Tuesday, January 10, 2012

Secreto

Confesso que sempre que ouço falar em maçonarias e demais sociedades secretas, me lembro dos cinco e dos sete, do colégio de Santa Clara e do colégio das Quantro Torres. (Lembro-me de Enid Blyton, enfim...)

Quem é nunca sonhou com reuniões secretas em cabanas construídas em árvores, quem é que nunca inventou senhas e contrasenhas para se sentir misterioso, quem é que nunca imaginou piqueniques nocturnos preparados às encondidas.

Eu também acho que tenho uma parte em mim que nunca cresceu e que gostaria de ter símbolos e gestos, palavras e rituais secretos...mas não muito secretos, porque senão ninguém saberia da minha sociedade secreta e não teria piada nenhuma!

Friday, January 06, 2012

Fortuna

Tenho andado por Barcelona.
Na companhia, pouco recomendável, diria, de Onofre Bouvila.
Encontrámo-nos por finais do século XIX, ainda a tempo de ver as obras para a exposição universal de 1888.
Como desculpa para as más companhias poderei dizer que Onofre Bouvila era então pouco mais do que uma criança. Não poderia adivinhar os maus caminhos por onde caminharia mais tarde.
Vi Barcelona crescer, desenvolver-se, em permanente conflito com Madrid e ainda não cheguei à exposição universal de 1929. Mas lá irei, sei-o.
Entretanto, a Europa dobrou mal a esquina para o século XX e agora a guerra avoluma-se no horizonte. Antes de mim, percebeu-o o nosso herói, o Onofre, que já vai armazenando um arsenal em jeito de investimento.
Devia aprender com ele: comprar, valorizar (por qualquer meio que seja), vender.
Poderia até começar com este livro: elogiá-lo até aos píncaros, explicar que sem ele, Barcelona, a de hoje, perde cor e sabor, tentar mesmo convencer-vos que Onofre, mais do que bandido é castiço. Acender com luzes de néon o título "La ciudad de los prodígios" e o autor "Eduardo Mendoza" e depois vender-vos o livro assim encarecido…

Wednesday, January 04, 2012

Tradições

Comecei o ano a comer doze uvas, em vez das doze passas, tradição espanhola.

Em Bruxelas.

Cidade cadinho de culturas, mescla de coisas diferentes.

Berço de transitório e provisório.

Partirão em breve, por três anos em príncipio.

Fingidos parabéns animados, convites da praxe: que a casa está às ordens, venham visitar-nos, quando quiserem, sempre que quiserem, claro que sim, o que adianta azedar o momento dizendo que a distância imporá as suas leis e outros encontros ditarão novas tradições.

Durante uns tempos a alma andará murcha procurando novos alentos, repetindo, para se convencer, que a vida continua.

Durante uns tempos, obrigar-me-á a reflectir na sua própria inflexibilidade, na sua dolorosa vontade de imutabilidade.

Terei que lhe dizer, até que se convença, que a vida, essa que não pára, não é assim, que tudo muda e que aqui muda ainda mais depressa.

Tuesday, January 03, 2012

Sol

Estou a pagar os dias maravilhosos de sol pátrio: desde que regressei ainda não vi raio de sol e hoje a chuva e o vento e a escuridão externa encasulam-me dentro de portas.

Este também é um preço a pagar pela decisão de emigrar: mas é certo que não se pode ter tudo na vida (pois não?).

Vamos lá com força para mais um novo ano.