Wednesday, December 23, 2009

Livro dos livros

"A Cidade depois" de Pedro Paixão reúne crónicas escritas em Nova Iorque ainda sob o pó das torres gémeas em ruínas.
Ler em português alegra-me e perturba-me.
Alegra-me porque é a minha língua e a minha Pátria, como diria o poeta, porque as palavras deslizam por mim com a facilidade de nelas ter nascido.
Por isso mesmo perturbam-me. Fico mais sensível ao português que não é meu, às contracções que nunca faria, aos adjectivos que não utilizaria, às irregularidades que nenhum professor meu teria permitido.
Fico, em resumo, mais exigente.
Ainda assim, estas crónicas valeram por recordar uma vivência recente, por colocar questões que também coloquei em 2001, por dar respostas que ainda hoje dou neste mundo tornado diferente depois do "nine eleven".
A última vez que estive em Nova Iorque, olhei, tal como Pedro Paixão, para aquelas pessoas que viviam uma vida aparentemente normal, admirando-as pela calma que ostentavam. Sobretudo devido ao nervosismo visível das autoridades.

É um livro pequeno que nos obriga a pensar, que indica, em jeito de presságio, os caminhos que hoje percorro numa civilização que se sente em ameaça constante e que eu sei que é a minha.

Em 2001, no dia 11 do mês 9 houve um choque.
Em 2009, a dois dias do Natal, ainda sentimos as ondas que estão se propagaram.
"A Cidade depois" recorda esse tsunami.

Boas Festas

Desejo a todos um santo Natal e um ano de 2010 cheio de boas leituras (não só blogoesféricas!).

Tuesday, December 22, 2009

Livro dos livros

Como resolução de fim de ano, decidi registar as minhas impressões dos livros que vou lendo.
Começo com uma excepção, eu que nunca leio mais do que um livro ao mesmo tempo.
Mas como o 2666 é longo e algo pesado, decidi intercalar um livro ligeiro.
Da estante saltou-me para o colo The careful use of compliments e acolhi-o com o agrado com que sempre leio McCall Smith.
Admito que prefiro a série da N° 1 Ladies' Detective Agency, mas Isabel Dalhousie é também uma agradável companhia para os frios serões.
O que mais me admira em McCall Smith é a aparente facilidade com que flui o discurso, como se escrevesse com prazer e sem hesitações (se calhar escreve mesmo assim, sei lá), como se a história não existisse no começo e se fosse desenrolando ao longo das páginas como se desenrola a vida ao longo dos dias.
Estou certa de que andam pelas ruas de Edimburgo muitas pessoas que, tal como Isabel Dalhousie, vivem uma vida normal onde as preocupações do dia a dia se cruzam com questões mais profundas próprias de uma editora da Review of Applied Ethics. Pessoas que bebem chocolates quentes numa delicatessen de Edimburgo, que, de vez em quando, se confrontam com a ideia de que "our possessing of our world is a temporary matter", que se preocupam com os outros e consigo próprias, que aproveitam fins-de-semana para visitar a ilha de Jura.
Quando nos aconchegamos nesta leitura-vida de todos os dias verificamos que há uma história por trás, um pintor, Andrew McInnes, uns quadros que parecem mesmo ter sido pintados por ele, parecem mas há qualquer coisa de estranho, "I just have the feeling that something's not quite right about that painting", e mais não digo.

Monday, December 21, 2009

Fim-de-semana

Não sei o que é melhor:
se a neve a estalar, fofa, debaixo das botas,
se os flocos a dançarem, ligeiros, à nossa frente,
se o silêncio, límpido, que desce sobre a cidade,
se o calor da manta, suave, no colo,
se o gosto, guloso, dos scones,
se a história, divertida, que o livro nos conta,
se a gargalhada, alegre, que se partilha.

Friday, December 18, 2009

Sexta, pela graça de Deus

Bruxelas branca prepara-se para me acolher em fim-de-semana.
Eu aceito.
Gosto de fins-de-semana.
E, apesar do mau jeito, gosto de ver Bruxelas branca.

Thursday, December 17, 2009

Neve

Foram uns parcos e pequenos flocos que ontem pairaram na capital europeia.
Tão leves que, creio, nem chegaram a cair no chão.
Prometem mais para os próximos dias.
Tenho que me esforçar para pensar que a neve é uma maçada.
Porque eu, hei-de sempre olhar para a neve como se fosse um poema.
Sou uma romântica, no fundo.

Tuesday, December 15, 2009

Discurso

Avançou com o sujeito, um "eu" para que não duvidassemos que era ele, ou talvez pensasse que desconhecíamos os tempos dos verbos e tivessemos dificuldade em seguir o discurso caso começasse com o verbo "acho".
Podia ter dito "Acho", assim com maiúscula para iniciar a frase, mas decidiu não deixar o sujeito subentendido.
Disse, portanto, "Eu acho" e tudo ficou claro que era ele quem achava.
Nós ficamos à espera. Suspensos dessa introdução clara.
O que acharia ele?
Mas, de seguida, "ele", o sujeito tão claramente "eu", divagou, adjectivou, ironizou, esclareceu antes mesmo de ter dito, reforçou para sublinhar o que iria dizer, negou que tencionasse dizer o contrário do que diria que achava, sublinhou incertezas para surgir alvo na sua categoridade, subordinou frases e intercalou ideias prévias, preparatórias, introdutórias, sorriu, gargalhou até, avançou com advérbios de modo, claramente, somente, mormente.
Já os ouvintes se distraíam perdidos do que ele acharia, desinteressados, presos noutros achados, cheios de palavras e de vírgulas, vagamente zonzos pelos ziguezagues das figuras de estilo, pelas ondas da construção frásica, pelos solavancos das reticências.
Fartos de complementos, desistiram de encontrar o ponto final.
Talvez por isso, quando o sujeito "eu" se calou, ninguém vislumbrou qualquer achamento.

Monday, December 14, 2009

Grau zero

A cidade espalha o seu sol gelado.
Enganador.
Quem olhar pela janela, distraidamente, sem atentar nos acessórios invernais, nos olhos brilhantes e nos narizes vermelhos, achará que está um belo dia.
Luminoso.
Sem dúvida.
Luminoso e transparente, com essa transparência de frio que repele.
A mim repele-me.
0°C.
Repele-me totalmente.
Não obstante a luz brilhante. Que será, de qualquer modo, de pouca dura.
Logo, logo é noite.
Longa, longa.
Nem o 0°C se aguentará.
Frio demais até para ele.

Friday, December 11, 2009

Sexta, pela graça de Deus

A cinza do tempo chama pelo sol das ilhas.
Como nas páginas do livro que estou a ler em que o sol, permanente, pesado, ilumina uma história, feita histórias pelos olhos dos que a viram, viveram, inventaram, imaginaram...
O mar também está lá.
Porque é uma ilha e porque alguns, para fugir da história, da sua história, foram pelas ondas fora.
Alguns voltaram...
Para nos contar histórias.

Wednesday, December 09, 2009

Húmido

O dia está cinzento e húmido.
Peganhento e irritante.
Fico impaciente.
Por causa da chuva miudinha, ainda tenho menos pachorra para as tretas ocas dos politicamente correctos, dos sociologicamente correctos, dos intelectualmente correctos, dos culturalmente correctos...
Antes, para ser pertencer a uma maioria vencedora era-se do Benfica!
Agora é mais complicado, mas continua a haver caminhos seguros para se garantirem sorrisos cúmplices e palmadinhas nas costas.

Tuesday, December 08, 2009

Natal

Em casa já é Natal.
Em dourado e branco.
E com luzes.

A cidade, essa, está desolada e incaracterística.
Tão desolada e incaracterística que até penso em ter o meu próprio pinheiro de Natal, eu que nem me lembro da última vez que fiz uma árvore de Natal.
Mas como a propoganda eco, bio e politicamente correcta não se decide entre pinheiros nataliciamente preparados para serem enfeitados, outros que se enfeitam e desenfeitam e se replantam, uns que não perdem agulhas, outros que artificialmente se reciclam em cada Natal, uns já com neve e outros anti-fogo...vou deixando passar o tempo!

Talvez vá desenterrar as imagens do presépio.
Ou talvez não.

Enquanto me decido, vou ouvindo músicas de Natal.

Wednesday, December 02, 2009

Vento

Sentiu o vento nos dedos.
Estranhou.
O sentir e o escrever.

Porque, por tradição, o vento sente-se nos cabelos...

Mas ela senti-o nos dedos, um vento quente que se entrelaçava na escrita.

Olhou para o mar.
Procurou a quentura desse vento.

Talvez viesse de África pensou.
Só de África poderia vir um vento quente assim.

Respirou fundo a sentir esse calor a enchê-la de vontade de escrever o vento.

Talvez seja isto a sensação de viver numa ilha.

Olhou em redor o mar à sua volta e agasalhou-se nesse vento quente.

Tuesday, December 01, 2009

História

Hoje é o primeiro dia do resto da União Europeia, agora à luz do novo Tratado.

Dito isto, para que fique registado, regresso à construção da Europa, ao som de Susan Boyle e embalada por boas memórias dos dias passados fora deste cinzento.

Porque a vida é isto tudo.