Monday, July 27, 2009

Conto a conto (25)

Naquele tempo a porta estava sempre aberta.
Agora que escrevo isto penso que talvez não, talvez não estivesse sempre aberta.
Decerto a fechariam durante a noite.
Mas naquele tempo eu não tinha noite: de noite dormia indiferente ao mundo e seus barulhos, mesmo o de uma porta que se fechava.
Pela manhã, ao pequeno-almoço, já a porta estava aberta.
Não que a visse, mas ouvia os cumprimentos de quem passava enquanto bebia o leite e comia as torradas com manteiga.
Ora bom dia D. Noémia, vem à feira?
Bom dia, respondia a minha avó, já lá vou.
E eu a engolir com pressa o pequeno almoço porque dia de feira era dia de reco-reco.
Vamos à feira dizia sôfrega, vamos.
Que desassossego, reprimia a avó já com as mãos a segurarem o velho porta-moedas porque, naquele tempo, os meus pedidos tinham esse condão de serem respondidos com ternura imediata.
Penso que era por as férias serem curtas e poucas as semanas em que eu enchia os ares da casa com o irritante som do reco-reco. Por um dia, dois no máximo, mais não aguentava o plástico do reco-reco e eu ficava uma semana à espera da próxima feira.
Mas a porta estava sempre aberta mesmo quando não havia feira.
Eu sei, porque entrava e saía vezes sem conta, consoante o ditasse a minha imaginação ou as brincadeiras do momento.
Saía com a corda para ir saltar no jardim.
Se decidíamos ir comprar rebuçados voltava a casa largar a corda e pedir dinheiro.
Depois vinha beber água, porque os rebuçados eram doces demais.
E voltava para largar o caso de malha porque o calor apertava.
Saía de fugida ainda a ouvir a avó a dizer que olhasse que ia ficar doente, toda transpirada assim a tirar o casaco. Optei por não o largar em casa e prendê-lo à cintura como vira os rapazes mais velhos fazer. Era uma ida a menos a casa mas as recriminações continuavam, isto é que é uma maria-rapaz, agora de casaco atado à cintura, menina não leva o casaco assim, põe-o pelas costas e eu a achar que nunca iria entender esse mundo dos grandes, como é que se segura um casaco às costas a subir árvores, a derrapar em bicicletas, a jogar à bola, até a saltar à corda…
Entrava e saía por essa porta sempre aberta, numa liberdade desenfreadamente gozada nas curtas férias na aldeia.
Na cidade a minha porta nunca estava aberta.
Era como se fizesse noite o dia todo.

1 Flocos de neve

Blogger pessoana atirou uma bola de neve ...

Excelente texto de portas abertas, Pitucha!

5:08 pm  

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