Monday, February 27, 2012

Pura poesia

Na última reunião do clube de leitura, por entre chá e bolos, falou-se de "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra" de Mia Couto.

Interessante como ele tocou, quase da mesma forma, nacionalidades várias.

Poesia pura disse uma espanhola.

Uma linguagem maravilhosa acrescentou uma sueca.

Porque a beleza é universal.

Friday, February 10, 2012

O meu avô

Naquele tempo, passar férias com os avós era o desterro do mundo moderno: não havia lojas (apenas o mercado semanal que eu adorava), não havia telefones, Lisboa era longe, longe.

Foi portanto com horror que vi a minha corda de saltar partir-se, no sítio onde se partiam todas, ali onde ela roçava o chão vezes sem conta, vezes sem conta.

Hoje parece difícil de compreender mas naquele tempo a minha corda de saltar era um bem raro quando passava férias com os meus avós: ali, a anos-luz de Lisboa, não havia como substitui-la.

Seria preciso esperar a vinda dos pais num fim-de-semana, fazer a encomenda (em tons lamurientos, claro) e aguardar o fim-de-semana seguinte para ter de novo nas mãos uns punhos de madeira clara seguidos de umas bolas de madeira encarnada e de uma corda cinzenta, pesada como convinha.

Foi portanto desesperada que atirei com os dois pedaços de corda para um canto da casa.

Do resto do dia não guardo memória. Dever ter corrido como todos os outros, em brincadeiras com os primos e entre os mimos das tias e avó. Os tios e o avô guardavam as suas distâncias e nós que não os incomodássemos.

Do avô recordo um homem enxuto, de cabelo branco ondulado, que me pedia pelas manhãs que lhe enfiasse a linha na agulha da sua máquina de coser. Creio que era sapateiro mas não guardo quaisquer recordações de o ver trabalhar. Só sei que aquela sala onde estava a sua máquina estava também uma imensa bilha que guardava, sempre fresquíssima, a água que se ia buscar à fonte e que eu bebia feliz por um copo de plástico amarelo que era o "meu" copo naquela casa.

Desvio-me em devaneios de tempos felizes de outrora e se não retomo o fio à meada esqueço-me da corda e do meu avô.

Não me lembro de muito mais do meu avô: não era homem de abraços nem de beijos; percebo hoje que as suas ternuras passavam por uma linguagem que na altura me era estranha.

Naquele dia essa ternura passou por eu acordar para mais um dia de brincadeiras e despreocupações e encontrar a minha corda remendada, reforçada, pronta para me acompanhar em saltos repetidos e resistir para sempre ali onde ela roçava o chão vezes sem conta, vezes sem conta.