Livro dos livros
A gélida Bruxelas, apesar dos saldos, chama-nos para o "indoor".
Não que desdenhe os saldos, longe disso, mas 0°C são impróprios para consumismos diletantes.
Aproveitei para terminar "The Age of Innocence" de Edith Wharton, que me acompanhou na viagem para Lisboa e no regresso a Bruxelas.
O Natal foi familiar, com reencontros e comida e pouca leitura, como mandam os usos e costumes.
De usos e costumes trata o livro. Digo eu. De uma história de amor frustada, dirão outros. Também a vi, mas entendi-a como um reflexo da sociedade retratada, Nova Iorque, séc. XIX, cheia de regras e etiquetas, ditas e implícitas, um imenso tabuleiro onde cada um tinha o seu lugar e um papel que devia interpretar. Desrespeito do guião e mudanças de rumo perturbavam o jogo pré-determinado e enervavam os actores.
Comecei a ler o livro como uma visão histórica de uma sociedade passada: livro delicioso, de escrita fluida e clara, ofereceu-se-me como uma tela de cinema (apesar de não ter visto o filme).
Depois vi que tudo mudou mas apenas para que tudo ficase na mesma: continuamos com regras e etiquetas, outras, diferentes das de então, mas preenchendo a mesma função de nos orientar, de nos enquadrar, de nos integrar na sociedade que é a nossa.
Hoje, como dantes, há os que aceitam, os que rejeitam.
E, como dantes, ainda há amores frustados.


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