Thursday, January 15, 2009

Memórias de Viagens VI

A minha mente engana-me mais do que gostaria.
Desata a sonhar com calor de cada vez que se fala de África, imagina-a cheia de palmeiras e de frangipanis, com praias suaves de areia branca.
E ficou baralhada quando o avião aterrou no Sal, debaixo de nuvens compactas e a porta se abriu para uma temperatura primaveril e uma paisagem lunar.
Conversei com ela, disse-lhe que 20°C no Inverno era muito bom e a minha mente conformou-se e depositou suas esperanças na praia.
Mas a praia não tinha o mar azul turquesa da sua imaginação, nem a areia imaculada das fotos. Tinha um mar poderoso como o Atlântico sabe ser, cheio, forte, vivo. Um mar que não se deixa domesticar por qualquer turista incauto.
No fundo, era o mar que me banha a cada Verão, que conheço desde que sou e que aprendi a respeitar.
Um mar que casa com uma areia multicor, onde os grãos pretos se misturam com os dourados em arabescos em permanente mutação. Muitas vezes os meus dedos desenharam nessa areia, padrões sem fim, sem nexo, a mudança pela mudança.
O vento afastava a animação, a música, a dança, a alegria forçada, para me deixar ali, nessa areia viva e nesse mar rebelde, a sentir os salpicos das ondas que se desfaziam em estrondos aparatosos.
A ilha é uma pintura de uma cor só, como se o amarelo da praia tivesse sido puxado pelo pincel para as planícies e os montes, desmaiando-se apenas nas poucas acácias que sobrevivem à falta de água.
E só isso é verdade: a aridez, o amarelo, o vento.
E as salinas que fugiram da beira-mar para uma cratera de um vulcão que encheram de tons rosa e branco, onde já só os turistas vão. Isso também é verdade ainda que o sal tenha deixado de cumprir a sua função. Nesse dia havia sol. Sol e sal.
A faixa ajardinada dos hotéis e resorts é uma contradição numa ilha que não se deixa aprisionar pelos clichés da mente. Podem tentar vendê-la com toques africanos, musicá-la com sons das caraíbas, enfeitá-la com colares de sementes que ali não há.
O Sal é uma ilha de silêncio e de calma onde só as mornas fazem sentido.

3 Flocos de neve

Blogger Skyman atirou uma bola de neve ...

Desvirtuada da essência que a conservou até agora no seu próprio nome, Sal.
Bjo

11:05 am  
Blogger Leonor atirou uma bola de neve ...

Póis, o Sal não tem mar turquesa nem coqueiros ou frangipanis mas gostei muito de lá estar :-)

3:14 pm  
Blogger Pitucha atirou uma bola de neve ...

Skyman
Exactamente.
Beijos

Leonor
Ainda está por vir a viagem de que não goste! E o Sal até já bisei...
;-)
Beijos

3:21 pm  

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