Monday, June 29, 2009

Pertença

As minhas actuais circunstâncias tornam-me sensível à questão da "pertença".

Vem isto a propósito do livro que estou a ler neste momento ("Dreams from my father") e da comoção provocada pela morte de Michael Jackson que, voluntária ou involuntariamente, foi afastando a cor da sua pele.

A questão racial é assunto subjacente, e tantas vezes contornado por imperativos politicamente correctos, de cada vez que um branco se cruza com um negro. Sobram sempre sentimentos excessivos. Seja vergonha ou precaução, raiva ou compreensão.

Crescemos numa sociedade de culpa. Digo mesmo de preconceitos. E, como todos os preconceitos, simplistas demais para a realidade que abarcam.

Até a ideia de que somos livres dessas ideias preconcebidas e que nos estruturam enquanto seres sociais, é um preconceito.

Quando penso no assunto, eu, que vivo o melhor que posso com os meus clichés, compreendo que, como o diz e repete Obama, tudo é uma questão de pertença: a um grupo, a um país, a uma sociedade.

O drama, se de drama se pode falar, é que a noção de pertença varia consoante a perspectiva: se para Obama a questão era ser negro e americano ou americano e negro, eu, que leio o livro sem grande compreensão prática do problema (sendo branca e europeia) dou por mim a corrigir "mulato". Não que isso adiante muito à minha compreensão prática do problema, mas porque me causa estranheza a falta de precisão.

Ainda assim, entendo a necessidade de se sentir integrada num grupo. A minha ligação emocional à ideia de Pátria, fez-se quando me instalei no Luxemburgo e entendi a comunidade portuguesa aí residente, os choques culturais, econónimos e sociais com os luxemburgueses, a discriminação criada pelo desconhecimento.

Percebo a necessidade de integração quando vejo os jovens "europeus", que cresceram longe do país de origem e sem laços particulares à língua-mãe, tentarem criar, quase deseperadamente, laços de grupo com outros similares, gente para quem o mundo é multilíngue e multicultural.

E se agradeço esta época em que vivo, que me permite cruzar, facilmente, países e gentes faço-o porque sei onde está o meu grupo, porque reconheço como fundamental a minha pertença à língua portuguesa. Sem raças, sem religiões, sem mais: só esse elo mundial em que me reconheço.

4 Flocos de neve

Blogger Sofia C. atirou uma bola de neve ...

Pitucha,

Gostei tanto deste texto, tinha de to dizer. Beijos, Sofia

12:35 pm  
Blogger Pitucha atirou uma bola de neve ...

Obrigada Sofia.
Beijos

2:45 pm  
Blogger TeKanelas atirou uma bola de neve ...

Não sei se lhe chamo sentimento de pertença ou não mas eu gosto imenso de estar fora e encontrar pessoas nos locais mais estranhos a falar Português.

Beijos

3:04 pm  
Blogger Pitucha atirou uma bola de neve ...

Tekanelas
E já pensaste porquê? Não será porque achas que "pertencem" aos mesmo grupo?
Beijos

3:11 pm  

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