noite se aventura para deixar tudo pardo, escrevo em sépia, que sonho com o amarelo-torrado.
Ou será laranja?

Monday, December 15, 2008

Conto a conto (16)

Esta é uma história do tempo em que as histórias eram a preto e branco.
Numa casa igual a tantas outras.
Com gente que vestia camisolas grossas e se aquecia à volta da lareira.
Havia um presépio.
Feito com devoção como se faziam as coisas nesse tempo.
Não havia luzes, nem fitas douradas.
Ainda que houvesse, o dourado ficaria cinzento nesta história a preto e branco.
Havia crianças que ansiosamente contavam os dias para o Natal, para as prendas, porque há coisas que não mudam com o advento das cores.
Uns dias antes, não sei quantos porque o tempo apaga da memórias esses detalhes, apareceram uns presentes com uns grandes laçarotes ao pé do presépio.
Os olhos das crianças arredondaram-se e iluminaram-se.
O Menino Jesus passara por ali; naquele tempo ainda não havia Pai Natal, nem Coca-Cola. Havia o Menino e chocolate quente que se bebia olhando a neve. Qua caía branca.
Depois foi a tradição, que ainda era o que era: missa do galo, doces e sorrisos, votos e cumprimentos. Gritos de satisfação quando os laços se desfaziam.
Mais tarde chegariam as Janeiras, os Reis.
E tudo voltaria a ser como dantes.
Até ao próximo conto de Natal.

Thursday, December 11, 2008

Conto a conto (15)

Tinha uma ideia.
Começou por ser uma curiosidade.
Pequena.
Que desenvolveu por ter tempo a mais.
Hoje é fácil alimentar estas curiosidades, ainda que pequenas, com alguns passos no teclado e uma passagem, que começou por ser breve, no mundo virtual.
Foi indo ao sabor das ligações que o computador lhe foi abrindo e decobriu um nome, depois uma família, depois uma profissão...
Outras curiosidade nasceram e esta ficou adormecida no monte das informações sem utilidade.
Um dia alguém disse algo e a curiosidade acordou e esticou o seu saber.
Ela quis saber ainda mais.
Teclou por aqui e por ali e acabava sempre naquela colecção de factos que já sabia.
Teve então uma ideia.
E imaginou um rosto, pintou-lhe a cor dos olhos, compôs-lhe o penteado, vestiu-lhe uns jeans e uma camisa aos quadrados. Colou-lhe a informação que sabia: era jornalista e chamava-se Martim.
Agora que tinha tudo, que o conhecia, decidiu telefonar-lhe.
Inventou um número de telefone e disse que o tinha descoberto e que queria saber se ele era como ela o tinha criado.
Ele espantou-se. Como soube o meu telefone perguntou e não acreditou na invenção.
Ela insistiu, conheci a sua tia, queria saber mais de si.
Também invenção essa tia, desconfiou ele, que não, que nada, ela tinha-a conhecido, senhora fina, de humor cáustico e pouco paciente para gente burra, aposto que é como ela, disse. Por isso tinha que falar consigo. Sinto saudades da sua tia, sabe!
Mas não há tia alguma, desesperou ele, eu não conheço tia nenhuma.
Eu posso falar-lhe dela, se quiser. Da sua inteligência viva, do seu jeito arrebatado de contar histórias passadas como se fossem agora, das suas opiniões arreigadas, do seu trabalho afincado para manter, enfim, para manter tudo, a casa, a família durante esses tempos conturbados.
Que tempos conturbados? Está a falar de quê? De quem?
Conto-lhe tudo, prometo, assim que inventar um lugar onde nos possamos encontrar.

Tuesday, December 09, 2008

Desafio

O que não é bonito.

Mas, Marília, não é fácil responder ao teu desafio, num blogue só de letras feito, quando a primeira condição é postar uma foto!

As demais condições (escolher um cantor ou banda; responder às questões com músicas desse; passar o desafio a quatro bloggers) são viáveis mas a foto...

Resta a imaginação.

Aí vai a minha resposta:

Decidi pôr os óculos, com aros pretos. Acredito que se consigam ver os olhos, castanhos, ainda que tenha demasiada tendência a escondê-los com os cabelos, também castanhos (porque antes eram e porque agora quero que sejam). Talvez se vislumbre alguma discreta ruga na testa, se estiver concentrada no que faço. Por vezes sorrio para as fotos, mas não me parece que aqui o faça. E se alguém se detiver a estudar mais detalhes, talvez se vislumbre um brinco. Mudo-os todos os dias. Os de hoje são verdes. Imaginemos que a foto é de hoje. Talvez se veja um brinco verde por causa deste meu hábito de prender o cabelo atrás da orelha. Mas não é garantido. Quando me lembro, puxo o cabelo para a frente; decerto o faria para a foto.

Continuemos o desafio.

Escolho Maria Bethânia porque foi uma descoberta algo recente mas muito forte. Decidi vê-la ao vivo (um dia em Lisboa) e fiquei presa à força da música e das letras (porque a Sophia de Mello passou por ali) e à força da voz, maior do que o corpo esguio, que me envolveu e me enfeitiçou.

Não tenho palavras para responder às perguntas, nem vou nomear novos desafiados.

Vou apenas desafiar todos os que quiserem a procurarem um espaço quente e silencioso, a instalarem-se confortavelmente e a escutarem o Mar de Sophia.

Compreenderão a minha falta de palavras.

Monday, December 08, 2008

Lago dos Cisnes

Fugi do frio.
Neste momento as ruas são só de passagem. Ninguém se detém. Exagero, talvez. Pode ser que alguém páre para ver as luzes de Natal.
Eu já as vi. Além disso, chovia. Pequenina, chuva miúda, mas a intensificar o frio e o desconforto.
Quando me sentei não pude deixar de reparar na decadência do Cirque Royal. Enquanto esperava fui imaginando esplendores passados nos buracos da alcatifa vermelha, vestidos de noite nos estafados estofos, magia e ilusão nas luzes e holofotes, ferrugentos e fatigados.
Depois, foi a leveza do Moscow City Ballet.

Livraria

Era sábado e chovia.
E era noite.
Porque nesta altura, a noite domina o dia e escurece-o quando ainda vem longe o tempo de dormir.
Na livraria, as luzes impediam o escuro de entrar.
O que me agrada.
Mais do que o calor é a música que nos acolhe: piano. Acordes que se encaixam com o cheiro do café e as pilhas de livros.
Sabia ao que ia. Desta vez não fui passear pelas avenidas dos livros à espera se ser tentada por algum título, alguma capa.
(Tantos livros que se compram pelas capas, que se rejeitam pelas capas. Sou assim, influenciada pelas cores, pelo design, mais pela sobriedade do traço e nessa altura procurava a elegância das edições Gallimard).
Le Clezio seria, decisão do clube de leitura, para descobrir o prémio Nobel.
Optei por uma edição de bolso, mais barata.
Deixei que a lucidez imperasse.
Mas não gosto da capa.

Alçada Baptista

Recordo como minha a sua "Peregrinação Interior".
Deveria reler este livro.

Friday, December 05, 2008

Sexta, pela graça de Deus

O tempo invernal que se anuncia não me impedirá de ir ver mercados de Natal.
Tenho dito.

Thursday, December 04, 2008

Post it

Il neige.

Wednesday, December 03, 2008

Espanto

Decididamente, vou deixar de me espantar com o facto de me espantar. Vou mesmo esperar que tudo aconteça porque, assim como assim, tudo acontece desde que seja possível e imaginável e todos sabemos que tudo, mesmo tudo, é imaginável e logo possível.
Aliás, o poeta confirma que o sonho comanda a vida e nestas coisas não há que duvidar, nem convém, porque todos gostamos de sonhar e ainda mais de sonhos tornados realidade.
Passarei portanto a olhar a vida, os seus episódios e momentos, as suas acções e reacções com um espírito aberto, tudo é possível, tudo é provável, sem pestanejar nem me agitar.
A respiração continuará calma, os ombros não se encolherão e o cérebro nada registará de anormal.
Isto acontecerá assim que acabar de escrever este post!
Prometo!
Mas agora deixem-me só contar que, além dos biciclistas que não respeitam o código da estrada, que andam por aí como se fossem imortais sem luz nem capacete, no outro dia cruzei-me com uma que, ademais disto tudo, ainda ía a falar ao telefone...
Pronto.
A partir de agora deixarei de me espantar.

Tuesday, December 02, 2008

Repensar

Volta que não volta apetece-me parar. Deixar isto.
Acontece nos momentos em que não percebo a utilidade de escrever e de ler o que blogocircula neste mundo virtual.
Não descubro tempo para dedicar a estas letras, outras, mais reais, se levantam.
O esmorecimento é, por vezes, cada vez mais raras e, por isso, muito queridas, abanado por um post, uma frase, uma ideia...se não, impera o tédio.
Por enquanto, emudeço-me.
Logo verei, mais tarde.

Monday, December 01, 2008

Números

Para mim tudo é letras. Só elas têm sentido.
No domingo, lá fui para mais uma reunião do clube de leitura.
Um novo membro, menina mais completa, dada também a números, ficou curiosa: se o clube tem 4 anos ao ritmo de 10 livros por anos, têm um passado literário em comum de 40 livros!
Dito assim, impressiona.
O número e o raciocínio.
Eu seria incapaz de pensar tal coisa...