Friday, July 31, 2009

Sexta, pela graça de Deus

Não tenho paciência para criaturas medianas que têm a mania que são boas!
A arrogância compreende-se em seres superiores.

Wednesday, July 29, 2009

Soirée

Muita conversa, como as cerejas, indo e vindo, de palavra a palavra, ao ritmo das lembranças e da imaginação, excelente comida, regalo para os olhos, guloso paladar (ainda sinto o côco), bom vinho.
Troca de experiências em forma de sentimento, de ternura.
Fiquei só a observar e a tentar sentir, também eu, apesar de nunca ter tido um cão.
Ainda agora penso nessa amizade absoluta e incondicional de que falavas, a dos cães pelos donos, impossível entre humanos, dizias.
Talvez tenhas razão.
Mas fiquei com pena.
Sou teatral, gosto da ideia de amizades absolutas e incondicionais.

Monday, July 27, 2009

Conto a conto (25)

Naquele tempo a porta estava sempre aberta.
Agora que escrevo isto penso que talvez não, talvez não estivesse sempre aberta.
Decerto a fechariam durante a noite.
Mas naquele tempo eu não tinha noite: de noite dormia indiferente ao mundo e seus barulhos, mesmo o de uma porta que se fechava.
Pela manhã, ao pequeno-almoço, já a porta estava aberta.
Não que a visse, mas ouvia os cumprimentos de quem passava enquanto bebia o leite e comia as torradas com manteiga.
Ora bom dia D. Noémia, vem à feira?
Bom dia, respondia a minha avó, já lá vou.
E eu a engolir com pressa o pequeno almoço porque dia de feira era dia de reco-reco.
Vamos à feira dizia sôfrega, vamos.
Que desassossego, reprimia a avó já com as mãos a segurarem o velho porta-moedas porque, naquele tempo, os meus pedidos tinham esse condão de serem respondidos com ternura imediata.
Penso que era por as férias serem curtas e poucas as semanas em que eu enchia os ares da casa com o irritante som do reco-reco. Por um dia, dois no máximo, mais não aguentava o plástico do reco-reco e eu ficava uma semana à espera da próxima feira.
Mas a porta estava sempre aberta mesmo quando não havia feira.
Eu sei, porque entrava e saía vezes sem conta, consoante o ditasse a minha imaginação ou as brincadeiras do momento.
Saía com a corda para ir saltar no jardim.
Se decidíamos ir comprar rebuçados voltava a casa largar a corda e pedir dinheiro.
Depois vinha beber água, porque os rebuçados eram doces demais.
E voltava para largar o caso de malha porque o calor apertava.
Saía de fugida ainda a ouvir a avó a dizer que olhasse que ia ficar doente, toda transpirada assim a tirar o casaco. Optei por não o largar em casa e prendê-lo à cintura como vira os rapazes mais velhos fazer. Era uma ida a menos a casa mas as recriminações continuavam, isto é que é uma maria-rapaz, agora de casaco atado à cintura, menina não leva o casaco assim, põe-o pelas costas e eu a achar que nunca iria entender esse mundo dos grandes, como é que se segura um casaco às costas a subir árvores, a derrapar em bicicletas, a jogar à bola, até a saltar à corda…
Entrava e saía por essa porta sempre aberta, numa liberdade desenfreadamente gozada nas curtas férias na aldeia.
Na cidade a minha porta nunca estava aberta.
Era como se fizesse noite o dia todo.

Friday, July 24, 2009

Cidade no Verão

Gosto de Bruxelas despida de gente, parca em carros, mais silenciosa.
Pecebe-se quão pequena é esta minha capital europeia pela rapidez com que me desloco daqui para ali, pequenos pulos, simples minutos.
Os compridos dias prolongam a luz, esticam as horas, dá para quase tudo e a sorrir.
Daqui a dias partirei, como os outros partiram antes de mim, e Bruxelas ficará como nunca a conheci, Bruxelas em Agosto, um dia ficarei em Agosto só para a conhecer.
Quando regressar será a rentrée, as pessoas a começarem a atarefar-se, os carros a preparam a agressividade invernal, a noite a cerrar-se, o frio a penetrar insidiosamente...
Um dia, acordarei ainda de noite, com frio e sono, e enfrentarei Bruxelas no seu esplendor citadino: cinzenta, húmida, lotada, carrancuda.
Restará, então, esperar, de novo, pela Primavera!

Wednesday, July 22, 2009

Pode não parecer...

Mas não sou nada destas coisas de computadores.

Acho úteis, muito mesmo, e uso-as, ponho-as ao meu serviço.

Na minha medida.

Nem um pouquinho mais.

Por vezes é a curiosidade que me leva e, muitas vezes, fico perplexa pelo êxito de certos lugares.

Nunca hei-de compreender o que leva as pessoas a preferirem mandarem flores (ou sorrisos, ou abraços, ou quejandos!) virtuais em vez de aparecerem num contacto directo nem que seja via skype.

Talvez para deixarem em público as suas "lembranças", testemunhos de uma aliança que o tempo foi tornando muito passada.

Admito, não gosto!

Tenho até um prazer pérfido em ignorar essas mensagens.

E agora, se me dão licença, vou até ali apagar a minha página no Facebook.

Monday, July 20, 2009

O homem chegou à lua

Lembro-me de estar na varanda, noite quente lisboeta, e olhar intrigada a lua. Estava lá gente mas eu não via nada.
Mas lembro-me dessa noite.
Tal como me lembro de um dia estar a olhar para a televisão e de o meu pai me dizer "vê com atenção; só daqui a quatro anos verás outra coisa assim".
Lembro-me tão bem disto e de ter ficado impressionada com a eternidade dos quatro anos.
Só não me lembro do que era (talvez fossem uns jogos olímpicos por causa da história dos quatro anos!). Não vi com atenção suficiente, mas ouvi muito atentamente o que o meu pai me disse. E nunca mais esqueci!

Friday, July 17, 2009

Ahn?

Sexta, pela graça de Deus

Não me vou enervar com a chuva de sexta depois de vários dias lindos.
Até porque estamos às portas do fim-de-semana e de um feriado na próxima terça.
Dia da Bélgica.
Há dois anos o então primeiro-ministro to be confundia o hino nacional belga com o francês.
Nada lhe aconteceu. Enfim, pelo menos por causa disto.
Mesmo os belgas com quem de vez em quando me cruzo pareciam pouco impressionados: pronto, enganou-se, qual é o problema?!
O problema, repetia eu incrédula imaginando um primeiro ministro português a trautear inocentemente o hino espanhol como se fora "A Portuguesa", no início de uma qualquer cerimónia do 10 de Junho, o problema é que "A Marselhesa" é o hino francês e aqui é a Bélgica, argumentava eu.
Sorriam condescendentes: ce n'est pas grave!
Uma ova é que não é.

Thursday, July 16, 2009

Ciclismo

Nunca acompanhei o ciclismo.
(Claro que o Joaquim Agostinho é e será sempre o Joaquim Agostinho, ali arquivado ao pé do hóquei em patins que tanta alegria nos deu, mas isso era quando eu era pequenina).
Agora, por força das circunstâncias vou vendo e ouvindo, vou perguntando e vou percebendo um pouco mais.
Até já sei que a Volta à França é um mundo e que nem tudo corre sobre rodas (esta veio mesmo a calhar!).
Desde Armstrong passando por Cavendish vou sabendo coisas destas.
Tudo porque, parece, há quem não goste muito dos franceses!
Aqui entre nós: não somos todos um pouco culpados do mesmo?

Praia

Despejam uma grande quantidade de areia aí num sítio qualquer, enchem-na de cadeiras de lona e de chapéus de sol, espalham vendedores de gelados e bebidas pelas bordas e preenchem os interstícios com música: eis a praia de Bruxelas.
Não é bem o meu conceito de praia!

Wednesday, July 15, 2009

Momento matinal

Pela manhã, quando atravesso a pé esta (minha) parte da cidade, com música nos ouvidos para me alhear dos demais ruídos, noto, de cada vez, uma coisa nova.
Hoje, além das motas da polícia que não pararam na passadeira para deixar passar os peões (!), reparei nos cheiros: passei do cheiro imundo do carro do lixo (que emprego desgraçado) para o cheiro guloso de tartes a serem descarregadas numa padaria/pastelaria...
Nesse momento era a Mísia que, aleatoriamente, me acompanhava nesse pequeno-almoço que me ficou a apetecer.

Monday, July 13, 2009

Conto a conto (24)

Foi à procura de C.
15 anos depois da sua morte.
Nessa manhã sem ruído, abafada pelo nevoeiro, sentiu enfim a dor da sua ausência.
Abriu o álbum de fotos e recordou o sorriso, momentos de então a que deu som e movimento.
Resuscitou C.
Para si.
E conversou como se conversa depois de um silêncio de 15 anos: sem fim, sem fim.
Até que se calou.
E antes que C. morresse de novo escreveu um conto, um poema.
Para C.
Sobre C.
Agora sabe que para encontrar C basta abrir as páginas daquele livro.

Filigranes

Há um je ne sais pas quoi que me atrai para esta livraria.
Tomar um café, ao som do piano (ao vivo, está bem de ver), a folhear livros e revistas, em excelente companhia…
Deixo de querer saber das misérias do mundo e dos escândalos nacionais (que ainda te conseguem indignar! Já perdi essa capacidade…).
Acho que ficaria ali, a ler, para sempre.

Friday, July 10, 2009

Sexta, pela Graça de Deus

E as férias que nunca mais chegam!

Thursday, July 09, 2009

Colecções

Estou espantada.
Tenho aqui uns selos que acho muito bonitos e ninguém em meu redor faz colecção de selos.
E eu a pensar que era "a"colecção (essa e a de moedas) a fazer.

Tuesday, July 07, 2009

Esquecer

Não sei porque não esqueço
Eu que esqueço tanto
Tudo não será
Mas o suficiente para me incomodar
Me distrair do que foi
E talvez ainda seja
Mas não me lembro.

Mas isso
Ainda que me esforce
Não esqueço
Tenho pena
Esqueceria de boa vontade
Assim me fosse dada essa benesse.

Nem sempre o esquecimento é mau.

Inevitável

Estou aqui a tentar escrever qualquer coisa que não contenha as palavras "Cristiano" e "Ronaldo" e não consigo!
É que a mesma coisa a dar, ao mesmo tempo, em tudo o que era televisão portuguesa tem assim algo de sobrenatural: nem Fátima consegue tanta sintonia e sincronia!

Friday, July 03, 2009

Sexta, pela Graça de Deus

Cheira a traição! De lesa lusitanidade.

Polimento

Vamo-nos habituando à má-educação doméstica.
Os ecos no estrangeiro é que são duros de engolir.
E não vale argumentar que os demais estrangeiros pautam pela mesma música...
Porque, com os males dos outros podemos nós bem!
Uma vergonha.

Thursday, July 02, 2009

Tempo

O sol persiste. O calor também.
Não me queixo (porque o faria?) mas já me sinto rodeada de um cansaço mudo feito de suor e roupas de praia (nunca entenderei as roupas de praia na cidade).
Interrogo-me sobre a volatilidade dos desejos (de Inverno suspiram pelo Verão, reclamam quando ele não vem e agora, que ele aí está no seu esplendor de extremos, abanam-se e queixam-se), sobre a permanência dos empenhamentos.
Degustando, portuguesmente, a bica pela manhã, cruzei-me, de novo, com Miguel Portas. Que vem para mais uma jornada de quatro anos, depois de outra de quatro. Uma permanência mais longa, abençoada, hoje, pelo raro sol bruxelense.
Eu sei quem ele é; ele não sabe, nem saberá, quem eu sou.
Mas, tal como disse antes, o "bom-dia" em português foi o elo em que nos reconhecemos.