Tuesday, April 14, 2009

Conto a conto (20)

Sentou-se com a intenção de escrever um conto redondo.
Como o mundo, pensarão.
Não, não era redondo como o mundo.
Queria escrever um conto redondo como as coincidências que, espanto a espanto, se encacham umas nas outras, colando pontas soltas, explicando gestos sem sentido, concluindo sem morais de história.
Pensou na tulipa que cresce com a Primavera e que uma mão colheria para enfeitar uma jarra, jarra que iria parar anos mais tarde a outras mãos que noutras Primaveras colheriam outras tulipas.
Era um destes contos redondos que queria escrever.
Para isso se sentou.
Distraidamente afastou uns papéis da secretária e foi surpreendida por uma recordação antiga.
Indesejável.
Sentiu-se a entrar numa espiral de lembranças que se querem esquecidas e decidiu parar para que a sua vida não se tornasse, ela, numa vida redonda.
Quis quebrar o círculo.
Quebrou-o.
Não escreveu nenhum conto redondo.

2 Flocos de neve

Blogger num relance atirou uma bola de neve ...

entre uma neve e outra lembrou-se do nevão de há anos onde o bloqueio foi pavorosamente lento de ultrapassar num tempo infindo de espera e à medida de cada porção de tempo que ia passando um floco e outro de neve ia caindo no seu vagar indiferente alheado de implicações e sequências de consequências

foi quando percebeu que o frio dentro provocava outros nevões que não via e desse bloqueio, entre uma neve e outra, foi-se desfazendo por entre um e outro floco de neve único universo dentro de universo como letra a letra a palavra de cada verso

10:33 am  
Blogger Madalena atirou uma bola de neve ...

Tenha a forma que tiver, o conto é muito lindo. O lindómetro acendeu no máximo!!! Mil beijinhos redondos, para condizer e quebrar o feitiço, o círculo...

12:43 pm  

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