Friday, June 05, 2009

Conto a conto (23)

Havia alturas em que queria escrever mas não sabia sobre o quê.
Não que lhe faltassem ideias! Tinha sempre muitas, enroladas num canto da memória, para usar um dia, mas, nessas alturas, nem chegava a desenrolar os rolos. Sabia que não queria nada daquilo.

Ia andando. Procurando.

Eu sei porque um dia encontrei-o e pareceu-me mais distraído do que habitualmente. Disse que procurava algo, não sabia o quê, mas esperava encontrar.

Achava que escrever sobre o mundo era ambicioso. O mundo é vasto. Complexo.
E ele estava cansado deste mundo em que vivia, não lhe apetecia ouvir notícias, nem verborreias de pensadores arrogantes.
É certo que poderia escrever sobre as estrelas e os outros mundos que pudesse imaginar.

Ele disse-me, num dia cinzento, que não queria sonhar mais nada. Queria escrevrer descrevendo.

Concluiu que nunca poderia descrever o mundo porque outros já o tinham descrito e ele nada tinha a acrescentar, pelo menos para já. Talvez, noutra fase, lhe apeteça de novo escrever sobre o mundo. Até mesmo escrever o mundo, encher as planícies de letras, semear o mar de vígulas e exclamar-se por montes e vales.

Por agora teria que reduzir a escala, deixar países e cidades, esquecer ideias e filosofias.

Confessou-me que procurava uma descrição mínima mas palavrosa. Não percebi mas não disse nada. Espero para ver.

Até que um dia pegou numa caneta e abriu o caderno.

Encontrei-o recentemente, num café da cidade. Estava de bom humor. Quando nos despedimos, deixou-me um envelope.

Era grande, maior do que o normal, uma peça de plástico azul, de bordos levantados. Apetecia agarrar, brincar com ele entre os dedos, procurar imperfeições, acariciar a lisura. Tinha quatro buracos. Poderia ter dois. Mas não tinha. Era-lhe indiferente o número de buracos. Mas sabia que era assim, umas vez dois, outras quatro. Realmente, agora que pensava nisso, quatro buracos permitiam mais escolhas. A linha pode passar em vários sentidos. Preferia cruzá-las. Não que as linhas oblíquas o seduzam mais do que as paralelas, não obstante se sentir intimidado com o infinito. Ms ali, nesta pequenez que a sua mão abarca, o infinito é humanamente compreensível. Ainda assim prefere a linha em cruz. E porque é que a linha tem que ser azul? Escolhe uma linha amarela para pregar, em cruz (e aqui abranda porque se apercebe do significado religioso mas decide não ir por aí!), o botão azul de plástico.

3 Flocos de neve

Blogger TeKanelas atirou uma bola de neve ...

Gostei do conto e do botão azul de 4 buracos.
Beijos ;-)

2:08 pm  
Blogger Paula § Danna atirou uma bola de neve ...

Bravo!! ando a procura de bons textos para ler. Encontrei aqui um dos mais celébres da semana ou quem sabe do mês...

Parabéns pelo conto!

8:12 pm  
Blogger Leonor atirou uma bola de neve ...

Parabéns, Pitucha :-)

11:01 am  

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