Tuesday, December 15, 2009

Discurso

Avançou com o sujeito, um "eu" para que não duvidassemos que era ele, ou talvez pensasse que desconhecíamos os tempos dos verbos e tivessemos dificuldade em seguir o discurso caso começasse com o verbo "acho".
Podia ter dito "Acho", assim com maiúscula para iniciar a frase, mas decidiu não deixar o sujeito subentendido.
Disse, portanto, "Eu acho" e tudo ficou claro que era ele quem achava.
Nós ficamos à espera. Suspensos dessa introdução clara.
O que acharia ele?
Mas, de seguida, "ele", o sujeito tão claramente "eu", divagou, adjectivou, ironizou, esclareceu antes mesmo de ter dito, reforçou para sublinhar o que iria dizer, negou que tencionasse dizer o contrário do que diria que achava, sublinhou incertezas para surgir alvo na sua categoridade, subordinou frases e intercalou ideias prévias, preparatórias, introdutórias, sorriu, gargalhou até, avançou com advérbios de modo, claramente, somente, mormente.
Já os ouvintes se distraíam perdidos do que ele acharia, desinteressados, presos noutros achados, cheios de palavras e de vírgulas, vagamente zonzos pelos ziguezagues das figuras de estilo, pelas ondas da construção frásica, pelos solavancos das reticências.
Fartos de complementos, desistiram de encontrar o ponto final.
Talvez por isso, quando o sujeito "eu" se calou, ninguém vislumbrou qualquer achamento.

2 Flocos de neve

Blogger TeKanelas atirou uma bola de neve ...

Caso para se dizer : " eles falam, falam , mas não dizem nada!"
O costume!
beijo.

2:09 pm  
Blogger magnuspetrus atirou uma bola de neve ...

Está fabuloso!
Impressionante como há passagens que mexeram comigo e me irão, certamente, deixar a pensar nos próximos tempos.
Que bom domínio da língua!
Parabéns!

4:44 pm  

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