Thursday, April 30, 2009

Feira do Livro

Que saudades da feira do livro de Lisboa.
Fosse Bruxelas mais pertinho...

Wednesday, April 29, 2009

Conto a conto (21)

Era uma pessoa sem idade. Ou com a idade do mundo.
Tinha aquele jeito de andar de quem já andou tudo.
Talvez por isso parecesse cansado.
Resolvi sentá-lo num banco de jardim. O dia estava primaveril mas percebi que se arrepiava.
A luz do sol ainda não aquecia.
Procurei um banco de jardim mais protegido.
Não o encontrei.
Resolvi desenhá-lo.
Com palavras.
Fi-lo em verde seco…hesitei. Entristece-me, por vezes, esta minha previsibilidade, esta minha fatalidade: todos os bancos de jardim são verdes.
Recomecei.
O banco de jardim amarelo, sem pó, estava ao pé de um canteiro de tulipas.
Não tem árvores perto, para que o sol o inunde, mas inventei-lhe um muro atrás para o proteger do vento.
Foi aí que ele se sentou.
(Fiquei contente por o meu banco de jardim ter servido para ele se repousar).
Olhou para as flores.
Não penso que tenha sorrido. Ou então distraí-me nessa altura, olhando para outros passantes.
Depois, e porque as palavras são minhas, deixei que as cores das tulipas lhe enchessem os dedos e a cara e os olhos. Quase que diria o coração, mas esse é dele e eu não o vejo. Nem penso que deva expô-lo assim, à curiosidade de todos.
Quando ele enrolou as cores todas à sua volta e pintou o meu banco com um quente arco-íris, percebi que a história já não era minha.
Era dele.

Tuesday, April 28, 2009

Cinzento

O dia amanheceu cinzento e chuvoso.
Estranhei.
Aguardo o sol diário, sempre.
Sobretudo em finais de Abril, parece-me lógico.
Encolhi os ombros, enfiei música nos ouvidos e pus-me a caminho.
Na praça que normalmente cruzo o termómetro marcava 8°C.
Percebi então que estava a ouvir Marisa.
Em modo aleatório, foi a Marisa que me acompanhou um pouco do meu caminho cinzento.
Fez sentido.

Monday, April 27, 2009

Fat tax

Será que isto vinga?

(Fazer um longo curso entalada por um obeso não tem piada nenhuma. Mas obrigá-lo a pagar uma taxa não resolve o problema dos passageiros!
Será que incentiva as dietas? Ou apenas engorda as "low cost"?)

Gosto

Gosto de surfar nas palavras em busca de contos.
De sentir os salpicos das vírgulas como se fossem espuma.
De saborear o gosto salgado dos pontos finais
Gosto de me sentir empurrada pelos advérbios ao sabor da brisa da história.
De adivinhar a ilha para onde as ondas das frases me conduzem.
Oxalá não encalhe em nenhum baixio durante as travessias de capítulos menos profundos!

Saturday, April 25, 2009

Dia dos cravos

Cravos não vi, mas esta manhã, em corrida pelo Bois de la Cambre, reparei que havia alfazema.

Friday, April 24, 2009

Sexta, pela graça de Deus

Devíamos ler mais história, conhecê-la mais.
Não só porque ela se repete,, mas também para perceber que os homens não mudam.
Sei bem que o poeta diz "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". Mas aos poetas permite-se tudo, ou quase tudo, pela harmonia e beleza que nos eferecem.
Lendo história, estou indecisa entre achar que está tudo bem porque tudo sempre foi assim, ou desesperar precisamente porque tudo sempre foi assim.

Thursday, April 23, 2009

Dia mundial do livro

Leio por aí que hoje é o dia mundial do livro.
Pensei não escrever nada, porque para mim todos os dias são dias de livros e os livros são para todos os dias (não leste nada hoje, dizias admirado! Acontece, acontece.)
Depois achei que sim, que devia marcar a data.
Porque gosto de me recordar (apesar de, verdadeiramente, não me lembrar) dos livros de pano que deram asas à minha infância, dos livros que lutaram a meu lado quando chegava a altura de apagar a luz a mando da mãe (só até chegar a um ponto e o livro comia uma data de pontos para que eu nunca chegasse a um ponto e o ponto chegava com zanga materna e era um ponto final até ao dia seguinte), do livro em segunda mão, embrulhado em celofane, e que me preencheu a falta de leitura numa praia distante.
Com os livros viajo, aprendo, rio e choro, sonho e desepero.
Deles falo, em partilha de clube, em cumplicidade de gostos, em desacordo irritado.
E nunca compreenderei os que se queixam de não ter nada para fazer ou ninguém para conviver: tal como a aspirina, o meu remédio é sempre "lê um livro".
Mas aprendi que há quem seja ferozmente contra as apirinas.

Shiu, está sol. Shiuu.

Sei que há coisas que não se mencionam, não se dizem em voz alta. O facto de assim as constatar quebra os frágeis laços cujos nós proporcionam que a coisa se mantenha.
Mas o fenómeno persiste, crê-se que se vai manter, e uma pessoa quase que esquece que nada é eterno e poucas coisas são perenes e ouve-se a dizer, lê-se a escrever, "está sol".
Depois, não vão os anjos admirarem-se de tal despudor, acrescenta "mas não está muito calor", compõe, "mas é bom ter dias assim" e continua a conversa falando de coisas mais triviais, menos angelicamente perturbadoras como o Tratado de Lisboa.

Entretanto, corre-se nos parques (que maçada que é a passadeira no ginásio), joga-se ténis na terra batida, bebe-se café ao sol, na esplanada, admiram-se as tulipas dos jardins, abre-se a capota do carro.

E olha-se pela janela, para a luminosidade, para o sol, para o tempo que ainda falta para sair.

De repente pouco mais importa.

Está sol.

Wednesday, April 22, 2009

Tentei

Juro que tentei ver a entrevista do Primeiro-ministro.
O esforço sofreu um duro revés com a pré-entrevista (que ideia porem um microfone à frente do senhor na altura em que chega à RTP. E ainda acrescentam "vamos andando").
Achei que para prosseguir teria que não olhar para o senhor. Fico em extâse a olhar para aquele cabelo sem perceber o que de facto me irrita. Talvez seja o penteado.
De qualquer modo, insisti, ouvindo-o. Melhor, ouvindo-os porque à voz arrogantemente enervante de Sócatres, juntava-se a voz pendantemente enervante da Judite de Sousa.
Tudo a falar ao mesmo tempo, uma festa!
Desisti.
Admito a derrota.
Cada vez me sinto mais com vocação para a abstenção.
Uma tristeza.

Tuesday, April 21, 2009

Sol

Hoje dava tudo para estar em casa, na varanda, ao sol.
Mas a construção da Europa impõe-se.
Seja.

Monday, April 20, 2009

Bruxelas e a monarquia


Fiquei a matutar no nome do rei.

Porque quereria a Miss Pearls uma caneca com a cara de Leopold II? Para recordar o Congo? Para homenagear um dos reis mais polémicos da Bélgica?

Ou, atrevi-me a pensar, tratou-se de um pequeno erro de dactilografia e quereria dizer Albert II?

Pouco importa (ganha sempre a terminação!).

O que importa é que, de facto, a família real belga não está mediatizada em copos e canecas, cinzeiros e porta-chaves.

Os mais cínicos poderão mesmo perguntar se há uma família real belga.

Entre desencontros e desuniões, este reino vai vivendo com uma família que se faz discreta. Como discreto é o rei. Talvez assim convença mais os seus súbditos de que é, verdadeiramente, le roi des belges.

A história rezará, em devido tempo, do êxito de Albert II em manter unidos os belgas.

De Leopold II já a história reza muito. Pessoalmente horrorizei-me com a sua colonização do Congo pelo que vivo bem sem canecas...

Tati

Recordar Jacques Tati sem o seu cachimbo é uma recordação amputada, um esforço que pedimos ao cérebro, mais um, para que ele assobie para o lado quando chegamos à parte do cachimbo.

Neste refazer da história politicamente correcto, apaguemos também o charuto de Churchil.

E o cigarro de Helmut Schmidt.

O meu cérebro limita-se a recordar com um sorriso de satisfação os filmes de Jacques Tati e, num acto de revolta que me surpreende, pede-me para rever o Playtime.

Far-lhe-ei a vontade.

Estou cansada de tanta hipocrisia vendida com um laçarote politicamente correcto.

Wednesday, April 15, 2009

Crise

É impossível ver os telejornais portugueses e não ficar com a sensação de que os portugueses gostam da crise.
Comprazem-se com ela.
Sentem-se coitadinhos (e todos sabemos como os portugueses gostam de coitadinhos).
Olham para a ferida, mexem, lambem, alimentam-na, no fundo.
Mas só enquanto não há futebol.
Aposto que o telejornal de hoje não terá crise para ninguém!

Tuesday, April 14, 2009

Conto a conto (20)

Sentou-se com a intenção de escrever um conto redondo.
Como o mundo, pensarão.
Não, não era redondo como o mundo.
Queria escrever um conto redondo como as coincidências que, espanto a espanto, se encacham umas nas outras, colando pontas soltas, explicando gestos sem sentido, concluindo sem morais de história.
Pensou na tulipa que cresce com a Primavera e que uma mão colheria para enfeitar uma jarra, jarra que iria parar anos mais tarde a outras mãos que noutras Primaveras colheriam outras tulipas.
Era um destes contos redondos que queria escrever.
Para isso se sentou.
Distraidamente afastou uns papéis da secretária e foi surpreendida por uma recordação antiga.
Indesejável.
Sentiu-se a entrar numa espiral de lembranças que se querem esquecidas e decidiu parar para que a sua vida não se tornasse, ela, numa vida redonda.
Quis quebrar o círculo.
Quebrou-o.
Não escreveu nenhum conto redondo.

Monday, April 13, 2009

Páscoa

Para variar o tempo esteve bom e soube-me bem este tempo para mim.
Ia quase dizer que uma nova fase vai começar, mas todos os dias é dia de começar uma nova fase.

Wednesday, April 08, 2009

Tipo

Duas adolescentes portuguesas discutiam dos méritos da literatura portuguesa versus inglesa:

"Preferes ler em inglês, não é?"
"Tipo sim porque tipo tás a ver tipo os portugueses sei lá, são tipo chatos, tipo o livro inglês que estou a ler tipo não diz nada mas lê-se bem, tipo se fosse português tipo seria impossível de ler sei lá.
E depois tipo em Portugal só há tipo livros infantis e depois livros tipo para adultos tás a ver; não há tipo livros para jovens".

Fiquei a pensar. Será que a jovem tem, tipo, razão?

Monday, April 06, 2009

Curiosidades

E para que servirá esta informação?

Férias

Bruxelas é mais agradável nos períodos de férias.
E mais silenciosa.
(Estou quase a confirmar que o inferno são, de facto, os outros).

Friday, April 03, 2009

Sexta, pela graça de Deus

Já estamos quase na Páscoa.
O tempo voa.

Thursday, April 02, 2009

Espanto

Com este post lembrei-me de uns amigos suecos que levei à Pátria lusa para um longo fim-de-semana cheio de sol e de sal.
Orgulhosamente portuguesa, tinha preparado tudo, desde as paisagens à comida, para que regressassem a este cinzento bruxelense cheios de saudades.
A primeira coisa que me disseram, assim que saíram do aeroporto, olhando em redor com ar estupefacto foi: toda a gente tem um ar tão normal!

Wednesday, April 01, 2009

Conto a conto (19)

Dei comigo a rasgar velhas fotografias.
Não era isso que tencionava fazer.
Procurava, aliás, outros papéis.
Em caixas e caixas, hábito meu de tudo guardar sem ordem nem desordem.
Encontrei as fotografias e não reconheci aquela vida.
Vejo que se espanta.
Claro que é uma forma de expressão. Reconheci imediatamente as pessoas e as situações.
Tanto assim que pus as fotografias de lado, viradas para baixo.
Para não as ver, entende.
Porque aquela vida foi minha mas já não é, há tanto tempo que já não é. Confesso que até gostava que nunca tivesse sido, sabe.
Acho que foi por isso que rasguei as fotografias. Um acto de purificação. De rejeição daqueles tempos.
Concordo consigo, rasgar as fotografias não apaga o passado.
Mas lava a alma, acredite. A mim, lavou-me a alma.

É que não posso (17)

Este mundo que exalta a falta de educação, que despreza as boas maneiras e que abomina o polimento social dá-me urticária.